A coordenação da campanha de Lula anunciou a intenção de realizar um encontro entre o candidato à reeleição e uma seleta lista de representantes do PIB do País. Ao que tudo indica estiveram presentes no Palácio do Alvorada, em jantar no último dia de agosto, pouco mais de uma dúzia de grandes banqueiros, megaempresários de ramos variados e outros tantos multimilionários vinculados ao agronegócio. A decisão de realizar esse evento ocorreu logo depois de um encontro semelhante que seu principal oponente, Flávio Bolsonaro, promoveu recentemente. De acordo com informações divulgadas pela grande imprensa, o evento teve um formato bastante semelhante, contando com a presença de pessoas apontadas como responsáveis pela área econômica e com boa parte dos mesmos convidados que atenderam ao chamado bolsonarista.

A ideia de promover encontros do candidato com representantes de diferentes setores da sociedade é bastante compreensível e saudável do ponto de vista político. No entanto, Lula parece continuar preocupado apenas em atender aos desejos e aos interesses do topo da nossa vergonhosa pirâmide da desigualdade. Trata-se de dar tratos àquilo que se converteu em uma brincadeira mal-intencionada contra o petista nos próprios grandes meios de comunicação no passado: “a zélites”. Ocorre que ele não confere tratamento semelhante aos representantes da base da sociedade. Por que não receber lideranças do Movimento dos Sem-Terra (MST) ou das centrais sindicais para discutir os itens de seu programa de governo para um eventual quarto mandato?

Não nos iludamos com a “zélites”

Ao estabelecer esse tipo de prioridade em sua agenda de candidato, Lula pretende deixar claro para as classes dominantes qual será a sua maior preocupação à frente de um quarto mandato, caso vença as eleições mais uma vez em outubro próximo. As reivindicações desse reduzido grupo de indivíduos são mais do que conhecidas. No campo trabalhista, são favoráveis às reformas levadas a cabo por Temer e Bolsonaro, com a explicitação da retirada de direitos, a generalização da precariedade, o reforço da uberização e a consolidação da pejotização. Fim da escala 6 x 1, então nem se fala. No campo tributário, são favoráveis à redução da carga de impostos e são totalmente contrários à tributação sobre o patrimônio, as grandes fortunas e os rendimentos muito elevados. Além disso, sempre fizeram tudo o que puderam para evitar o fim da isenção de lucros e dividendos, presente generoso com que Fernando Henrique Cardoso (FHC) os agraciou em 1995 e nunca mais nenhum presidente ousou eliminar.

Como representantes dos interesses das classes capitalistas, os convidados de Lula não perdem jamais a oportunidade para reforçarem sua crença no ideário neoliberal extremado. Declaram-se a favor de retomada do processo de privatização e contra a presença do Estado na atividade econômica. Além disso, como perfeitos papagueadores do mesmismo da ortodoxia conservadora, insurgem-se contra a suposta “gastança irresponsável” dos recursos públicos e clamam aos berros por maiores volumes na geração de superávit primário. Fingem não saber da malandragem embutida na metodologia perversa de cálculo inventada na década de 1980 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial (BM). Surgiram naquela época os tristemente famosos ajustes macroeconômicos preconizados pelo Consenso de Washington.

Pois os convidados de Lula seguramente foram fazer coro com o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, que estava presente na reunião, com lugar de destaque. Para além da defesa incondicional do Novo Arcabouço Fiscal e da exigência de maior rigor de austeridade na condução das contas públicas, eles certamente lembraram o candidato da importância de serem eliminados os pisos constitucionais da saúde e da educação. E na sequência lembraram as falas de Haddad, Galípolo e Simone Tebet, que consideram igualmente necessária uma mudança nos critérios de reajuste do salário-mínimo, bem como a desvinculação dos benefícios previdenciários em relação ao valor do próprio mínimo salarial.

Fim do Arcabouço Fiscal e proibição das bets

Um fator que pesa favoravelmente aos representantes da nata do PIB é a ausência de pensamento divergente no que se refere à análise da macroeconomia. Os assessores e os formuladores do programa de governo convidados para assessorar Lula no encontro também rezam pela mesma cartilha do neoliberalismo ultrapassado nos próprios países de origem. Assim, ninguém terá oportunidade de lembrar que o conceito de “primário” nas finanças governamentais nada mais faz do que proteger os interesses da banca e dos privilegiados associados ao financismo. Quem exige “superávit primário” como sinônimo de política fiscal exitosa não menciona que se trata apenas da metodologia que exclui as despesas financeiras do cálculo. Assim, para obter um resultado primário positivo, o governo de plantão deve comprimir as despesas de natureza social e os investimentos, dentre outras rubricas não-financeiras. Com isso, sobram recursos para pagar os juros da dívida pública, que não são computados formalmente como componentes deficitários do resultado fiscal.

