O modelo do homem provedor está desaparecendo porque mudaram, simultaneamente, o trabalho, a família, a economia e as relações entre os sexos.

Uma provocação recente do Financial Times merece ser levada a sério. O artigo de J. Burn-Murdoch (Feminism didn’t kill the male breadwinner model, the economy did. Financial Times, 21.8.26) destaca que a transformação da economia capitalista contemporânea está tornando inviável a continuidade do modelo do homem provedor, concomitante com o feminismo.
A tese desloca o debate. Em vez de atribuir diretamente a crise da masculinidade à emancipação feminina, considera fundamental tomar como referência a ruína da sociedade urbana e industrial frente ao avanço da desindustrialização, automação, precarização, comércio e serviços digitalizados e perda de empregos masculinos, estáveis e relativamente bem remunerados.
Essa explicação, ainda que importante, parece ser insuficiente. A questão mais interessante seria outra, uma vez que teria sido o próprio capitalismo o criador do homem provedor. Assim, enquanto o feminismo ampliou a crítica à sua legitimidade, o capitalismo contemporâneo estaria corroendo as bases econômicas da sustentação desse modelo.
Uma resposta mais contundente exigiria abandonar a falsa escolha entre feminismo e capitalismo. O provedor não nasceu da natureza, pois o modelo de homem provedor não se constituiria numa instituição eterna da humanidade.
Trata-se de uma construção histórica. Jane Lewis, por exemplo, demonstrou o quanto o modelo do homem como o principal provedor e a mulher como responsável pelo cuidado constituiu a forma específica de organização passada de família, trabalho e proteção social.
Não se trata, portanto, de uma consequência inevitável da biologia. A industrialização constituiu uma nova sociedade urbana, diferente do agrarismo prevalecente até então. Para isso, houve tanto a separação progressiva do local de produção do espaço doméstico como o salário se tornou o principal mecanismo de acesso aos bens.
O homem passou, então, a ser identificado com o trabalho remunerado, enquanto a mulher foi associada à reprodução cotidiana da família no domicílio. Em consequência, a desigualdade de gênero se ampliou na medida em que os direitos sociais e trabalhistas foram concentrados nas lutas sociais e nas conquistas de políticas públicas a quem era fundamentalmente assalariado – em geral, os homens.
Talcott Parsons e Robert Bales chegaram a conferir formulação funcionalista a essa divisão social, notando que ao homem caberia a função instrumental, vinculada à relação com o mundo econômico e à mulher, a função expressiva, associada à socialização e aos afetos.
A crítica feminista desmontaria, posteriormente, essa suposta complementaridade natural. Simone de Beauvoir, por exemplo, mostrou que os papéis de gênero são historicamente produzidos. Betty Friedan deu sequência, ao revelar o desconforto escondido sob a imagem da dona de casa plenamente realizada. Heidi Hartmann e Christine Delphy foram além, demonstrando que o patriarcado e o capitalismo reforçam essa organização social do trabalho.
Uma contribuição ainda mais perturbadora veio da economia feminista, com Nancy Folbre: o destaque para a crítica fundamentada à visão dominante sobre a compreensão do cuidado enquanto uma atividade privada sem valor econômico. Para ela, criar filhos, cuidar de idosos, alimentar, limpar e reproduzir cotidianamente a força de trabalho são atividades indispensáveis à economia, embora grande parte delas permaneça invisível ou sub-remunerada.
No mesmo sentido, Silvia Federici radicalizou, ao mostrar como a reprodução social foi historicamente apropriada e naturalizada como obrigação feminina.
O homem que “sustentava a casa” nunca sustentou sozinho a família. Por trás do provedor existia uma enorme quantidade de trabalho feminino não remunerado.
Seria também igualmente equivocado concluir que o feminismo apenas acompanhou transformações econômicas, pois ele também as produziu. Ao reivindicar educação, emprego, autonomia financeira, direitos civis e participação política, o movimento feminista alterou a oferta de trabalho, a estrutura familiar, os padrões de consumo, a fecundidade e as relações de poder dentro e fora da família.
Nesse sentido, Claudia Goldin descreveu esse processo como uma verdadeira revolução silenciosa, destacando como a crescente escolarização e participação feminina no mercado de trabalho modificaram profundamente a economia do EUA e a organização das famílias.
A mulher, assim, entrou no mercado de trabalho sem que o homem, na mesma velocidade, entrasse na casa. O antigo arranjo do “homem provedor e mulher cuidadora” foi substituído, em muitos casos, pelo modelo de dois provedores e uma cuidadora principal.
Nancy Fraser captou essa contradição. O capitalismo contemporâneo incorporou a participação feminina no mercado, mas continuou dependendo do trabalho doméstico e de cuidado. A família de dois salários tornou-se uma necessidade econômica, enquanto a responsabilidade pela reprodução social permaneceu distribuída de maneira profundamente desigual.
A emancipação feminina, portanto, não eliminou a exploração do cuidado. Em muitos casos, simplesmente a reorganizou. Enquanto isso, o homem provedor, sustentado por décadas pelo capitalismo industrial, está desaparecendo com as transformações no sistema.
