
A extrema direita brasileira ganhou as eleições em 2018 com base em disparos em massa na internet, congregando a insatisfação das pessoas com a política e o poder espúrio. Nos quatro anos de governo, a máquina digital bolsonarista foi avassaladora, uma verdadeira linha de produção na qual as ideias que saíam do Planalto eram implementadas em diversos ministérios e gabinetes de deputados. Vídeos de matérias governistas produzidos pela TV Brasil ou por emissoras amigas, como a Record e o SBT, eram enviados já editados para compartilhamento, e frases de discursos do presidente eram destacadas em cards e robôs, para replicação. Além disso, o governo dispunha de grande número de seguidores no Telegram, Twitter (X), YouTube, Instagram, Facebook, além de milhares de correntes no WhatsApp.
Tanto na campanha, como nos primeiros anos de governo, Bolsonaro seguiu a cartilha trumpista de atacar instituições e jornalistas, questionar a lisura das eleições, minimizar problemas econômicos, sociais e sanitários, tudo permeado por campanhas de fake news, administrando pelo conflito, com três crises por mês. Com a proximidade das eleições, esforçou-se por amenizar o tom com a adoção de uma linha menos beligerante, correndo menos riscos de confronto com o judiciário e dedicando-se a inaugurações, a maioria delas de pedras inaugurais e obras ainda em andamento, com expressivos contatos diretos com apoiadores. Um ano antes das eleições de 2022 já estava em plena campanha eleitoral, com auxílio de sua poderosa máquina pública. Para Steve Bannon e Jason Miller, Bolsonaro dispunha do autoritarismo como instinto natural. Eles contribuiam aportando um pensamento mais estruturado, proveniente de uma base intelectual e ideológica mais acurada. Contudo, era no conflito e na radicalização que ficava à vontade, fazendo o que ele sempre soube fazer. Algumas recaídas foram inevitáveis.
Nas próximas eleições, de outubro de 2026, é esperada uma campanha de baixíssimo nível, permeada de fake news e do aumento da máquina midiática. A sociedade brasileira corre sérios riscos de piorar muito, caso o povo eleja para a Presidência o senador americanófilo Flávio Bolsonaro (famoso defensor de matadores do crime e da prática de rachadinhas em seu gabinete). Nos quatro anos de governo de seu pai, Jair Bolsonaro (2019 – 2022) ocorreu uma profunda descontrução do país. A depender do resultado das eleições, a mesma ideologia neoliberal e entreguista, de total submissão ao imperialismo norte-americano pode voltar a comandar o país. Vejamos alguns exemplos, destacando áreas estratégicas para o futuro do Brasil:
- Saúde pública: gestão desastrosa e desumana da pandemia Covid-19, executada de forma errática por cinco ministros, com a notória degradação dos programas de vacinação e da desconstrução do SUS, cujo orçamento sofreu significativa redução.
- Educação: gestão caótica executada por quatro ministros sem nenhuma qualificação na área, selecionados por seu alinhamento ideológico com o falecido “guru” Olavo de Carvalho, e com atuação limitada à imposição de uma pauta de costumes sectária, sem quaisquer melhorias na infraestrutura e qualidade do ensino e apoio aos estudantes e suas famílias.
- Ciência: perseguição político-ideológica a eminentes cientistas e a instituições de pesquisa, com a drástica redução de dotações orçamentárias a universidades de programas de incentivo à pesquisa cientifica.
- Meio Ambiente: desmonte do IBAMA, da FUNAI e do INPE e demais estruturas de controle e fiscalização ambiental apoiando grileiros no acelerado desmatamento de áreas públicas por meio de queimadas criminosas e garimpos ilegais que empregam sistematicamente o uso de mercúrio em suas operações de dragagem, com danos irreparáveis à qualidade da água dos rios e à piscicultura que constitui a base da alimentação de populações
- Cultura: desmonte da área (Lei Rouanet, Lei do Audiovisual, Concine, Ancine, Fundação Palmares, etc) com indiscriminada perseguição político-religiosa aos maiores expoentes da área cultural do país.
