Entrei em meu carro para ir a um compromisso. Liguei o navegador porque não conhecia o endereço do lugar. A operação foi simples: conectei meu celular à central multimídia do painel, acionei o aplicativo de mapas, informei o destino e voilà. Uma voz suave feminina começou a dar as instruções para acompanhar o mapa na tela. Siga pela rua tal, vire em 500 metros na rua tal. Maravilha.

Sou de uma geração em que o James Bond, na época o grande Sean Connery — cujo nome completo era Thomas Sean Connery — usava, em suas perseguições, um sinalizador escondido sob o veículo do vilão. No painel do seu Aston Martin DB5, havia uma incrível luzinha vermelha intermitente. Ele não podia se distanciar muito do seu alvo. Era incrível.
A diferença entre a tecnologia disponível ao James Bond em seu Aston Martin DB5 e a disponível hoje a bilhões de pessoas pelo mundo é abissal.

A origem dessas maravilhas tecnológicas é estatal, como documentou detalhadamente Mariana Mazzucato em seu livro O Estado Empreendedor. A internet foi criada nos laboratórios da DARPA; o smartphone tem tecnologias oriundas de várias agências públicas dos EUA; e o GPS é uma infraestrutura pública, utilizada gratuitamente por todo o mundo. A tecnologia da central multimídia de meu carro e o celular que conecto a ela vêm de investimentos públicos feitos durante décadas pelo governo dos EUA.

Nada de espantar. O discurso liberal das autoridades estadunidenses sempre foi para inglês ver, como diz o ditado brasileiro. No caso, para os países periféricos verem, já que União Europeia, Japão e Noruega nunca compraram essa narrativa de “chutar a escada”, como escreve Ha-Joon Chang. Tampouco China e Índia, na ordem internacional agora nascente.
E o PIX, o que tem a ver com tudo isso?

É porque, em julho de 2025, o USTR iniciou uma investigação sobre as práticas comerciais do Brasil com base na Section 301, com o objetivo de orientar ações de retaliação para nos submeter aos interesses dos EUA. O PIX estava no radar dessa investigação.
O relatório foi divulgado no dia 1º de junho de 2026 e está aberto ao contraditório até 6 de julho. O USTR poderá tomar medidas a partir de 15 de julho. Há tempo para a diplomacia brasileira atuar, mas não muito.

O relatório é uma peça de bullying diplomático ao estilo Donald Trump. Aqui está a lista:
1. Comércio digital e serviços digitais.
2. Regulação de plataformas digitais e moderação de conteúdo.
3. Serviços de pagamento eletrônico (incluindo o PIX).
4. Tarifas preferenciais e política tarifária.
5. Barreiras regulatórias ao comércio e aos investimentos.
6. Aplicação de normas anticorrupção e transparência regulatória.
7. Proteção da propriedade intelectual.
8. Proteção de dados de testes farmacêuticos.
9. Acesso ao mercado brasileiro para bens e serviços dos EUA.
10. Tratamento regulatório de empresas estrangeiras em determinados setores.

Longa a lista. Os três primeiros itens são os cruciais. Essencialmente, um lobby das Big Techs e das bandeiras de cartões de crédito.

Há várias coisas a serem ditas. Primeiro, os EUA pressionam o Brasil apesar de acumularem, segundo dados do próprio governo brasileiro, um superávit de aproximadamente US$ 415 bilhões nas transações econômicas com o Brasil nos últimos quinze anos. O Brasil é um dos poucos parceiros relevantes com os quais os EUA mantêm saldo positivo. Quando o tarifaço do ano passado foi imposto por Trump — aliás, um verdadeiro tiro no pé — sua principal justificativa era a de que os países tratavam muito mal os EUA. Além de ser mentira no caso brasileiro, trata-se de uma choradeira típica do eleitorado trumpista, que sequer entende que quem paga as tarifas são eles mesmos.

Cada um dos dez itens da pauta do USTR mereceria comentários detalhados, mas vou me ater ao PIX.

Estudos do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do BIS (Bank for International Settlements) tratam o PIX como um avanço tecnológico significativo nos meios de pagamento em nosso país. Entendem que o PIX é uma infraestrutura pública, de acesso universal, sem distinção da origem das pessoas físicas e jurídicas.

Também estabelecem que o PIX agiliza significativamente a liquidação das operações por ser instantâneo. Reduz os custos de transação por ser gratuito e estimula a inclusão bancária.

Relatório do Banco Central do Brasil (Relatório de Gestão do PIX, publicado em 2023 e resumido aqui no Terapia Política) contribui para entender a cronologia do desenvolvimento do PIX pelo Banco Central do Brasil (BCB). Trata-se de uma tecnologia do BCB que contou com a participação de várias instituições. O conto de que é uma criação do governo Bolsonaro é mais uma fake news de um governo vazio de realizações.

Este não é o único sistema público de pagamentos. A Índia tem um sistema gigantesco e a China também. A Índia, aliás, também tem sido alvo do USTR.

A pergunta que não quer calar é: quais são os interesses envolvidos nessa ofensiva do USTR?

Os EUA são uma plutocracia que se orgulhava, até recentemente, de ter um presidente bilionário que está em queda livre de apoio eleitoral devido ao abandono de promessas feitas ao movimento MAGA: não entrar em novas guerras, liberar imediatamente os arquivos do caso Epstein e manter baixo o custo de vida. Orgulham-se também de ter um trilionário que participou da reforma administrativa do governo dos EUA.

Há interesses das bandeiras de cartões de crédito, mas principalmente das Big Techs, que já têm ou querem desenvolver suas próprias plataformas de meios de pagamento. Não podemos esquecer o pioneirismo do PayPal, de onde se originaram muitos dos atuais bilionários da tecnologia, como Elon Musk, Peter Thiel, Reid Hoffman, Steve Chen, Chad Hurley e Jawed Karim.

É óbvia a oportunidade de negócios existente nos sistemas de meios de pagamento, origem de tantas Big Techs.

Os interesses comerciais sempre se misturam aos geopolíticos. O sistema monetário mundial ainda é dominado pelo dólar, e os EUA querem manter essa hegemonia e seu conhecido “privilégio exorbitante” — emitir a principal moeda de reserva internacional — expressão consagrada e tema do livro de Barry Eichengreen, grande especialista no assunto.
Sistemas como os do Brasil, da Índia e da China são entendidos como ameaças a essa dominância do dólar como moeda de conta, de troca e de reserva. Esse papel do dólar é um instrumento de poder. E talvez o abuso no uso desse poder — transformando o sistema do dólar em arma contra países considerados adversários dos interesses dos EUA — seja uma das principais causas da progressiva substituição da moeda estadunidense em determinadas transações internacionais.

O bullying de Trump é baseado em justificativas falsas, a começar pelo fato de que as principais estruturas da economia digital foram criadas pelo governo dos EUA: os chips, a internet e o GPS. O GPS nasceu na DARPA e continua sendo mantido como infraestrutura pública, sob controle direto do governo estadunidense.

Esse relatório do USTR, baseado na Section 301, que hoje ameaça as exportações brasileiras para os EUA com uma sobretaxa adicional de 25%, é uma evidente tentativa de interferência na soberania brasileira. O Brasil criou uma grande infraestrutura pública de pagamentos instantâneos, desenvolvida pelo Banco Central em cooperação com dezenas de instituições financeiras e tecnológicas. Esse patrimônio tecnológico e institucional do povo brasileiro é o PIX.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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