O que define o Brasil de hoje? A resposta pode surpreender.

Durante boa parte do século XX, interpretar o Brasil significava compreender o processo de sua formação. Autores como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Antonio Candido e Darcy Ribeiro, entre outros, partiram de diferentes perspectivas para responder a uma questão comum: como o Brasil se formou e que país poderia vir a ser?
Esse conjunto de intérpretes ultrapassou o olhar exclusivo sobre o passado para avançar na compreensão do presente e das possibilidades de construção do Brasil moderno. Em geral, suas interpretações estavam vinculadas a uma época em que a modernização aparecia como o grande horizonte histórico de superação do atraso herdado do primitivo e longevo passado agrário, escravista e oligárquico.
Na perspectiva do projeto nacional do século XX, a questão da formação do país estava associada à construção de uma economia nacional assentada em uma sociedade urbana, industrial, salarial, alfabetizada e democrática. Nos dias de hoje, contudo, a modernização deixou de ser o único princípio capaz de explicar as transformações da sociedade brasileira. Isso não significa o fim da modernidade, tampouco o desaparecimento da indústria ou a perda de sentido do desenvolvimento.
Ao longo de boa parte do século XX, a modernização era compreendida como um processo de transformação estrutural. No Brasil, representou a passagem do agrarismo para uma sociedade urbana e industrial, acompanhada pela expansão do trabalho assalariado, dos serviços públicos, da escolarização e das instituições nacionais. Seu horizonte era entendido como progresso coletivo, embora, sem a realização de reformas clássicas do capitalismo — como as reformas da propriedade, da tributação e da proteção social —, tenham prevalecido profundas desigualdades de riqueza e poder.
O curso atual da pós-modernização refere-se à nova condição histórica produzida pela própria trajetória anterior da modernização e atravessada pela predominância crescente dos serviços, pela financeirização, pela digitalização, pela hiperconectividade e pela individualização da vida social. Se, no passado, a pergunta central era como chegar ao Brasil moderno, no presente ela se tornou outra: o que fazer com o Brasil produzido pela própria modernização?
O país tornou-se majoritariamente urbano, complexo e integrado por redes nacionais e globais, enquanto o setor de serviços passou a ocupar posição central na economia brasileira. O celular tornou-se, ao mesmo tempo, banco, escritório, televisão, biblioteca, mercado, agência de publicidade e praça pública. A inteligência artificial, por sua vez, começa a alterar profissões, empresas e formas de conhecimento, enquanto as relações sociais são cada vez mais mediadas por plataformas.
Novas formas de organizar a vida passam a se relacionar continuamente com estruturas antigas. É por isso que, no Brasil da pós-modernização, pelo menos cinco dimensões parecem relevantes para contribuir para a interpretação do presente: o algoritmo, o templo, o crime, as bets e a dependência química.
O algoritmo expandiu-se na sociedade de serviços hiperconectada da era digital, na qual parcela crescente da disputa econômica concentra-se na atenção humana. Isso ocorre porque o algoritmo seleciona o que aparece, o que circula e aquilo que ganha visibilidade. O indivíduo deixa de ocupar apenas a condição de consumidor de informação para se tornar também produtor de dados, imagens, preferências e comportamentos que alimentam continuamente os sistemas digitais.
A praça pública, nesse sentido, foi parcialmente deslocada para dentro do bolso. A comunidade imaginada não desapareceu, mas mudou, em parte, de infraestrutura. Ao contrário da antiga sociedade industrial, que tinha na fábrica um dos centros de organização das atividades econômicas e sociais, o desafio da sociedade da pós-modernização consiste em transformar a nova capacidade de conexão em conhecimento, participação e inteligência coletiva, e não apenas em mercantilização da atenção.
Além disso, a questão do pertencimento assumiu importância crescente, contribuindo para o avanço dos templos. Durante a modernização, a religião não desapareceu; ao contrário, reconfiguraram-se as formas de crença, sociabilidade e pertencimento.
Na pós-modernização, em uma sociedade de serviços mais individualizada, os templos podem funcionar como uma nova infraestrutura de pertencimento. O crescimento de diferentes segmentos evangélicos, especialmente pentecostais e neopentecostais, expressa a disseminação dos templos como espaços de comunicação, música, assistência, solidariedade, organização comunitária, formação de valores, escolhas eleitorais e interpretação do mundo.
A questão colocada, portanto, supera a discussão sobre qual crença deve prevalecer. Trata-se de compreender como a religião continua participando da construção dos vínculos sociais e dos sentidos atribuídos à vida em uma sociedade de serviços hiperconectada.
