
A celebração dos funerais do Líder Supremo do Irã (1989 a 2026) Aitolá Ali Khamenei, quatro meses após seu assassinato por Israel-Estados Unidos, serve para lembrar a culminação de uma história cujas origens vêm de décadas atrás, quando Benjamin Netanyahu era ainda apenas um dos líderes do ultradireitista Likud, ao lado de Ariel Sharon. Não se pode responsabilizá-lo pelo crime, muito menos pelos milhares de assassinatos seletivos cometidos pelo Estado de Israel ao longo desses anos. O assassinato de adversários políticos – terroristas ou não –, dentro e fora do território israelense, foi gradualmente se tornando uma política de Estado, não uma escolha de políticos na chefia do governo.
Ainda que nos últimos anos Netanyahu seja responsável por banalizar o assassinato como política de Estado, em alguns momentos, ao longo do seu primeiro mandato como primeiro-ministro (1996 a 1999), chegou a desempenhar um papel quase que moderador frente à vontade de atuar dos órgãos de inteligência responsáveis pela segurança do país – o assassinato seletivo é uma criação mais ou menos conjunta do Mossad (segurança externa), Shin Bet (segurança interna) e da Aman (braço de inteligência das Forças de Defesa de Israel).
Resultado de sete anos e meio de trabalho e de uma vastíssima documentação, o livro de Ronen Bergman Levante-se e mate primeiro – a história do serviço secreto e dos assassinatos seletivos de Israel (853 páginas, Editora Record) mostra em detalhes a criação, o aperfeiçoamento, a ampliação do alcance e a execução dessa política.
O uso mais recente e mais desenvolvido dos assassinatos seletivos parte da ideia de que qualquer um pode ser legitimamente assassinado, até mesmo o Líder Supremo do poderoso Irã e, neste caso, serve como arma política, na medida em que funciona como uma espécie de recado e proposta de negociação. Os seguidores ou aliados da vítima escolhida, seus possíveis sucessores, têm permissão para seguir vivos (e no poder) desde que aceitem as condições dos executores. Em outras palavras, o que Israel (e os Estados Unidos) está dizendo é: não é necessária uma troca total do comando (não pelo menos por enquanto), da maneira como foi feito no Iraque, com a substituição de Saddam Hussein e sua camarilha por um bando de fantoches comandados por Washington.
Ao invés disso, aplica-se o modelo adotado na Venezuela, onde, após o sequestro do presidente em exercício, Nicolás Maduro, quem permanece no poder é sua vice – mas, sub judice, para dizer de modo suave. A espada permanece pronta para o golpe de morte sempre e quando o Império julgar conveniente. A ameaça de assassinato é o método infalível para o funcionamento pleno dessa política.
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Mesmo os mais resolutos dos terroristas costumam recuar frente à presença de crianças ou mulheres junto ao alvo escolhido. “Os algozes que colocavam a própria vida em jogo, e de maneira tão completa, só tocavam na dos outros com a consciência mais escrupulosa. O atentado contra o grão-duque Sérgio fracassa na primeira tentativa, porque Kaliaiev, com a aprovação de todos os camaradas, recusa-se a matar as crianças que se encontravam na carruagem do grã-duque”, conta Camus em O homem revoltado.
Nem a mais inocente das almas teria dúvidas de que os israelenses e seus aliados dos Estados Unidos sabiam da (grandíssima) probabilidade de que Ali Khamenei poderia estar próximo de familiares, mulheres e crianças, quando fosse bombardeado. Nas origens dos assassinatos seletivos, essa questão era rigorosamente apresentada pelos planejadores e, tanto quanto Kaliaiev, eles se opunham à execução do alvo sempre que apresentasse risco de vida para inocentes – mesmo que isso implicasse em abandonar um plano montado durante meses ou anos e independentemente da dimensão dos custos operacionais. Bergman, em seu livro, dá inúmeros exemplos onde isso teria acontecido.
No ataque por bombas para assassinar Ali Khamenei, os israelenses de Netanyahu e seus sócios norte-americanos mataram também uma de suas filhas (Boshra Khamenei), um genro (Mesbah Bagheri Kani) e uma nora (Zahara Haddad-Adel), além da neta Zahra Mohammadi Golpayegani, de um ano e dois meses de idade. De fato, considerações dessa natureza já não são levadas em conta há anos pelos israelenses. De acordo com os últimos dados divulgados pela UNICEF e pelas autoridades de saúde de Gaza, de outubro de 2023 ao início de 2026, pelo menos 21 mil crianças foram mortas e 44 mil feridas nos ataques israelenses ao território palestino.
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Nicolás Maduro (e sua esposa) era alvo relativamente fácil de ser sequestrado. Por isso foi sequestrado e levado para uma prisão em Nova York. E na Venezuela da ex-vice-presidente Delcy Rodriguez tudo segue mais ou menos como antes – exceto a mudança de ares em favor dos interesses dos Estados Unidos no país. Era evidentemente impraticável o sequestro do Aiatolá Khamenei. Por isso foi assassinado. Quatro meses após sua morte, durante sete dias, uma multidão de pelo menos dez milhões de pessoas esteve presente nos cerimoniais fúnebres. Não se sabe com certeza quem ocupa agora o posto de Ali Khamenei. O que se diz é que o poder está em mãos de um de seus filhos, Mojtaba Khamenei – gravemente ferido durante o ataque que matou seu pai, ainda não apareceu em público desde o atentado. O que parece certo é que sobre a cúpula do regime iraniano pesa agora uma poderosa espada de Dâmocles. Talvez seja impossível sequer imaginar os termos da negociação que sob sua sombra estão sendo realizadas entre os iranianos e seus inimigos declarados – e se os iranianos estarão mesmo dispostos a participar desse jogo de vida e morte.
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Seja por medo, seja por fanatismo religioso, seja pelo que for, e é isso que o funeral de Estado de Khamenei parece demonstrar, existe ainda entre os iranianos um apoio massivo ao regime autoritário e ultra-conservador dos clérigos xiitas – que derrubou o regime autoritário e ultra-conservador do Xá Reza Pahlavi apoiado pelos Estados Unidos. Enquanto isso, os setores oposicionistas são brutalmente reprimidos, encarcerados e mortos pelo governo. Mas, definitivamente, não é necessário ser muito esperto para saber que não é esta a razão pela qual o regime é atacado pela aliança Netanyahu-Trump. Israel e Estados Unidos estão se lixando para a existência ou não de um regime democrático, seja no Irã, na Venezuela, ou onde quer que for. O interesse é outro.
P.S.: no sexto e último dia dos funerais de Ali Khamenei, a trégua negociada entre os Estados Unidos e os iranianos foi abruptamente interrompida e, portanto, pelo menos por ora, os que seguem no comando do regime iraniano não estão dispostos a participar de um jogo no qual a espada a qualquer momento pode cair sobre suas cabeças.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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