
Há momentos em que a história muda de direção. Não porque uma nova máquina é inventada, nem porque um novo processo ou produto chegou ao mercado. A história muda quando aquilo que organiza o poder se transforma. Foi assim no passado, com a emergência da máquina a vapor, a chegada da eletricidade, a produção em massa e, atualmente, a disseminação dos dados, algoritmos e inteligência artificial.
Em menos de trezentos anos, o capitalismo mudou de rosto pelo menos três vezes. Em cada transformação, alterou não apenas a forma de gerar riquezas, mas também o modo de produzir o poder. Entre o final do século XVIII e o século XIX, por exemplo, o capitalismo concorrencial manchesteriano construiu a sua legitimidade sobre a promessa da livre concorrência. A fábrica assumiu a centralidade da dinâmica econômica, enquanto a riqueza passou a ser medida pela capacidade do trabalho transformar a natureza em mercadorias.
No século XX, contudo, o manchesterianismo entrou em declínio. O mundo foi reorganizado a partir do capitalismo oligopolista fordista, que concentrou empresas, fortaleceu o Estado nacional e fez do industrialismo o eixo da soberania das nações. Quem dominava a produção, a ciência e a infraestrutura ocupou uma nova posição estratégica no sistema internacional.
Neste primeiro terço do século XXI, contudo, o capitalismo californiano aponta para uma mutação nova e ainda mais profunda. O centro do poder deslocou-se da fábrica para a plataforma, da máquina para o algoritmo e da mercadoria física para os dados que foram sendo incorporados à nova forma de riqueza e poder. Em síntese, o capitalismo atual descobriu que é mais eficiente personalizar do que padronizar, tornando mais lucrativo prever do que concentrar nas vendas.
Uma verdadeira revolução no tempo presente marca a passagem da produção material para a produção imaterial da realidade. No passado, a Escola de Frankfurt percebeu que a indústria cultural produzia subjetividades. O aparecimento do rádio e, na sequência, da televisão, que, instalada geralmente na sala das casas, organizava uma experiência coletiva de produção de subjetividades. Milhões de famílias se conectavam ao mesmo noticiário, às mesmas novelas, enfim, aos mesmos acontecimentos. O poder estava concentrado, embora a experiência fosse compartilhada.
Hoje, a sala das casas desapareceu enquanto centro da vida simbólica. O celular ocupa o bolso, enquanto a plataforma sobressai na consciência, sendo o algoritmo o mediador do indivíduo com o mundo. Com isso, o paralelo desaparecimento gradual de uma mesma narrativa comum pela predominância de quase infinitas gerações de narrativas cada vez mais personalizadas.
Cada cidadão recebe uma perspectiva de realidade diferente, capaz de organizar em tela um mundo diferente, propriamente mediado por algoritmos que produzem experiências distintas. Nunca a humanidade compartilhou tanta informação com tão pouca realidade comum em meio à crescente desinformação e alienação generalizada.
No passado das sociedades urbanas e industriais, Walter Benjamin (1892-1940) identificou que a reprodutibilidade técnica transformava a obra de arte e modificava a forma de perceber o mundo. Nas atuais sociedades de serviços hiperconectadas da era digital, assiste-se ao avanço da transformação da reprodutibilidade algorítmica, um fenômeno qualitativamente distinto.
Não são apenas por imagens que são reproduzidas, mas também por interpretações, memórias, afetos, desejos, medos, expectativas e, sobretudo, futuros que passam a estar em disputa por seu controle. As plataformas das big techs deixam de estruturar mercados para organizar horizontes de possibilidades, selecionando o que ver, classificando informações, definindo prioridades, reproduzindo interpretações, influenciando o pensamento e antecipando o que poderá vir a ser feito.
Dessa forma, a contenda econômica assume a disputa pela arquitetura da percepção humana e é nesse contexto que documentos como o Manifesto da Palantir de abril de 2026, tornado público por uma das maiores empresas estadunidenses de inteligência artificial, necessitam ser compreendidos como sintomas de uma nova época. Eles expressam uma visão em que tecnologia, inteligência artificial, Estado e geopolítica se fundem numa mesma arquitetura estratégica.
Ao defender o uso de armas com IA em substituição às da era atômica, o Manifesto sustenta visões neorreacionárias que conectam o capitalismo californiano, especialmente a partir do Vale do Silício, aos interesses militares da potência estadunidense. Uma visão que inegavelmente evidencia quanto a disputa tecnológica deve ser entendida como rivalidade intensa pela afirmação do poder global.
