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Introdução: A ontologia do capital e o debate ortodoxo
A definição do conceito de “capital” permanece como um dos temas mais complexos e debatidos no escopo da ciência econômica. A teoria econômica dominante (neoclássica ou marginalista) frequentemente opera com modelos abstratos nos quais variáveis quantitativas de “capital” são introduzidas sem que haja uma delimitação ontológica clara do que essa grandeza de fato representa em termos materiais e sociais.
No âmbito da história do pensamento econômico, duas perspectivas principais tentaram responder a esse impasse — uma estritamente teórica e outra derivada da operação prática nos mercados financeiros:
- A Tradição Neoclássica Dominante: Compreende o capital a partir de uma perspectiva eminentemente funcional. Define-o como o conjunto de ativos — tangíveis ou intangíveis, maquinários ou know-how técnico — mobilizados de forma direta para a satisfação de demandas e necessidades de mercado.
- A Prática Pragmática de Mercado: Adota a linguagem empírica do ambiente de negócios. Caracteriza o capital simplesmente como um fundo monetário (um estoque de valor) alocado por um investidor com o objetivo de auferir retornos futuros.
Contudo, essas abordagens estáticas revelam limitações severas ao tentar explicar o dinamismo expansionista do capital. A indagação central que divide os teóricos reside em compreender o mecanismo pelo qual o capital se expande cumulativamente através do tempo, gerando fluxos contínuos de renda para os seus detentores.
Historicamente, as respostas formais da ortodoxia tenderam a convergir para formulações apologéticas de defesa do sistema capitalista. Karl Marx, em sua crítica da economia política, ridicularizou o dogma oitocentista que justificava o lucro como uma espécie de “recompensa legítima” pela abstinência do capitalista ao postergar seu consumo imediato.
Posteriormente, consolidou-se uma abordagem mais intuitiva que buscou analisar a dinâmica de acumulação com base na tecnologia, apontando-a como a causa central do dinamismo econômico. Sob essa ótica (essencialmente schumpeteriana), o “espírito empreendedor” seria a condição fundamental para a introdução de inovações na economia. A ausência dessa realização empreendedora implicaria a estagnação dos retornos e a paralisia da propulsão capitalista.
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A ilusão da inovação tecnológica e o processo de capitalização
Para avançar na argumentação, vale analisar um caso prático: a anatomia corporativa da empresa Uber. Esse exemplo ilustra com precisão a desconexão entre a valorização financeira e a efetiva contribuição produtiva ou tecnológica.
Ao realizar sua Oferta Pública Inicial (IPO) em 2019, a referida plataforma de transporte atingiu uma avaliação de mercado de US$ 82 bilhões. Sob a ótica convencional, tal cifra expressaria o ápice da inovação e da eficiência de mercado. No entanto, a análise empírica do modelo de negócios da corporação revela determinantes opostos:
- Déficit crônico: A companhia operou em regime de prejuízo sistemático durante a década que antecedeu sua abertura de capital, consumindo continuamente subsídios aportados por fundos de capital de risco (venture capital).
- Ausência de inovação radical: A arquitetura técnica de seu aplicativo não apresentava inovações importantes em relação ao estado da arte da programação da época. Ademais, a empresa não detinha a propriedade dos meios físicos de produção (as frotas de veículos).
- Tecnologia de base estatal: As tecnologias basilares do arranjo (redes de internet, sistemas de posicionamento global – GPS e smartphones) foram desenvolvidas originalmente por meio de vultosos investimentos estatais de fomento à pesquisa básica.
A avaliação astronômica da empresa, portanto, não refletia um ganho de produtividade passado, mas sim a projeção da captura de uma posição monopolista futura. Valendo-se de uma estratégia de preços artificialmente deprimidos (dumping) para inviabilizar a concorrência e desestruturar os arranjos de transporte público locais, a Uber buscou consolidar um monopólio de plataforma que permitisse, posteriormente, a extração de valor sobre a remuneração de motoristas e as tarifas de passageiros.
A partir dessa evidência, conclui-se que o capital não deve ser compreendido como uma poupança materializada do passado — sob a forma de maquinário ou finanças —, mas sim como uma “captura do futuro”.
