
Neste último fim de semana aconteceram as eleições na Colômbia. Em que pese a eventual surpresa do resultado final, a repetição da polarização entre a extrema direita e a esquerda vem marcando a América Latina (e talvez o mundo), no último período. Quadro similar se reproduziu no Peru e, pelas pesquisas, será bastante parecido no Brasil.
O que vemos é que, nos últimos anos, a política mundial tem sido marcada por uma crescente polarização ideológica. Eleições são frequentemente apresentadas como disputas decisivas entre projetos radicalmente distintos de sociedade, envolvendo confrontos entre esquerda e direita, progressistas e conservadores, globalistas e nacionalistas. No entanto, quando se observam os resultados concretos das políticas econômicas implementadas após as eleições, percebe-se uma realidade mais complexa: em muitos países, as mudanças de governo produzem menos alterações econômicas do que o discurso eleitoral sugere. Essas alterações podem se concentrar em outros aspectos da vida, mas dificilmente se dão na economia, onde costuma prevalecer a continuidade.
Essa aparente contradição decorre do fato de que os governos operam dentro de restrições estruturais cada vez mais fortes. A globalização financeira, os acordos internacionais, a dependência de investimentos privados, as regras fiscais e a influência dos mercados financeiros reduzem significativamente a margem de manobra dos governantes, independentemente de sua orientação ideológica. Políticas como o chamado “tripé macroeconômico” (política fiscal restritiva, política monetária idem, e câmbio flutuando de forma limitada) são generalizadas, assim como bancos centrais independentes. Os governos, de fato, têm cada vez menos governabilidade sobre a política econômica.
O caso do Chile é ilustrativo. A eleição de Gabriel Boric em 2021 foi apresentada como uma ruptura histórica com o modelo neoliberal construído durante a ditadura de Augusto Pinochet e preservado, em grande medida, pelos governos posteriores, inclusive os de centro-esquerda, da chamada “Concertación”. A chegada de uma nova geração de lideranças de esquerda ao poder gerou expectativas de profundas transformações econômicas e sociais. Contudo, ao longo de seu mandato, o governo encontrou fortes limitações institucionais e políticas. Propostas de reforma tributária mais ambiciosas enfrentaram resistência parlamentar, enquanto a rejeição das propostas de nova Constituição em referendos populares restringiu a capacidade de mudanças estruturais. Embora tenham ocorrido avanços em políticas sociais e trabalhistas, os fundamentos da economia chilena – baseados em exportações primárias de minerais, disciplina fiscal e abertura econômica, comercial e financeira – permaneceram praticamente inalterados.
Na Colômbia, a eleição de Gustavo Petro em 2022 representou a chegada inédita da esquerda à presidência. Durante a campanha, Petro criticou fortemente o modelo econômico dependente do petróleo e do carvão e defendeu uma transição produtiva baseada em energias renováveis e maior intervenção estatal. Entretanto, a economia colombiana continuou fortemente dependente das exportações de hidrocarbonetos e da atração de investimentos externos. As reformas sociais propostas avançaram de forma parcial, enquanto as restrições fiscais e as pressões dos mercados limitaram mudanças mais profundas. As taxas de juros seguiram fora do controle do Executivo, dificultando políticas de crescimento. O resultado foi uma combinação de inovação em algumas políticas sociais com relativa continuidade dos pilares econômicos existentes.
O Brasil oferece outro exemplo significativo. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 foi interpretada por muitos como uma inflexão importante após o governo de Jair Bolsonaro. De fato, mudanças relevantes aconteceram em áreas como política ambiental, política externa, valorização do salário mínimo e fortalecimento de programas sociais. Contudo, a condução macroeconômica permaneceu marcada pela busca da estabilidade fiscal, pelo compromisso com o controle da inflação e pela manutenção de elevados níveis de remuneração do capital financeiro, com taxas de juros estratosféricas dificultando o crescimento econômico. O novo “arcabouço fiscal” substituiu o antigo, e esgotado, “teto de gastos”, mas preservou a preocupação com as restrições nas contas públicas. Ao mesmo tempo, o Banco Central manteve ampla autonomia na condução da política monetária, mesmo no momento em que assumiram os indicados pelo novo governo. Assim, apesar das diferenças políticas evidentes entre os dois governos, a estrutura básica de funcionamento da economia brasileira sofreu mudanças relativamente limitadas. E, em que pesem os discursos de campanha por mudanças, já se estudam novas propostas de ajuste para depois das eleições, por quaisquer dos candidatos, mesmo que não o explicitem nesse momento.
Na Europa, a situação é semelhante. A Itália passou por sucessivas alternâncias de governo entre coalizões de centro-esquerda, tecnocratas e forças nacionalistas de direita. A chegada da primeira-ministra Giorgia Meloni ao governo em 2022 foi amplamente retratada como uma mudança histórica, devido às suas origens na direita nacional-conservadora. Entretanto, na prática, seu governo manteve o compromisso com as regras da União Europeia, preservou a participação italiana nos programas econômicos comunitários e não promoveu rupturas significativas na política fiscal ou monetária. A dependência dos recursos contribuiu para limitar iniciativas mais radicais.
Fenômenos semelhantes podem ser observados em outros países. Na Espanha, governos socialistas e conservadores alternaram-se ao longo das últimas décadas sem alterar substancialmente a inserção europeia da economia espanhola ou os principais compromissos fiscais do país. Na França, apesar do crescimento de forças políticas consideradas antissistema, dos dois lados do espectro político, as orientações econômicas centrais permaneceram relativamente estáveis. Mesmo no Reino Unido, onde o Brexit representou uma ruptura política significativa, muitas das restrições econômicas associadas aos mercados internacionais continuaram presentes.
Isso não significa que as eleições sejam irrelevantes. Mudanças de governo podem produzir diferenças importantes em políticas sociais, legislação trabalhista, regulação ambiental, direitos civis, política externa e, tentativamente, na distribuição de renda. Essas diferenças afetam diretamente a vida de milhões de pessoas e não podem ser subestimadas.
Entretanto, a experiência recente sugere que as disputas eleitorais frequentemente superestimam a capacidade dos governos de transformar profundamente os modelos econômicos nacionais. Em um contexto de forte integração financeira internacional, elevado endividamento público e crescente influência de mercados globais bastante instáveis e especulativos, os espaços para mudanças estruturais tornaram-se mais estreitos.
A consequência é um paradoxo político cada vez mais visível. As campanhas eleitorais apresentam alternativas aparentemente bastante opostas, mas os governos acabam administrando economias submetidas a condicionantes semelhantes de forma bastante similar. Isso ajuda a explicar por que muitos eleitores, após sucessivas alternâncias de poder, percebem que os resultados econômicos concretos diferem menos do que as promessas de campanha sugeriam, e muitos tendem a se frustrar com a possibilidade de mudanças.
A polarização continua mobilizando paixões e dividindo sociedades. Porém, quando o tema é a política econômica, a distância entre esquerda e direita frequentemente se revela menor do que a retórica eleitoral faz parecer. Em muitos casos, mudam os governos, mudam os discursos e mudam as prioridades políticas, mas os fundamentos econômicos permanecem notavelmente estáveis. Isso parece mostrar que sem enorme mobilização popular por mudança, de fato nada vai mudar nesse ambiente macroeconômico amarrado. A não ser uma pesada instabilidade econômica internacional que, como na crise entre 2007 e 2010, possa dar algum espaço para mudanças efetivas.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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