Durante mais de dois séculos, uma pergunta perseguiu economistas, demógrafos e governos sobre quantas pessoas a Terra poderia sustentar? Hoje, diante da emergência climática, da perda de biodiversidade e das transformações demográficas, a pergunta retorna com força. Mas talvez seja necessário fazer algo mais ousado, indagando, para além de quantos somos, quem consome, produz, cuida, polui e paga a conta da reprodução da vida.

No debate contemporâneo, a possibilidade de uma população mundial sustentável inferior a quatro bilhões de pessoas recolocou no centro uma antiga controvérsia. Exemplo disso provém da discussão aberta pela União Internacional para o Estudo Científico da População, que, em 2023, trouxe à tona o questionamento acerca da dimensão sustentável da população, sem que houvesse convergência, embora se reconhecesse a gravidade da crise climática e se rejeitassem políticas coercitivas de controle demográfico.

A questão, portanto, não é nova. Desde Thomas Malthus, no final do século XVIII, a população aparece frequentemente como ameaça ao desenvolvimento. Em seu Ensaio sobre o princípio da população, de 1798, Malthus sustentava que a população tenderia a crescer mais rapidamente que a produção de alimentos, criando uma pressão permanente sobre os recursos e as condições de existência.

A tese malthusiana inaugurou uma longa linhagem de interpretações nas quais o crescimento populacional aparece como variável problemática. No século XX, essa perspectiva reapareceu sob novas roupagens. Ansley Coale e Edgar Hoover, em Crescimento populacional e desenvolvimento econômico em países de baixa renda (1958), incorporaram o crescimento demográfico ao debate sobre poupança, investimento e desenvolvimento. Paul Ehrlich, em A bomba populacional (1968), radicalizou o alerta ambiental, transformando a expansão populacional em uma das grandes ameaças ao futuro da humanidade.

Mesmo a economia do crescimento acabou mostrando, entretanto, que não existe uma relação mecânica entre número de pessoas e prosperidade. Robert Solow, em 1957, demonstrou, no artigo clássico A mudança técnica e a função de produção agregada, a importância decisiva do progresso técnico para explicar o aumento da produtividade. Em sua análise da economia estadunidense, grande parte do crescimento do produto por hora trabalhada era atribuída ao progresso tecnológico, e não simplesmente à acumulação de capital.

Aqui começa a ruir uma simplificação perigosa, pois não basta contar pessoas para compreender a pressão sobre a natureza. Uma pessoa vivendo em uma economia de consumo intensivo de energia e materiais pode possuir uma pegada ambiental muitas vezes superior à de outra pessoa vivendo em condições de pobreza. A população importa, evidentemente. Mas importa também, e talvez decisivamente, a desigualdade no acesso e no consumo dos recursos do planeta.

O próprio debate contemporâneo evidencia essa complexidade. A capacidade de suporte da Terra não depende somente do número de habitantes, mas também do padrão de consumo, da tecnologia, da distribuição da renda, do modo de produção e da eficiência dos sistemas produtivos.

É nesse ponto que a crítica de Françoise Vergès oferece uma ruptura necessária. Em Limpar o Mundo: vidas desperdiçadas, ambiente degradado e capitalismo racial, de 2023, a autora desloca o olhar para quem realiza o trabalho indispensável para manter o mundo funcionando, bem como para quem recebe os resíduos e quem permanece invisível. A limpeza, o cuidado e a reprodução social não são atividades marginais, pois são condições para que a economia exista.

Vergès mostra ainda que a divisão entre limpo e sujo possui uma dimensão política. O conforto de determinados grupos sociais e territórios depende da transferência da sujeira, dos resíduos e dos custos ambientais e humanos para outros espaços e outros corpos. O trabalho da limpeza, realizado majoritariamente por mulheres negras e migrantes, permanece desvalorizado justamente porque sustenta a aparência de que a vida confortável acontece naturalmente.

Essa perspectiva permite inverter a velha pergunta demográfica. Talvez o problema do planeta não seja simplesmente haver pessoas demais, mas haver uma economia que transforma algumas pessoas em consumidoras privilegiadas e outras em mão de obra descartável; alguns territórios em centros de consumo e outros em depósitos de resíduos.

Por outro lado, Nancy Folbre já havia avançado nessa direção em Quem paga pelas crianças? Gênero e as estruturas de restrição (1994). A economista feminista mostrou que a reprodução social possui custos que não desaparecem apenas porque não aparecem adequadamente nas contas econômicas. Mulheres continuam assumindo parcela desproporcional do trabalho doméstico, do cuidado e da criação das novas gerações, mesmo quando participam crescentemente do mercado de trabalho.

E aqui está uma das maiores contradições do tempo atual, uma vez que a sociedade discute o custo de produzir pessoas, mas quase nunca contabiliza o custo de não cuidar delas. A criança, em geral, é tratada como despesa, ao passo que o idoso é visto como custo previdenciário. Da mesma forma, a atividade privada e o trabalho doméstico são tratados como se não fossem trabalho humano. A reprodução da vida, assim, permanece parcialmente invisível nas estatísticas econômicas, enquanto petróleo, minério, soja, automóveis e serviços financeiros são cuidadosamente contabilizados.