O mecanismo da capitalização que tem o seu cerne na dinâmica reside no processo institucional pelo qual um fluxo de rendimentos projetado para o futuro (sejam receitas tributárias estatais, parcelas de financiamentos imobiliários ou lucros corporativos potenciais) é precificado e convertido em um ativo financeiro transacionável no presente. As ações negociadas em bolsa funcionam, portanto, como títulos de propriedade sobre uma cobrança futura imposta a trabalhadores, consumidores e ecossistemas.
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A infraestrutura como extração de valor
O aumento do lucro empresarial frequentemente exige a restrição deliberada da produção, a obstrução de inovações que ameacem o valor de ativos existentes, a manufatura artificial da escassez e o aumento arbitrário de preços por meio do poder de mercado. A valorização acionária contemporânea atua como um indicador do fardo econômico que a estrutura corporativa consegue impor às gerações vindouras. Nesse sentido, a retórica da livre concorrência, da inovação tecnológica e do crescimento funciona como um “álibi” ideológico para ocultar a essência espoliativa do capitalismo.
Essa dinâmica financeira não ocorre no vácuo; ela depende de infraestruturas físicas específicas. As grandes obras públicas e privadas são vetores históricos de capitalização via endividamento e criação de crédito:
- O boom ferroviário do século XIX: A expansão de linhas férreas redundantes — frequentemente caracterizadas como ferrovias ligando “o nada ao lugar nenhum” — atendia primariamente à necessidade de expansão de bolhas de crédito e especulação imobiliária.
- A Barragem de Assuã no Egito: As intervenções coloniais britânicas através da reengenharia hidráulica do Rio Nilo desempenharam a mesma função financeira. Legitimado pelo discurso desenvolvimentista de modernização agrícola para a inserção do país no mercado global de commodities (algodão e açúcar), o projeto gerou severos impactos socioambientais. Houve a desestruturação dos sistemas tradicionais e comunitários de irrigação baseados nas rodas d’água, a inundação permanente de territórios na Núbia, o declínio de longo prazo na fertilidade do solo e o surgimento de crises sanitárias ligadas a vetores epidemiológicos.
Paralelamente ao colapso ecológico local, o arranjo financeiro arquitetado por bancos britânicos logrou êxito em securitizar o projeto por meio de “certificados de irrigação”. Esses títulos garantiam o fluxo de juros aos investidores metropolitanos à custa do aumento da carga tributária sobre os próprios camponeses egípcios despossuídos. Evidencia-se, assim, a conversão da infraestrutura física em uma máquina institucional voltada para o recolhimento de tributos, pedágios e rendas monopolistas.
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Discussão crítica: monopólio, competição e o caso chinês
Os exemplos apresentados fornecem subsídios valiosos para o entendimento da financeirização e do chamado “capitalismo rentista”. Contudo, não se deve confundir esses fenômenos com a própria ontologia do capital. Não existe uma relação exclusiva ou unívoca entre o capital e o rentismo extra-produtivo.
A generalização do modelo predatório da Uber como a síntese universal do capitalismo contemporâneo negligencia a permanência de pressões competitivas globais. A análise histórica demonstra que os regimes monopolistas não são estáticos; eles coexistem em uma relação dialética com forças de concorrência que operam em escala internacional.
A reconfiguração da divisão internacional do trabalho no pós-guerra — marcada pelo desenvolvimento industrial da Alemanha Ocidental, do Japão e, subsequentemente, do Leste Asiático — evidencia a recorrência de ciclos de concorrência intercapitalista que desestabilizam posições monopolistas consolidadas.
Esse limite analítico manifesta-se de forma explícita na ausência de uma discussão robusta sobre o papel da China na economia política do século XXI. O modelo de acumulação chinês, caracterizado por uma competição interna acirrada, taxas elevadas de investimento produtivo e superprodução em setores industriais de alta tecnologia (como a cadeia de semicondutores e veículos elétricos), colide frontalmente com a premissa de um capitalismo puramente parasitário e avesso à expansão material.
Como Marx pontuou em A Miséria da Filosofia, monopólio e concorrência não constituem categorias mutuamente excludentes, mas sim uma síntese dinâmica em constante movimento. A extração de rendas financeiras só se sustenta institucionalmente porque está ancorada em um metabolismo produtivo global que expande continuamente a base material de valor.