Os números são estonteantes. O Banco Central (BC) divulgou sua mais recente publicação sobre a situação fiscal do País. Ao longo do mês de julho, as despesas direcionadas aos detentores dos títulos da dívida pública chegaram a R$ 99 bilhões. Esse valor se soma aos períodos anteriores e acumula um total de R$ 669 bi para os primeiros sete meses desse ano. Esse montante representa um crescimento de 27% em relação aos R$ 526 bi verificados em igual período de 2025. Uma loucura! Nenhuma outra conta do Orçamento Geral da União (OGU) tem recebido tratamento tão generoso. Pelo contrário, o que se verifica nas alocações voltadas para as necessidades da grande maioria da população são cortes, tetos, limites e contingenciamentos. Esse é o tratamento dispensado às despesas com previdência social, educação, saúde, assistência social, segurança pública, saneamento, salários de servidores, investimentos públicos e que-tais.

Ao longo dos últimos 12 meses, o governo federal promoveu uma enorme gastança irresponsável equivalente a R$ 1,2 trilhão. Sim, esse é o valor que o orçamento destinou ao pagamento de juros da dívida pública entre agosto do ano passado e julho recente. No entanto, dificilmente alguém no encontro de Lula com os magnatas chegou a sugerir algum mecanismo para reduzir esse valor mastodôntico. Afinal, cortar gasto público nos olhos dos outros é refresco. Tampouco ninguém deve ter sugerido outras medidas simples para retomar o rumo do desenvolvimento econômico, social e ambiental. Alterar a meta de inflação do Conselho Monetário Nacional (CMN) dos atuais irrealistas 3% ao ano para 4,5%. Pressionar o BC a reduzir de forma efetiva a taxa SELIC nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (COPOM). Alterar a meta fiscal no Projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias 2027 (PLDO) de superávit primário de 0,5% do PIB para um déficit de igual montante.

Despesas com juros em R$1, 2 trilhão

Não! Tocar no assunto de juros com esse público é muito arriscado. Assim como soa a palavrão mencionar a possibilidade de revogar a mudança que FHC promoveu na Constituição, quando ele eliminou a diferença entre empresa nacional e empresa estrangeira. Assim como deve ser evitada a proposta do próprio Lula de uma urgente proibição da nova epidemia caracterizada pelas apostas esportivas, as bets.

Mas o problema maior é que Lula não propõe nenhuma dessas medidas tão necessárias para o futuro do Brasil em nenhum outro espaço de campanha. Ele parece ter sido convencido por seus assessores mais próximos e interlocutores de confiança de que tudo vai bem. Afinal, dizem eles, o PIB cresceu um pouquinho em 2025. Por outro lado, os indicadores oficiais falam de um desemprego mínimo para a série histórica do IBGE. Dessa forma, no entender desse pessoal, as taxas elevadas de desaprovação do governo serão facilmente superadas pela simples entrada em vigor da campanha eleitoral no rádio e na televisão. Assim, tudo poderia ser resumido a uma eficiente estratégia de comunicação.

Todos estamos envolvidos com o esforço nacional para assegurar a reeleição de Lula. Sabemos da desgraceira que representaria o retorno da extrema direita ao Palácio do Planalto. Mas o candidato precisa dar a sua colaboração para esse movimento. Ele precisa criar fatos políticos novos na campanha para que possamos sair da mesmice. Para conquistar parcela dos 10% do eleitorado que ainda se definem como indecisos, não basta fazer agrados e mimos a uma elite que jamais vai ser uma aliada de fato. Lula deveria propor reajuste no valor do salário-mínimo para 2027 superior ao que Dario Durigan sugeriu a ele. Lula deveria colocar a questão da proibição das bets na ordem do dia, para dividir o eleitorado conservador e evangélico.

Lula: nos ajude a te ajudar

Apostar na estratégia de “jogar parado” e “em time que está ganhando não se mexe” pode se revelar muito arriscado. Política não é como futebol. Ainda faltam poucas semanas para o primeiro turno, mas Lula é um grande líder político quando quer. Ele sabe como poucos criar fatos políticos que desarranjem uma ordem que pode não lhe ser, de fato, tão favorável quanto aparenta ser. Ele precisa nos ajudar a fazer campanha com tesão e motivação.

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli
Clique aqui para ler artigos do autor.