Há, portanto, uma disputa sobre aquilo que se considera riqueza. O século XIX perguntou como alimentar uma população crescente; o século XX indagou como produzir mais para uma população crescente; ao passo que o século XXI deveria perguntar como garantir bem-estar para uma população que, em muitas partes do mundo, já começou a envelhecer e a diminuir aceleradamente.

É aqui que uma nova agenda demográfica pode romper com o velho malthusianismo. Em vez de transformar o nascimento de crianças em ameaça, precisamos compreender a reprodução social como investimento coletivo. Em vez de enxergar o envelhecimento exclusivamente como encargo fiscal, devemos reconhecer o prolongamento da vida como conquista civilizatória. Em vez de medir o desenvolvimento apenas pelo Produto Interno Bruto (PIB), precisa também medir tempo, saúde, cuidado, segurança, ambiente, vínculos sociais e satisfação com a vida.

A contribuição recente de Dan Buettner em Zonas Azuis: lições de longevidade das pessoas que viveram mais, de 2020, avança nessa direção ao investigar políticas e condições capazes de elevar a satisfação com a vida, tratando felicidade e bem-estar como objetos legítimos da ação pública. Isso exige também enfrentar o ambientalismo que culpa indistintamente a humanidade. O problema não é o ser humano em abstrato. Existem classes sociais, países, empresas, padrões de consumo e estruturas produtivas radicalmente diferentes.

A crítica de Vergès ao chamado “ambientalismo branco” é contundente justamente porque determinadas agendas ambientais podem concentrar-se no comportamento individual de reciclar, economizar água e reduzir plástico, enquanto deixam intactas as estruturas que distribuem desigualmente a poluição e os benefícios do desenvolvimento.

A pergunta demográfica precisa, então, ser politizada. Quem tem filhos? Quem pode escolher não tê-los? Quem dispõe de creches? Quem abandona o mercado de trabalho para cuidar? Quem envelhece com renda? Quem vive próximo a áreas contaminadas? Quem trabalha recolhendo o lixo produzido pelos outros? Quem se apropria dos ganhos da produtividade tecnológica? Quem consome mais recursos naturais?

Sem responder a essas perguntas, reduzir o debate a “população demais” é intelectualmente confortável, mas socialmente insuficiente. Também seria um erro ignorar que o volume populacional possui consequências ambientais. O debate contemporâneo mostrou que não há consenso sobre um número ideal de habitantes, e alguns participantes defenderam populações globais muito menores.

Ao mesmo tempo, houve reconhecimento de que políticas coercitivas de controle populacional são inaceitáveis e de que os direitos sexuais e reprodutivos devem ser preservados. A questão decisiva é outra: a humanidade será capaz de mudar o modo como produz, consome e distribui antes que a natureza imponha seus próprios limites?

Essa parece ser a verdadeira batalha. A tecnologia pode ampliar a produtividade, como demonstrou Solow. A transição demográfica pode reduzir o ritmo de crescimento populacional. A fecundidade pode cair. A população pode envelhecer. Mas nenhuma dessas transformações, isoladamente, garante justiça social ou sustentabilidade.

Por isso, pode-se perfeitamente imaginar um mundo com menos habitantes e continuar produzindo desigualdade, racismo ambiental, exploração do trabalho e destruição ecológica. Da mesma forma, uma população maior pode viver melhor se houver tecnologias adequadas, menor desigualdade, consumo sustentável, serviços públicos universais e outra organização da produção.

O desafio do século XXI não deveria ser “limpar o mundo” reduzindo pessoas, mas limpar as estruturas que produzem desperdício, desigualdade e exclusão. É preciso retirar a população da condição de suspeita e recolocar a vida no centro.

Malthus perguntou quantas pessoas a Terra poderia alimentar. Hoje precisamos perguntar que sociedade queremos alimentar. Ehrlich alertou para os limites ecológicos. Solow mostrou o poder da tecnologia. Coale e Hoover recolocaram a demografia no debate do desenvolvimento. Folbre revelou os custos invisíveis da reprodução social. Vergès mostrou quem limpa, quem suja e quem é obrigado a viver com aquilo que os outros descartam. Buettner amplia a discussão para o bem-estar.

O próximo passo é juntar essas peças. O verdadeiro problema demográfico não é apenas quantos somos. É o tipo de sociedade que construímos para sustentar a vida de quem somos. Se a humanidade precisa diminuir alguma coisa, talvez seja menos a quantidade de pessoas e mais o desperdício, a desigualdade, a concentração da riqueza, o consumo predatório e a invisibilidade do cuidado. A questão já não pode ser mais apenas quantos habitantes cabem no planeta, mas quanto da humanidade cabe no modelo de desenvolvimento que se insiste em se chamar de progresso.

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Clique aqui para ler artigos do autor.