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A ecologia política do capitalismo e a crise climática
A limitação de uma teoria baseada exclusivamente no rentismo torna-se crítica ao abordar a gênese da crise ecológica global. Segundo essa abordagem restrita, o fenômeno da “Grande Aceleração” das emissões de gases de efeito estufa a partir de meados do século XX não teria decorrido de imperativos sistêmicos do capitalismo, mas sim de um arranjo político específico arquitetado por cartéis petrolíferos e pelo complexo industrial-militar para impor uma matriz energética fóssil altamente rentável.
Não obstante a validade das evidências sobre a atuação política de corporações transnacionais na contenção de alternativas energéticas, essa tese puramente “conspiratória” ou política mostra-se insuficiente para explicar a totalidade do colapso ecológico. O metabolismo da acumulação contemporânea exige o consumo crescente não apenas de hidrocarbonetos, mas de uma ampla gama de insumos biofísicos (concreto, aço, água, minerais raros e fertilizantes sintéticos).
A dinâmica da acumulação capitalista demonstra o caráter cumulativo e de interdependência das transições energéticas. Sob o capitalismo, a introdução de novas fontes de energia não substitui as anteriores, mas amplia a escala geral de espoliação da biosfera. A dinâmica das indústrias de base, como a siderurgia e a produção de cimento (coletivamente responsáveis por uma parcela expressiva das emissões industriais globais), exemplifica o impasse:
- Pressão por custos: Esses setores operam em mercados internacionais altamente competitivos e com margens de lucro estreitas. A pressão competitiva por custos unitários menores compele as firmas a adotarem fornos de alta capacidade física e térmica, elevando exponencialmente o consumo material e, consequentemente, as emissões de dióxido de carbono.
- Barreiras ao investimento verde: A baixa rentabilidade relativa e a acirrada concorrência de preços atuam como barreiras estruturais para a adoção de investimentos em descarbonização de longo prazo, que exigem altos custos iniciais e oferecem retornos incertos.
Desse modo, a crise climática não se afigura como o mero resultado de uma restrição artificial da produção por parte de monopólios rentistas, mas sim, como a consequência lógica do desenvolvimento cego e desmedido das forças produtivas impulsionadas pela concorrência intercapitalista global.
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Conclusão
No plano das proposições políticas, identificam-se duas principais correntes de contestação ao cenário atual:
- Institucionalistas liberais: Sugerem que a superação do cenário de catástrofe ambiental e social requer a imposição de restrições regulatórias severas sobre as instituições de crédito e a proibição da capitalização de fluxos de renda de longo prazo em setores estratégicos de utilidade pública. Essa agenda, contudo, foca na mitigação de excessos financeiros sem alterar as relações de propriedade subjacentes.
- Institucionalistas social-democratas / tecnocráticos: Apontam para a necessidade de superação do regime de propriedade privada por meio da transferência do controle produtivo para conselhos de técnicos, engenheiros e trabalhadores organizados. No entanto, essa formulação frequentemente assume um viés tecnocrático ingênuo — similar à defesa da autonomia de bancos centrais —, acreditando que a gestão econômica poderia ser blindada, de forma politicamente neutra, contra as pressões das forças sociais de mercado.
Esta última vertente incorre em um produtivismo que demanda urgente revisão diante dos limites biofísicos do planeta. Todavia, sua crítica aos direitos absolutos de propriedade privada permanece central.
A propriedade privada constitui a premissa jurídica fundamental que faculta ao capital tanto a extração predatória de rendas quanto a expansão produtiva ecologicamente destrutiva. Na ausência de uma contestação radical desses direitos institucionais, os mecanismos de “captura do futuro” continuarão a inviabilizar as condições de reprodutibilidade da vida social no presente.
Nota:
- O artigo usa como referência a análise desenvolvida por Timothy Mitchell em “The Alibi of Capital: How We Broke the Earth to Steal the Future on the Promise of a Better Tomorrow” (English Edition) Formato: eBook Kindle.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
Leia também “O capitalismo que disputa a realidade e o controle do futuro”, de Marcio Pochmann.






