Entre 2023 e meados de 2026, o mercado de trabalho brasileiro apresentou uma das recuperações mais expressivas desde o início da série histórica da PNAD Contínua. A taxa oficial de desemprego caiu de patamares próximos a 8% em 2023 para níveis próximos de 5,5% em 2025 e 2026, atingindo os menores índices desde 2012. À primeira vista, os números sugerem um cenário bastante favorável. Apesar disso, uma análise mais cuidadosa parece revelar uma realidade mais complexa: o Brasil conseguiu reduzir significativamente o desemprego, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar essa melhora quantitativa em empregos de melhor qualidade, maior produtividade e melhores salários.

Os dados do IBGE mostram uma trajetória consistente de queda da desocupação desde 2023. Ao longo de 2024 e principalmente em 2025, a economia continuou absorvendo trabalhadores, elevando o número de pessoas ocupadas para recordes históricos. Em maio de 2026, a taxa de desocupação chegou a 5,6%, o melhor resultado para esse período do ano desde o início da série da PNAD Contínua.

Essa redução decorre de uma combinação de fatores. O primeiro foi a retomada do crescimento econômico após os anos de pandemia e da desaceleração observada entre 2021 e 2022 (neste último ano, tivemos o início da guerra na Ucrânia e mudanças importantes no cenário internacional). A partir de 2023, o consumo das famílias permaneceu relativamente forte, impulsionado pela recuperação da renda, pela expansão dos programas de transferência de renda, pelo crescimento do emprego formal e pelo aumento real do salário mínimo. Ao mesmo tempo, setores intensivos em mão de obra, como comércio, serviços, construção civil e turismo, voltaram a contratar em ritmo acelerado.

Entretanto, como o DIEESE, por exemplo, tem enfatizado em seus boletins sobre mercado de trabalho, a redução da taxa de desemprego não pode ser interpretada isoladamente como sinônimo de pleno emprego ou de melhora estrutural do mercado de trabalho. O indicador de desocupação mede apenas as pessoas que procuram trabalho e não encontram ocupação. Ele não captura integralmente problemas como a informalidade, a subocupação por insuficiência de horas trabalhadas (ampliada com a reforma trabalhista de 2017), o desalento e a baixa remuneração de parte importante dos trabalhadores.

É justamente nesse ponto que a análise merece ser aprofundada. O mercado de trabalho brasileiro mudou de perfil nos últimos anos. A expansão do emprego ocorreu em grande medida nos serviços, muitos deles de baixa produtividade, e também entre trabalhadores por conta própria e ocupações intermediadas por plataformas digitais. Embora tenha havido crescimento do emprego com carteira assinada, a informalidade permaneceu elevada, oscilando em torno de um terço dos ocupados, dependendo do trimestre considerado. Além disso, milhões de brasileiros continuam trabalhando menos horas do que gostariam ou exercendo atividades de baixa qualificação, fenômeno que o IBGE classifica como subutilização da força de trabalho. Em 2026, mesmo com desemprego historicamente baixo, a taxa de subutilização ainda permanecia próxima de 14%, mostrando que o mercado de trabalho continua apresentando importante ociosidade.

Outro aspecto importante refere-se à qualidade da renda do trabalho. Após um longo período de perdas provocadas pela inflação elevada entre 2021 e 2022, os salários voltaram a apresentar ganhos reais. A recuperação do poder de compra foi favorecida tanto pela desaceleração da inflação quanto pela política de valorização do salário mínimo retomada pelo governo federal. Ainda assim, o crescimento da massa salarial não elimina diferenças importantes entre trabalhadores altamente qualificados e aqueles inseridos em ocupações precárias ou informais.

Também persistem desigualdades bastante expressivas entre grupos sociais e regiões. Jovens continuam apresentando taxas de desemprego muito superiores à média nacional, assim como as mulheres e a população negra enfrentam maiores dificuldades de inserção ocupacional. Regionalmente, Norte e Nordeste seguem registrando indicadores de desemprego e subutilização acima da média brasileira, enquanto estados do Sul e parte do Centro-Oeste convivem com níveis próximos ao chamado “pleno emprego estatístico”. Essas diferenças mostram que a melhora do mercado de trabalho ocorreu de forma desigual no território nacional.

Outro elemento importante é que parte da queda do desemprego decorre de mudanças demográficas e do próprio comportamento da força de trabalho. O envelhecimento populacional reduz o crescimento da população economicamente ativa, enquanto uma parcela dos trabalhadores deixa temporariamente de procurar emprego ou opta por atividades autônomas, o que também influencia os indicadores tradicionais de desocupação. Por isso, é relevante analisar simultaneamente indicadores de participação, ocupação, informalidade, rendimento e subutilização, evitando conclusões baseadas apenas na taxa oficial de desemprego.

A questão central passa então a ser a sustentabilidade dessa melhora. Um mercado de trabalho robusto depende, no longo prazo, do crescimento da produtividade da economia. E isto continua sendo um dos maiores desafios brasileiros. O país gera empregos, mas ainda enfrenta dificuldades para ampliar investimentos, incorporar inovação tecnológica, elevar a qualificação profissional e expandir setores industriais de maior intensidade tecnológica. Sem esses avanços, há limites para o crescimento dos salários e da renda das famílias.

Além disso, a própria dinâmica internacional impõe novos desafios. A desaceleração da economia mundial, os juros elevados em diversas economias e as transformações tecnológicas relacionadas à digitalização e à inteligência artificial devem alterar significativamente a demanda por diferentes ocupações nos próximos anos. Isso exige políticas permanentes de qualificação profissional, educação tecnológica e adaptação da força de trabalho às novas exigências produtivas, além do debate em curso sobre a redução da jornada de trabalho.

Os números do IBGE mostram uma conquista importante: entre 2023 e 2026, o Brasil reduziu o desemprego aos menores níveis da série histórica recente. Trata-se de um resultado relevante, que melhora as condições de vida de milhões de famílias e fortalece o mercado consumidor. Entretanto, uma leitura mais atenta recomenda cautela diante de interpretações muito otimistas. O principal desafio já não é apenas criar postos de trabalho, mas elevar sua qualidade. Enquanto persistirem elevados níveis de informalidade, subocupação, desigualdade regional e baixa produtividade, o país continuará convivendo com um mercado de trabalho que melhora em quantidade, mas ainda precisa avançar significativamente em qualidade, o que acaba refletindo em números positivos, mas uma sensação generalizada – e real – de desconforto com os próprios números positivos, embora estes evidentemente mostrem uma situação mais favorável.

Isso aponta uma agenda possível para os próximos anos: transformar a recuperação do emprego em desenvolvimento econômico, baseado fundamentalmente na indústria, capaz de combinar crescimento, produtividade, valorização do trabalho e redução das desigualdades sociais.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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