O discurso do técnico do Egito e a consciência moral que faltou ao futebol mundial

Durante décadas, acostumamo-nos a ouvir que esporte e política não se misturam. A frase tornou-se uma das maiores ficções produzidas pelas instituições esportivas internacionais. Nunca foi verdadeira. O esporte sempre esteve profundamente ligado à política, à diplomacia e às disputas de poder. O que normalmente se pretende impedir não é a presença da política, mas apenas das causas consideradas inconvenientes.

Foi exatamente essa barreira que o técnico da seleção do Egito, Hossam Hassan, rompeu durante a Copa do Mundo de 2026.

Depois da histórica classificação egípcia e às vésperas do confronto contra a Argentina, Hassan não falou apenas de futebol. Preferiu falar de humanidade. Disse que o sofrimento do povo palestino representa “uma vergonha para o mundo inteiro”. Foi além: afirmou que quem não consegue sentir empatia diante daquela tragédia “não é humano”. Pediu ainda que a FIFA, os atletas e a imprensa utilizassem o enorme poder do futebol para defender o direito dos palestinos de simplesmente existirem e viverem suas vidas.

Não era um comentário improvisado. Dias antes, após eliminar a Austrália, entrou em campo carregando a bandeira palestina e dedicou a vitória “ao povo egípcio e ao povo palestino”. A imagem percorreu o mundo.

O futebol, por alguns minutos, deixou de ser apenas espetáculo. Tornou-se consciência.

O falso mito da neutralidade

Sempre que atletas ou dirigentes manifestam solidariedade às vítimas de guerras, ocupações militares ou violações de direitos humanos, surge imediatamente a cobrança pela “neutralidade”.

Mas neutralidade diante de uma tragédia humanitária nunca foi verdadeira neutralidade. É uma escolha política.

Silenciar diante do sofrimento de milhares de civis significa aceitar que determinadas vidas merecem menos atenção que outras.

Ao longo da história, o esporte nunca permaneceu neutro. Foi utilizado como instrumento de propaganda pelos regimes fascistas nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.

Foi palco dos protestos históricos de Tommie Smith e John Carlos contra o racismo em 1968.

Apoiou campanhas contra o apartheid sul-africano.

Recebeu atletas ucranianos com inúmeras manifestações de solidariedade após a invasão russa.

Em diversas ocasiões, a própria FIFA suspendeu federações nacionais em razão de conflitos políticos ou interferências governamentais.

Por que, então, quando o tema é a Palestina, tantos optam por um silêncio absoluto? A resposta talvez revele mais sobre a geopolítica internacional do que sobre o esporte.

O futebol como linguagem universal

Poucas instituições possuem hoje alcance comparável ao futebol.

Uma Copa do Mundo mobiliza bilhões de pessoas. Chefes de Estado comparecem aos estádios. Governos investem bilhões para sediar competições. Empresas disputam espaços publicitários que alcançam praticamente todo o planeta.

Ignorar esse poder simbólico significa desperdiçar uma das maiores plataformas globais de comunicação.

Foi exatamente isso que Hossam Hassan compreendeu. Seu apelo não era por sanções, boicotes ou discursos de ódio.

Era um pedido simples. Que o futebol ajudasse a lembrar que os palestinos também são seres humanos. Que possuem direito à vida. À dignidade. À esperança.

Em um momento em que estatísticas de mortos e deslocados se sucedem diariamente, recordar a humanidade das vítimas tornou-se, paradoxalmente, um ato político.

A coragem que expôs o constrangimento internacional

O gesto do treinador egípcio tornou-se ainda mais significativo porque ocorreu num ambiente em que dirigentes esportivos normalmente evitam qualquer declaração que possa contrariar interesses políticos ou econômicos.

Patrocinadores pressionam. Governos pressionam. Federações pressionam. O resultado costuma ser um silêncio cuidadosamente calculado.

Hassan fez exatamente o contrário. Sabia que seria criticado. Sabia que parte da imprensa tentaria enquadrar sua fala como manifestação política inadequada. Ainda assim, falou.

Sua coragem acabou expondo o constrangimento de muitas das maiores autoridades esportivas do planeta, incapazes de pronunciar sequer palavras de solidariedade diante de uma das mais graves crises humanitárias do século XXI.

Quando a humanidade entra em campo

Não é necessário concordar com todas as posições políticas existentes sobre o conflito israelense-palestino para reconhecer uma verdade elementar: civis não deveriam morrer em massa, crianças não deveriam crescer entre escombros e populações inteiras não deveriam ser privadas das condições mínimas de sobrevivência.

Essa constatação antecede qualquer alinhamento ideológico. Ela pertence ao terreno da ética.

Foi exatamente esse terreno que Hossam Hassan escolheu ocupar. Seu discurso não dividiu o futebol. Lembrou apenas que existe algo maior do que vencer partidas.

Existe a responsabilidade moral de não permanecer indiferente quando a dignidade humana é destruída diante dos olhos do mundo.

O significado de um gesto

Talvez o técnico egípcio não altere os rumos da guerra. Provavelmente seu discurso sozinho não mudará as decisões das grandes potências, nem resolverá um conflito que atravessa gerações.

Mas há momentos em que a importância de uma declaração não reside em sua capacidade imediata de produzir resultados. Reside em impedir que a indiferença se transforme em norma.

Em tempos nos quais tantas instituições preferem o conforto da omissão, Hossam Hassan lembrou que o esporte pode ser mais do que entretenimento. Pode ser consciência. Pode ser solidariedade. Pode ser voz para aqueles que perderam quase tudo, inclusive a possibilidade de serem ouvidos.

Quando um técnico de futebol precisa recordar ao mundo que sentir compaixão pelos que sofrem é condição elementar da própria humanidade, talvez o problema já não esteja apenas nos campos de batalha.

Talvez esteja, sobretudo, naquilo que o restante do mundo decidiu não enxergar.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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