O descolamento do bolsonarismo está em uma fase crítica. É difícil para os candidatos notórios, mas é mais fácil para o “centrão”. (Original Sul 21)

A solução pro nosso povo eu vou dá / Negócio bom assim ninguém nunca viu /
Tá tudo pronto aqui é só vim pegar / A solução é alugar o Brasil
Aluga-se – Raul Seixas, 1980
Ao tornar pública parte da jogada política e financeira envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, e o desprezo pela soberania nacional, a imprensa possibilita a libertação de diversas amarras políticas.
A revelação desse conjunto de artifícios demonstra, a cada momento, como o capital financeiro pode desencadear implicações internacionais e locais. Também revela como se penetra invisivelmente no cotidiano de cada um de nós. Além disso, poderá realinhar setores submissos à extrema direita por terem sido engolidos pela ausência de alternativas de poder.
Esse vazamento reativa o desgaste de escândalos passados, pois não são novidade em nosso país. Pelo menos desde os tempos da ditadura militar, o capital financeiro traz prejuízos à economia nacional. Nos últimos 50 anos, os mais evidentes foram os Casos Lutfalla e Capemi, e o Escândalo Coroa-Brastel, todos com a utilização direta ou indireta de recursos do tesouro nacional para a resolução de obscuras operações financeiras.
Nesse momento, ainda não temos claro o alcance da articulação envolvendo o Caso Master, mas já é possível fazer ilações que ultrapassam o financiamento de um filme do estilo “Os Trapalhões”, ou as histórias de Mazzaropi. Podem aparecer articulações envolvendo o financiamento internacional antidemocrático, ou outros operadores financeiros, por mais que esta pareça ser a face monetária do projeto da extrema direita. Há ainda o temor de um verdadeiro tsunami político caso se evidenciem conexões entre recursos financeiros de igrejas com as operações recém-descobertas. Cada vez mais a operação cinematográfica cai como uma luva, parecendo que todas as explicações se encaixam melhor em um roteiro barato e mal contado de uma história de cinema. Há muito a ser revelado, mas o que fica evidente é que a soberania nacional se tornou uma moeda de troca para esse grupo.
É nesse contexto que todos os analistas políticos consideram grandes os danos à candidatura de Flávio Bolsonaro. E esses mesmos citam que haverá um segundo turno, e quase todos o citam como o oponente de Lula, mas sempre utilizando a expressão mágica “a não ser que”, de uso comum aos comentaristas esportivos.
Todavia, os impactos eleitorais, mesmo ainda a meses da eleição, podem ser mensurados desde agora. Até aqui, as avaliações do eleitorado brasileiro descrevem um real, mas ainda contido, impacto dos escândalos financeiros sobre a candidatura da direita.
Nas pesquisas disponíveis, observamos um desmanche de cerca de dez pontos percentuais das adesões que o bolsonarismo possuía. Paradoxalmente, seus votos se dividiram entre indecisos, desistentes (nulos/brancos), uns poucos indo para cada candidato e parte substancial para… Lula!
O discurso de Ronaldo Caiado, candidato desde 1989 com seu cavalo branco da União Democrática Ruralista – UDR, chega a ser hilário: “sou desconhecido por 53% dos eleitores, e melhorarei quando me tornar popular”. Haja pangarés. E noutra raia, o ex-governador Romeu Zema patina em sua capacidade argumentativa e consegue ficar ainda mais à direita que os demais. Por fim, Renan Santos, em uma raia indefinida…
O descolamento do bolsonarismo está em uma fase crítica. É difícil para os candidatos notórios, mas é mais fácil para o “centrão”.
Existe uma base intocável, no momento: 20 a 25% seguirão apoiando Flávio Bolsonaro. Isso ficou evidente ao ser lançado pelo pai. Não houve crítica, apenas a aceitação de que “o capitão fala e devemos segui-lo”. Por isso, a ascensão meteórica do filho “zero um”, no jargão familiar. Essa base seguirá intocável, mesmo que o planeta se demonstre redondo e os detergentes continuem com propósitos específicos, que não incluem serem ingeridos.
Há, porém, uma franja que já se mostrou bolsonarista, o que não significa que essas pessoas sejam de extrema direita. Antes de tudo, têm perfil conservador, e sua prioridade está na segurança pessoal, e em uma genérica tranquilidade institucional, mesmo que implique ações diametralmente opostas, como os ataques aos poderes constituídos. É um dos nossos enigmas sazonais, mas que encontra eco na velha engrenagem da nossa psicologia política.