Da mesma forma, o tema do crime assume maior relevância na relação entre ocupação do território e proteção comunitária na pós-modernização. O crime organizado já não pode ser compreendido apenas pela ocupação física de territórios. Passou também a operar por meio de redes logísticas, mercados clandestinos, comunicação digital, circulação financeira e formas articuladas e integradas de controle territorial. Na sociedade de serviços hiperconectada da era digital, o crime utiliza a internet sem abandonar o território.
Esse processo desafia o Estado a combinar presença territorial, inteligência, tecnologia, investigação financeira, prevenção e políticas sociais. A segurança pública na sociedade da pós-modernização não pode continuar sendo pensada apenas pela lógica da repressão física, embora também não possa prescindir dela, pois o território permanece decisivo. O que mudou foram as formas de disputá-lo e controlá-lo.
Na relação com o futuro e seus riscos, as bets disseminaram-se na sociedade da pós-modernização. No passado da modernização, a promessa de futuro estava associada ao trabalho, à poupança, ao investimento, à educação e ao planejamento.
Na sociedade da pós-modernização, contudo, as trajetórias profissionais tornaram-se crescentemente instáveis, acompanhadas por maior exposição ao risco e forte valorização da recompensa imediata. É nesse ambiente que prospera a indústria das apostas.
No estudo do Comsefaz realizado em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado, estima-se em R$ 62,5 bilhões a transferência líquida das famílias brasileiras para plataformas de apostas. Esse montante, resultante da diferença entre o valor apostado e aquilo que retornou aos apostadores, equivale a cerca de 0,7% da renda nacional disponível bruta das famílias.
Não se trata de dinheiro público, mas sua dimensão permite visualizar um enorme custo de oportunidade privado. Recursos que poderiam permanecer no circuito do consumo, da poupança ou do investimento familiar passaram a seguir outro curso. A aposta não vende apenas entretenimento, mas também a ilusão da possibilidade de transformação rápida da própria vida.
Quando o futuro deixa de ser um projeto coletivo, cresce o mercado das pequenas esperanças privadas. Por isso, combater apenas os excessos das bets parece insuficiente. É preciso ampliar as alternativas reais de futuro com base na educação, no trabalho qualificado, na inovação, na cultura e na proteção social.
Por fim, mas não menos importante, a dependência química evidencia, na sociedade da pós-modernização, a centralidade do corpo e do cuidado. Nesse novo Brasil, talvez seja a dimensão mais complexa, pois não possui uma causa única e não pode ser reduzida a uma questão moral, econômica ou individual.
Ela envolve trajetórias pessoais, familiares, psicológicas, sociais e econômicas distintas. Em determinadas circunstâncias, pode expressar sofrimento, isolamento, ruptura de vínculos, insegurança ou ausência de perspectivas. O corpo pode acabar expressando aquilo que as instituições deixaram de escutar.
A resposta, portanto, precisa combinar ciência, prevenção, tratamento, cuidado, redução de danos, quando apropriada, e reconstrução de vínculos. Quanto maior a autonomia individual e a complexidade das escolhas, maior precisa ser também a capacidade coletiva de produzir cuidado e proteção.
Nesse novo contexto da sociedade da pós-modernização, a perspectiva de um novo projeto para o Brasil pode ser compreendida a partir dessas cinco dimensões — algoritmo, templo, crime, bets e dependência química —, que não operam isoladamente, mas convivem no interior de uma mesma transformação histórica.
O algoritmo concentra-se na atenção humana; o templo, no pertencimento e no sentido. O crime atua na disputa pelo território e pela proteção, enquanto as bets reorganizam a relação com o risco e o futuro. A dependência química, por sua vez, revela no corpo os desafios do cuidado e da reprodução da vida.
Juntas, essas dimensões ajudam a enxergar uma sociedade que não deixou de ser moderna, mas que já não pode ser compreendida apenas pelas categorias tradicionais da modernização. Essa é a novidade histórica. A pós-modernização brasileira não deve ser entendida necessariamente como decadência, mas como uma nova condição, carregada de riscos e também de possibilidades.
A mesma tecnologia que captura a atenção pode ampliar o conhecimento. As redes que fragmentam podem criar novas comunidades. Os serviços podem gerar novas formas de trabalho e criação. A ciência pode ampliar o cuidado. O Estado pode renovar sua capacidade de coordenar uma sociedade cada vez mais complexa.
O Brasil não precisa abandonar sua história para entrar nesse novo tempo. Precisa compreendê-la para poder escolher seu futuro. Talvez esteja aí a principal tarefa de uma nova interpretação do país.
Os clássicos imaginaram o Brasil moderno possível. Cabe às gerações atuais imaginar o Brasil possível da pós-modernização.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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