- Orçamento: ausência de políticas públicas, planejamento e priorização de investimentos, com a entrega da “chave do cofre” ao “centrão”, que reúne o que há de pior na política brasileira, imperando o patrimonialismo e a corrupção no uso de recursos públicos, distribuídos através do “orçamento secreto” cuja priorização e alocação passaram a ser feitas pelo “centrão” com a liberação dos recursos feita sem qualquer discussão pelo Executivo. Bolsonaro deixou para o novo governo, em 2023, precatórios impagos e desonerações criadas em 2022 que geraram um déficit que teve de ser administrado pelo Ministro Haddad. No gráfico apresentado no anexo, observa-se que o grande incremento de valor das emendas parlamentares ocorreu no segundo ano do governo Bolsonaro (2020) quando elas passaram de R$ 13,5 bilhões para R$ 35,9 bilhões (aumento de 165,92%). Os mandarins do Congresso perceberam a fraqueza e falta de princípios do governo Bolsonaro e testaram seus limites. Perceberam que eram totalmente frouxos. Então, adveio a apropriação pelo Congresso de parte significativa do orçamento público, com total omissão daquele governo, que já estava totalmente entregue às pressões e imposições do Legislativo. Daí em diante, a voracidade do Legislativo só aumentou, já que o centrão e a extrema direita continuaram dominando a maioria do Congresso e impondo valores cada vez mais altos de emendas como contrapartida para aprovação do orçamento anual do país entre outras leis indispensáveis para a administração pública.
- Petrobras: O governo Bolsonaro prejudicou muito a empresa. Como? Primeiro, não investindo quase nada. Segundo, vendendo empresas importantíssimas a preços vis e descontinuando importantes investimentos que estavam em andamento. Terceiro, maximizando a distribuição de dividendos em proporções nunca antes vistas. Deliberadamente, causou a diminuição da nossa soberania e autossuficiência energética.
Promoveu a concessão/privatização de campos de petróleo, gasodutos, refinarias e cadeias de distribuição, o que gerou lucros para a Petrobras pela venda de ativos já amortizados contabilmente, que favorecem os acionistas no presente, penalizando a empresa no futuro.
Alguns exemplos são:
=> leilões na área do pré-sal com a concessão para empresas estrangeiras, inclusive chinesas, do direito de exploração de reservas da ordem de 50 bilhões de barris de petróleo. Isso equivale à metade das reservas já identificadas do pré-sal.
=> Decisão de venda de todos os campos maduros (com produção em declínio) de produção de óleo e gás, em terra e em mar: campos de Pampo e Enchova, na Bacia de Campos, entre outros.
=> Privatização da BR Distribuidora através da venda de ações em Bolsa, cujo controle foi adquirido pela Vibra, que também obteve a cessão da marca da empresa no mercado.
=> Venda de 90% da TAG, maior transportadora de gás natural do país, para o grupo formado pela francesa Engie e a canadense CDPQ. A Petrobras, atualmente, paga pelo transporte de gás nos gasodutos.
=> Venda da refinaria de Pasadena, nos EUA, para a NRG/Quantum Energy Partners.
=> Acordo com o CADE para sair do setor de transporte e distribuição de gás natural, prevendo-se a venda de sua fatia no Gasoduto Brasil-Bolívia.
=> Colocação à venda de oito das 13 refinarias, dutos e terminais. A Refinaria RLAM da Bahia foi vendida para o Fundo de Investimento árabe Mudabala Capital, por US$ 1,65 bilhão.
=> Venda da Liquigás que detinha 30% do mercado de distribuição de glp.
=> Saída da Petrobras da área de fertilizantes hidrogenados, com a venda/arrendamento das fábricas existentes na Bahia e Sergipe, entre outras.
=> Descontinuidade da construção das plantas de fertilizantes de MG e MS.
=> Venda da planta de amônia e uréia do RGS.
Diversos grupos de interesse continuam disputando o excedente do petróleo. Os burocratas que se escondem atrás da ANP, os acionistas estrangeiros e brasileiros que já detém em torno de 63% do capital total da Petrobras (45% de capital estrangeiro e 18% de capital nacional), os oligopólios e monopólios estrangeiros, empresas brasileiras concessionárias e importadoras. E os mais prejudicados – como sempre – foram os consumidores.