A globalização reorganizou cadeias produtivas. A economia de serviços cresceu, assim como a expansão da saúde, educação, cuidados, comércio, tecnologia e serviços pessoais passaram a ocupar espaço crescente.
O trabalhador industrial masculino, com emprego estável e relativamente bem remunerado e protegido, deixou de representar o padrão dominante. O problema é que o homem não perdeu apenas um emprego, acompanhado do esvaziamento de sua identidade social.
Durante boa parte do século XX, a masculinidade estava associada a uma sequência simples do trabalho assalariado fora de casa à centralidade no domicílio familiar enquanto provedor. Neste contexto, o homem que trabalhava podia sustentar a família, comprar uma casa e projetar o futuro dos filhos. Seu emprego era simultaneamente renda, identidade, status e reconhecimento.
Quando o mercado de trabalho deixa de garantir essa trajetória, entra em crise não apenas uma ocupação, mas uma determinada concepção de masculinidade.
É nesse ponto que se deve fazer a distinção necessária de atribuir tudo ao feminismo, uma vez que não foi a mulher que fechou a fábrica, automatizou a linha de produção, deslocou a indústria para outro país ou precarizou determinado emprego.
A transformação do capitalismo destruiu parte importante das bases materiais do homem provedor, ao passo que o feminismo fez algo igualmente decisivo, como retirar desse modelo a aparência de destino natural.
Mas há o risco político da frustração econômica masculina da atualidade sendo convertida em ressentimento contra as mulheres. A extrema direita encontra terreno fértil ao afirmar que os homens perderam porque as mulheres avançaram, tendo o feminismo destruído a família e, por isso, a sociedade teria se tornado hostil aos homens. É uma explicação sedutora porque transforma uma crise estrutural em guerra cultural. Mas também seria um erro tratar toda insegurança masculina como simples reação patriarcal.
Os homens de menor escolaridade, trabalhadores industriais e grupos submetidos à precarização sofreram perdas econômicas reais. Ignorar isso é deixar um território político inteiro para o ressentimento.
A alternativa não parece estar na restauração do homem provedor, mas na superação da condição familiar de haver um único provedor. Essa distinção parece ser fundamental, pois a verdadeira revolução social não seria substituir o homem provedor pela mulher provedora, superando a própria ideia de que a segurança de uma família deve depender de uma única pessoa.
Nancy Fraser aponta para uma sociedade em que trabalho e cuidado sejam responsabilidades compartilhadas. Nancy Folbre demonstra que o cuidado precisa deixar de ser tratado como externalidade privada. Jane Lewis evidencia que o antigo modelo de provedor masculino já não corresponde à realidade de sociedades nas quais homens e mulheres participam do mercado de trabalho.
O desafio está em construir um novo contrato social com dois provedores e dois cuidadores acompanhados por serviços públicos de cuidado. Também a redução das jornadas exaustivas de trabalho com maior participação masculina no trabalho doméstico e autonomia econômica feminina.
Uma masculinidade que não dependa da capacidade de colocar sozinho o dinheiro dentro de casa exige repensar não apenas a família, mas o próprio capitalismo. Porque a sociedade contemporânea quer simultaneamente trabalhadores disponíveis, consumidores permanentes, mães e pais presentes, crianças bem cuidadas, idosos assistidos e jornadas extensas.
É uma equação impossível sem transferir custos invisíveis para alguém e esse alguém continua sendo, em grande medida, a mulher. A crise do homem provedor revela, assim, uma crise muito maior: a que perpassa a dificuldade do capitalismo de compatibilizar produção econômica e reprodução da vida.
De fato, o fenômeno é mais profundo. De um lado, o capitalismo industrial criou as condições para o homem provedor, ao passo que o patriarcado transformou essa condição em norma. De outro, o feminismo contestou a sua legitimidade ao mesmo tempo em que o capitalismo contemporâneo destruía parte das condições materiais que o sustentavam.
Nenhum desses processos, isoladamente, explica a transformação atual. O modelo do homem provedor não está simplesmente desaparecendo porque as mulheres venceram. Tampouco porque a economia destruiu o modelo. Ele está entrando em crise porque mudaram simultaneamente o trabalho, a família, a economia e as relações entre os sexos.
A grande disputa do século XXI não deveria ser, portanto, entre homens e mulheres. Deveria ser sobre quem produz, quem cuida, quem tem tempo, quem recebe renda e quem assume os riscos da reprodução da vida.
Talvez a crise do provedor seja menos o fim da masculinidade do que o fim de uma determinada arquitetura social. E a pergunta decisiva já não é quem desmontou o modelo de homem provedor, mas que sociedade será possível construir depois dele.
Referências:
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LEWIS, Jane. The decline of the male breadwinner model: implications for work and care. Social Politics, v. 8, n. 2, p. 152-169, 2001.
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BURN-MURDOCH, John. Feminism didn’t kill the male breadwinner model, the economy did. Financial Times, 2026.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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