A questão decisiva não passa mais por quem desenvolve os melhores modelos de inteligência artificial. Ascende a quem decide quais perguntas podem ser feitas, as respostas a serem consideradas legítimas, os indicadores a orientar governos, os mapas a representarem o território, as estatísticas a definir prioridades. Enfim, quais algoritmos organizarão e direcionarão a atenção coletiva a partir da percepção conduzida individualizadamente na era digital dominada pelo monopólio das big techs.
Esse processo talvez represente a formulação mais explícita da nova ideologia do capitalismo californiano na era digital, assentado na tecnologia, inteligência artificial, poder militar, segurança nacional e plataformas privadas enquanto centralidade estratégica infraestrutural – mais do que uma inovação, a disputa por quem terá autoridade para organizar o conhecimento e, consequentemente, definir o futuro.
Em síntese, o capitalismo californiano anuncia a formação de uma nova Idade Média digital. As big techs parecem cada vez mais ocupar neste primeiro terço do século XXI, a função que a Igreja exerceu na Idade Média, tornando-se mediadoras quase absolutas da relação do indivíduo com o mundo. Administrando o que é verdade, organizando a memória e definindo o que deve ser visto, elas ocultam o que deve ser esquecido e transformam algoritmos em novos dogmas invisíveis.
Sob a aparência sedutora da inovação, da eficiência e da liberdade de escolha, ergue-se uma arquitetura privada de poder que disputa a autoridade sobre o conhecimento, disciplina comportamentos, captura desejos e atua no sentido da monopolização do próprio futuro. Já não se trata apenas de vender produtos ou controlar mercados, mas de governar a realidade percebida por bilhões de pessoas.
Durante boa parte da história, os impérios disputavam territórios. Depois, passaram a disputar petróleo, indústrias e mercados. Agora, disputam dados, modelos de inteligência artificial, capacidade computacional e infraestrutura digital. Por isso, no século XIX, a disputa estava nas minas; no século XX, estava nas fábricas e no petróleo; no século XXI, centralizam nos dados, modelos, capacidade computacional e inteligência. O novo imperialismo não precisa mais ocupar militarmente um país, basta tornar indispensáveis as suas plataformas e os seus ecossistemas digitais.
Ademais de controlar recursos naturais, avança sobre fluxos de informação, colonizando economias, imaginários, dados e indicadores, uma vez que a produção dos dados e indicadores influencia as políticas públicas. E, ao influenciar as políticas públicas, passa a interferir sobre a organização dos investimentos que são os elementos condicionadores do futuro.
Assim, a disputa deixa de ocorrer apenas sobre a riqueza, para se ampliar em torno da própria realidade, cuja dependência tecnológica converte-se em dependência cognitiva que revela, gradualmente, o grau de dependência política organizada em torno do novo modo de poder. É aqui que a questão brasileira assume dimensão estratégica, pois o país precisa defender suas florestas, sua biodiversidade, energia e indústria.
Mas também precisa defender a sua capacidade de conhecer a si mesmo. Para isso, o aprofundamento da produção das estatísticas públicas, cartografia própria, desenvolvimento da inteligência artificial, organização de infraestrutura computacional e geração de conhecimento científico independente passa a ser crucial. Essa é a nova fronteira da soberania dos verdadeiros Estados nacionais.
Instituições como o IBGE deixam de ser apenas produtoras de estatísticas e geociências. Transformam-se em instituições da República Tecnológica, pois assumem a responsabilidade de garantir que a representação da realidade brasileira permaneça como um bem público, democrático e transparente, não como uma mercadoria controlada por interesses privados.
Ao longo do século XXI, a democracia não se mantém apenas no direito de votar, mas também no direito de conhecer. No direito de produzir conhecimento. No direito de acessar algoritmos transparentes. No direito de participar da construção da inteligência coletiva. A soberania do futuro será, antes de tudo, a soberania cognitiva.
O conflito decisivo do tempo presente não está mais centrado só na relação entre capital e trabalho, nem apenas entre Estado e mercado. Está entre dois projetos de civilização. De um lado, a privatização crescente da inteligência coletiva e, de outro, a construção democrática de um patrimônio público do conhecimento.
Essa é a verdadeira batalha do século XXI, porque quem controla os meios de produção da realidade controla, em larga medida, os meios de produção do futuro. E nenhuma nação será verdadeiramente livre se perder o direito de imaginar, interpretar e construir o seu próprio amanhã. Porque quem controla os algoritmos impacta a percepção, influencia decisões e molda o próprio futuro. Em função disso, a pergunta essencial já não é apenas quem produz mais riqueza, mas quem passa a ter o poder de definir o que o mundo considera realidade e o próprio direito de imaginar o futuro.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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