Oxalá o novo governo Lula consiga mudar a orientação dos contratos na Petrobras. Priorizar a prestação de serviços no lugar das concessões e partilhas, não privatizar mais nada e recomprar as privatizações já realizadas. Dimensionamento do efetivo potencial do pré-sal, o que seria possível com um investimento da ordem de USD 6 bilhões e organizar o ritmo de produção do petróleo de acordo com os interesses nacionais, com repartição do excedente econômico.
A missão da Petrobras foi e deve continuar sendo a sua capacitação científica e tecnológica para abastecer o mercado interno, exportar excedentes e ditar o ritmo de produção e refino, que não necessariamente deve seguir a racionalidade de maximização de lucros dos investidores capitalistas. Por isso mesmo, idealmente, teria que ser de propriedade do povo brasileiro, sem sócios privados, cujos interesses têm conflitos irreconciliáveis com aqueles do nosso desenvolvimento social sustentável.
Os sete tópicos listados acima são suficientes para qualificar o governo Bolsonaro como o pior em toda a história republicana do Brasil.
A incessante luta do capitão Bolsonaro contra o consagrado sistema eleitoral brasileiro e instituições da República, coroada pela tentativa de golpe na democracia brasileira é, em tudo, semelhante às políticas adotadas pelos regimes autoritários ao redor do mundo. Bolsonaro é obcecado pelo poder e comportou-se como um psicopata, sem qualquer empatia, compaixão ou remorso. Seu filho tenta mostrar-se mais “equilibrado” mas, no fundo, é farinha do mesmo saco.
A eleição presidencial de 2026 não será uma eleição normal! Trata-se de uma eleição de vida ou morte. Definiremos o que queremos para nós e para nossos filhos e netos. Não é só Lula x Flávio Bolsonaro. É a opção por um Brasil plural e democrático ou a continuidade da extrema direita no poder, rumo ao precipício, com o negacionismo em relação à educação, cultura, ciência e meio ambiente, com práticas antidemocráticas, loteamento do orçamento público e a utilização massiva de fake news e de crenças religiosas como armas políticas.
Vejam as palavras de Jair Bolsonaro em seu discurso na Av. Paulista no dia 30 de junho de 2025, onde fica claro seu propósito de fazer um governo paralelo caso ele ou seu familiar não seja eleito:
Se vocês me derem por ocasião das eleições de 2026 50% da Câmara e 50% do Senado, eu mudo o destino do Brasil. Quem assumir a liderança vai mandar mais do que o Presidente da República. Com essa maioria, elegeremos o Presidente da Câmara, o Presidente do Senado, a maioria das comissões de peso na Câmara e no Senado. Nas sabatinas decidiremos quem terá missões no governo, indicaremos os representantes das agências, escolheremos o Presidente do Banco Central e todos os seus diretores, e os Presidentes das Estatais e Autarquias. E isso tudo, faço, mesmo sem ser Presidente.(Ver o vídeo)
Isso significaria impeachment de Ministros do STF ou do próprio Presidente da República.
Flávio Bolsonaro, por seu turno, em entrevista ao jornal Folha de SP, declarou que o bolsonarismo só apoiará a quem se comprometer a impor ao STF a aceitação do indulto ao seu pai, mesmo que isso implique “no uso da força”. Indulto para um condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. (Ver o vídeo)
Presentemente, vivemos no Brasil um boicote ao governo Lula com a paralização e/ou adiamento dos projetos do Executivo que requerem aprovação do Legislativo. Mas a extrema direita bolsonarista ainda não conseguiu 50% dos deputados e senadores. Há o centrão, que apesar de ser retrógrado, nem sempre está fechado 100% com os bolsonaristas. Mas, ao que tudo indica, isso não está muito longe de acontecer. O golpismo continua vivo e latente.
Daí a necessidade de votarmos bem para renovarmos os quadros do Congresso Nacional e evitarmos que o governo continue sendo chantageado pelo poder discricionário de deputados e senadores bolsonaristas e do centrão, com suas peripécias demagógicas e inconstitucionais. Que assim seja!
Anexo:

2025 – O valor das emendas por tipo:
– Comissão: 11,5
– Bancadas Estaduais: 14,3
– Individuais (Deputados): 19,0
– Individuais (Senadores): 5,5 (O Globo, Caderno de Política, p. 4, 21/3/25)
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Revisão: Celia Bartone
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