Há mais de um século, ao escrever a Psicologia das Massas e Análise do Eu, Sigmund Freud já nos avisava que o voto majoritário está longe de ser um manifesto de racionalidade. Ele explica essa movimentação como a busca do sujeito por um líder para ocupar o lugar do seu Ideal do Eu. Na massa, as pessoas tendem a se identificar com alguém e, por consequência, umas com as outras. Isso vale para a direita, para o centro ou para a esquerda. O sujeito abre mão de sua subjetividade para se anestesiar no atacado.
No presente e no Brasil, o cientista político Antônio Lavareda cita o efeito bandwagon (ou o “bonde da vitória”), mesmo que se refira a comportamentos em final do processo eleitoral, com a migração do eleitor para o candidato que lidera, para não sentir seu voto desperdiçado em um perdedor. Há um conjunto de eleitores que busca um pertencimento que só a coesão do grupo oferece e, ao fundo, a segurança de marchar com o vencedor, seja ele quem for. É isso que explica por que 10 a 15% do eleitorado tradicionalmente migra para onde o vento aponta nas vésperas do pleito. É o puro efeito manada, essa necessidade quase física de estar em harmonia com a maioria para evitar o isolamento do indivíduo.
Pela primeira vez, a avaliação do governo é secundária à escolha de uma candidatura. O processo está ocorrendo pelo avesso. O eleitor escolhe (ou rejeita) um candidato e, a seguir, avalia a qualidade do governo. Os números das diversas pesquisas falam por si. À medida que cresceu a oposição, a avaliação positiva do governo também caiu. Agora, a tendência se inverteu, mas sempre na mesma linha: primeiro o voto, depois o julgamento do presidente.
Mas então, quais seriam as amarras possíveis de serem desatadas? Pelo cenário, o primeiro nó a desatar será o silêncio ou a conivência de aliados, que serão percebidos especialmente no topo das alianças, tanto mais agudo quanto mais se sentirem desassistidos pelo eleitor flutuante. Mas os discursos unificados aparentemente já ficaram para trás. Para muitos, já está acionado o modo “salve-se quem puder”, especialmente aqueles candidatos com maior volatilidade, menos benefícios e menor identificação com a famiglia. Por isso, os candidatos de oposição com maior identificação e projeção precisarão entregar a resposta mais racional possível.
O capital financeiro, para o qual nunca tem jogo ruim, buscará lastrear suas movimentações com as candidaturas possíveis. Mesmo que hoje o capital especulativo tenha ganhos nababescos, levados pela descomunal taxa de juros, e que o setor do “agronegócio” receba estímulos governamentais cada vez mais exuberantes nos Planos Safra, ambos seguem na busca do inatingível. Mas ao se defrontarem com a realidade, buscarão a saída possível, pela redução de danos (ou de ganhos). Por fim, os órgãos de fiscalização, controle, conformidade, governança e justiça terão maior liberdade para agir sem a pressão constante do autoritarismo e da opressão.
O colapso dos padrões políticos tradicionais e o profundo descrédito no poder, especialmente após a segunda metade da década passada, criaram novas variáveis, dificultando os prognósticos eleitorais, uma vez que a previsibilidade é substituída pela volatilidade constante.
Mas isso tudo pode voltar à esteira da normalidade, à medida que forem rareando os extremismos da direita e suas expressões. O desmanche da extrema direita irá se aprofundar no correr do processo. Poderá haver idas e vindas? Claro, tudo é assim, na vida real. Mas a maior tendência é a desorganização em espiral, gradualmente desacreditando o candidato mais forte da extrema direita, aumentando os votos para Lula, e com isso fortalecendo a visão positiva do governo. E la nave va…
O poder político se mantém porque nos deixamos definir por rótulos e maiorias. O eleitor abre mão de sua individualidade e se mistura ao discurso vitorioso para se sentir representado, seguro e parte de uma engrenagem maior. O sumo dessa condição é a passagem do tempo e a alteração do humor eleitoral.
Diante disso, segue então meu vaticínio: não haverá segundo turno, “a não ser que” ocorra uma mudança no padrão eleitoral brasileiro. Mas aí precisaria entrar alguma figura lúgubre, de paletó muito usado, chapéu desabado, esticando a perna para fazer um gol fantasma. Nesse caso, quem ingressaria é o personagem de Nelson Rodrigues, o fatídico Sobrenatural de Almeida…” (Publicado por Sul 21)
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Ilustração: Mula sem cabeça (Portinari)
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