Talvez o erro mais persistente do debate recente seja supor que o país está diante da perda de algo que já existiu plenamente. Não está.

Circula com frequência crescente a ideia de que o mal-estar brasileiro atual decorre de um problema de “sonho de consumo”. O argumento é sedutor: o país teria vivido, nos 2000, nos primeiros 15 anos, um momento raro de aproximação social, no qual milhões de pessoas passaram a acreditar que padrões de vida antes distantes eram, enfim, alcançáveis. Hoje, esse horizonte teria recuado. O sonho teria se afastado.
A formulação é atraente, mas enganosa.
Ela parte de um diagnóstico parcialmente correto — a existência de uma memória social de ascensão — para chegar a uma conclusão equivocada sobre a natureza do problema contemporâneo.
O Brasil não está vivendo o colapso de um sonho. Está vivendo o limite de um modelo.
Entre 2003 e 2014, houve, de fato, um processo significativo de difusão de bens duráveis. Geladeiras, máquinas de lavar, automóveis, computadores e, posteriormente, acesso à internet, todos progressivamente mais presentes nos domicílios brasileiros. Esse movimento teve um impacto que ultrapassa o plano estritamente econômico. O consumo deixou de ser apenas satisfação de necessidades e passou a funcionar como linguagem de pertencimento.
Pela primeira vez em muito tempo, parcelas expressivas da população puderam experimentar, concretamente, práticas que antes serviam para demarcar distância social. Viajar de avião, crédito, aquisição de determinados bens — tudo isso não apenas ampliava o consumo de massa, mas reconfigurava a percepção de lugar na sociedade.
Essa experiência existiu. E ela importa.
Mas é precisamente aqui que a leitura dominante começa a se desorganizar.
O que se observa hoje não é uma reversão desse processo. Os principais bens duráveis não desapareceram dos domicílios. Ao contrário, muitos deles atingiram níveis próximos da universalização. O acesso à internet, impulsionado pela difusão do celular, expandiu-se de forma ainda mais ampla.
Não houve desinclusão material relevante.
O que houve foi outra coisa: saturação, desaceleração e deslocamento.
Saturação, porque parte significativa dos bens já foi incorporada ao cotidiano. Desaceleração, porque a capacidade de avançar — trocar, ampliar, sofisticar — tornou-se mais limitada. Deslocamento, porque a própria natureza do acesso mudou, especialmente com a centralidade do consumo digital.
Confundir esse processo com um retorno à exclusão é um erro analítico. E é um erro que obscurece o problema real.
O ponto decisivo é que a inclusão brasileira recente foi profundamente assimétrica em sua composição. Ela ocorreu com mais intensidade no consumo privado do que no consumo coletivo.
Dentro de casa, a vida mudou. Fora dela, muito menos.
Os domicílios se modernizaram, mas o espaço coletivo — aquele em que a vida social efetivamente se desenrola — avançou de forma desigual e, em muitos casos, insuficiente. O transporte urbano permaneceu precário, os serviços de saúde continuaram pressionados, a qualidade da educação avançou de maneira heterogênea, e a infraestrutura das cidades seguiu marcada por profundas desigualdades territoriais.
Essa dissociação produz uma experiência social peculiar: o indivíduo pode ter acesso a bens que simbolizam modernidade e pertencimento, mas continua inserido em um ambiente coletivo que não oferece padrões equivalentes de qualidade de vida.
A televisão de tela plana convive com o transporte exaustivo. O smartphone convive com a precariedade do serviço público. A conexão digital convive com a ausência de tempo, segurança e previsibilidade.
É nessa fricção que o mal-estar se forma.
A interpretação centrada no sonho de consumo erra o alvo porque permanece ancorada na lógica dos anos 2000, quando o consumo privado operava como principal vetor de integração social. Naquele contexto, a expansão do acesso a bens duráveis tinha capacidade de reorganizar expectativas e produzir sensação de progresso.
Hoje, esse mecanismo perdeu centralidade.
Não porque o consumo tenha deixado de existir, mas porque ele já não resolve — nem mascara — os limites estruturais da vida coletiva. Os bens foram incorporados, mas as condições que organizam o cotidiano permaneceram desiguais.
O problema, portanto, não é que o sonho tenha se tornado distante. É que o consumo deixou de ser capaz de sustentar, sozinho, a ideia de progresso.
O que emerge, no lugar dessa visão, é algo mais profundo e menos capturável por indicadores tradicionais: uma sensação difusa de instabilidade.
A renda é frequentemente incerta. Os custos essenciais pressionam o orçamento de forma contínua. A capacidade de planejamento é reduzida. E, sobretudo, não há uma percepção clara de trajetória — a expectativa de que o próximo ano será melhor do que o atual.
Essa ausência de horizonte não se traduz apenas em frustração. Ela produz uma experiência de vulnerabilidade permanente. E a vulnerabilidade, ao contrário do sonho, não mobiliza. Ela desorganiza.
É também no plano do consumo coletivo que os privilégios reaparecem com mais nitidez. Quando saúde de qualidade, educação, mobilidade e segurança não são ofertadas de forma ampla, elas deixam de funcionar como direitos universais e passam a operar como mecanismos de diferenciação social.
Quem pode, paga para sair do sistema coletivo. Quem não pode, permanece nele.
Nesse sentido, o consumo privado aproxima — ao menos na aparência — enquanto o consumo coletivo separa de forma estrutural.
A desigualdade muda de forma, mas não desaparece. Ela se desloca.
A ideia de que o desafio central do país é restaurar um “sonho de consumo” simplifica excessivamente a realidade. O que está em jogo é algo mais decisivo: a construção de condições de vida que não dependam exclusivamente da capacidade individual de consumir.
O Brasil não precisa apenas reativar o consumo individual como vetor de inclusão. Precisa enfrentar a qualidade da vida fora do domicílio — nas cidades, nos serviços públicos, nas infraestruturas que organizam o cotidiano. E isto não é apenas uma tarefa do governo federal, é de todos os entes federativos, estados e municípios.
É um problema mais difícil, porque não se resolve por meio do mercado ou do crédito. Ele exige coordenação, investimento público, capacidade estatal, planejamento e enfrentamento de desigualdades que não são apenas de renda, mas de território, tempo e acesso.
Talvez o erro mais persistente do debate recente seja supor que o país está diante da perda de algo que já existiu plenamente. Não está.
O que existiu foi um momento em que o consumo de massa conseguiu, por um período, reduzir a distância percebida entre segmentos sociais, principalmente nos da base social. Mas essa redução nunca foi completa, nem estrutural.
Hoje, o que aparece não é o fim desse processo, mas o limite de sua capacidade de produzir integração social duradoura e ampla.
O problema não é que o sonho de consumo se afastou.
É que a vida, fora de casa, nunca se aproximou o suficiente.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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