O avanço social precisa acompanhar a fronteira do conhecimento — essa é a tarefa histórica da nossa geração.

Uma das principais contradições deste primeiro terço do século XXI encontra-se na relação entre a inteligência humana e a inteligência artificial. De um lado, observa-se uma expansão sem precedentes do conhecimento e, de outro, o avanço da captura da consciência pelo capitalismo, que, na era digital, transforma o saber em poder e a consciência em mercadoria.
Quarenta anos depois, parece confirmar-se uma das interpretações mais otimistas acerca da evolução da humanidade, formulada em 1982 pelo futurista estadunidense R. Buckminster Fuller, em Critical Path. Segundo ele, o conhecimento deixaria de crescer de forma linear para expandir-se exponencialmente. Ciência, tecnologia e comunicação criariam um ciclo virtuoso no qual cada descoberta abriria caminho para muitas outras.
Nesse cenário, a humanidade jamais teria produzido tanto conhecimento, armazenado tantos dados e desenvolvido tamanha capacidade de processamento de informações. A internet, a computação em nuvem e a inteligência artificial inaugurariam, assim, uma nova etapa da civilização.
Fuller, porém, deixou em aberto uma pergunta talvez ainda mais importante: quem controlaria esse conhecimento e a quem ele serviria?
Em sentido oposto, o filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto advertiu, em 1973, no livro O conceito de tecnologia, que a tecnologia não seria neutra. Ela expressaria relações de poder, interesses econômicos e projetos de sociedade. O problema, portanto, não estaria apenas em inventar novas técnicas, mas em decidir quem controlaria seus benefícios e quem suportaria seus custos.
Mais recentemente, com o avanço da inteligência artificial, a advertência de Álvaro Vieira Pinto tornou-se ainda mais dramática. A IA resulta justamente da aprendizagem obtida a partir do conhecimento produzido coletivamente pela humanidade. No entanto, o valor econômico gerado por esse saber concentra-se em poucas corporações globais e em um número ainda menor de Estados nacionais.
O saber coletivo estaria, assim, sendo convertido em patrimônio privado. O capitalismo da era digital extrai valor da atenção e transforma a mente humana em sua última fronteira de exploração. A cada clique, produz-se riqueza; a cada conversa, alimenta-se um algoritmo; a cada fotografia, amplia-se um banco de dados; a cada deslocamento registrado pelo celular, gera-se uma informação passível de comercialização.
A nova economia, dedicada a minerar comportamentos, produz outro paradoxo excepcional. Conforme revelou Walter Hugo Mãe em O século dos imbecis (2024), jamais houve tanta informação disponível e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil construir o pensamento crítico.
O excesso de informação, aliado à aceleração de sua circulação, compromete cada vez mais a reflexão. Simultaneamente, a opinião substitui o conhecimento. A ignorância alcança um patamar inédito: já não decorre apenas da ausência de informação, mas da incapacidade de organizá-la diante de sua abundância.
Byung-Chul Han, em A sociedade do cansaço (2010), apontou como essa transformação altera profundamente a própria condição humana. A sociedade disciplinar estaria sendo substituída pela sociedade da performance. A exploração já não seria apenas exercida por alguém sobre outra pessoa, pois cada indivíduo passaria a explorar a si mesmo. A captura da atenção e a conexão permanente aprisionam a vida na atualização contínua, no compartilhamento competitivo e na necessidade de aparecer o tempo inteiro.
A existência converte-se em um fluxo permanente de conexões. Cada experiência precisa ser registrada, fotografada e publicada. A opinião transforma-se em conteúdo, enquanto a emoção é convertida em engajamento. Cada indivíduo torna-se gestor permanente da própria imagem, submetido à ditadura da positividade e à obrigação de parecer feliz, bem-sucedido, produtivo, interessante e sempre disponível.
A aprovação dos outros passa a ser medida por curtidas, compartilhamentos e seguidores. O descanso transforma-se em culpa; o silêncio, em vazio; e a contemplação, em atividade improdutiva. O resultado aparece na epidemia silenciosa de ansiedade, depressão, burnout e esgotamento existencial. Uma vida que se resume ao cansaço.
Esse processo já havia sido antecipado por Herbert Marcuse em O homem unidimensional (1964), quando advertiu que a racionalidade tecnológica poderia reduzir progressivamente a capacidade crítica da sociedade. O progresso técnico poderia conviver com o empobrecimento da imaginação política.
Poucos anos depois, Guy Debord, em A sociedade do espetáculo (1967), mostrou que a representação substituiria a experiência e que a aparência ocuparia o lugar da realidade.
Hoje, já não basta viver: é preciso ser visto vivendo, aparecendo e demonstrando conhecimento. A vida transforma-se em espetáculo permanente.
Essa lógica alcança seu ápice no que Shoshana Zuboff, em A era do capitalismo de vigilância (2019), denominou capitalismo de vigilância. Os dados deixaram de ser um subproduto da vida digital para se converterem na principal matéria-prima da economia contemporânea.
As plataformas já não vendem apenas serviços. Vendem previsões sobre nossos comportamentos futuros. A economia da atenção transforma distração em lucro. A polarização torna-se rentável, a desinformação converte-se em negócio e a subjetividade transforma-se em ativo financeiro.
Talvez seja necessário, portanto, revisar Buckminster Fuller. Na realidade, existem duas curvas exponenciais. A primeira é a da produção do conhecimento; a segunda, a da captura da consciência. Quanto mais cresce nossa capacidade científica, mais sofisticados se tornam os mecanismos de vigilância, manipulação e condicionamento social.
O verdadeiro risco da inteligência artificial não estaria simplesmente nas máquinas que aprendem com o conhecimento humano, mas na possibilidade de os seres humanos deixarem de exercer plenamente sua inteligência crítica. A grande questão deste início do século XXI já não é apenas tecnológica. É civilizatória. Quem controlará os algoritmos? Quem governará os dados? Quem decidirá quais conhecimentos serão preservados, difundidos ou ocultados? Quem garantirá que a inteligência artificial fortaleça a democracia, em vez de substituí-la por uma algocracia?
Essas perguntas definem uma nova agenda histórica, baseada na soberania digital, na soberania sobre os dados, na construção de infraestruturas públicas de informação, na ciência aberta, na regulação democrática da inteligência artificial, na educação para o pensamento crítico e no fortalecimento das instituições nacionais de produção do conhecimento.
Sem isso, os países tornar-se-ão exportadores de dados, importadores de inteligência e consumidores de decisões tomadas em outros lugares. O futuro da humanidade não parece que será decidido pela inteligência artificial, mas pela capacidade das sociedades de recuperar o controle democrático sobre o conhecimento que elas próprias produzem.
A maior tragédia do século XXI não será a existência de máquinas capazes de pensar. Será a existência de seres humanos que desistam de fazê-lo. A tarefa histórica de nossa geração consiste em fazer com que a curva exponencial do conhecimento seja acompanhada por uma curva igualmente exponencial da democracia, da soberania, da igualdade e da emancipação humana. Caso contrário, a civilização que mais produziu conhecimento poderá entrar para a história como aquela que perdeu a liberdade de pensar.
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Ilustração: Mihai Cauli
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