Em 1991, os EUA saíram vitoriosos da Guerra Fria e imaginaram que continuariam hegemônicos para sempre. Passados 30 anos, essa supremacia começou a ser questionada, fruto de uma significativa crise de realização da sociedade norte-americana, mesmo com 750 bases militares espalhadas em 80 países.

A supremacia dos EUA entrou em decadência, a ordem unipolar começou a ruir, assim como o monopólio da guerra. Surgiu uma ordem multipolar liderada pela China. O imperialismo norte-americano passou a viver uma crise existencial. A Rússia mostrou para o mundo que consegue defender seus interesses fazendo guerra. A importância militar da China tem ficado cada vez mais patente no planeta.

O peso relativo dos EUA e dos seus aliados europeus vem sendo progressivamente reduzido. Os três vetores que garantiram a supremacia norte-americana até o início da década de 2020 – militar, moeda de referência mundial e domínio cultural (soft power) – começaram a sofrer baques, principalmente os dois primeiros. Outros países mostraram capacidade de resistência militar, o dólar está cada dia mais ameaçado. Mesmo assim, a influência cultural segue tendo grande importância em todo mundo (soft power).

E os EUA resistem ao seu declínio, buscando desmontar as instituições internacionais do pós-guerra (ONU, OMS, OMC etc.) e impondo a criação do nacional imperialismo – imposição de regras internacionais baseadas nos exclusivos interesses norte-americanos. Daí ser bastante provável o aparecimento de novos conflitos militares no planeta, como a coalização da Arábia Saudita, Paquistão, Turquia e Egito contra os Houthis, do Iêmen, que poderá vir a ser o próximo confronto.

Nesse contexto, o que pode ser dito sobre os principais atores mundiais?

EUA

Nos EUA existem duas correntes. Uma baseada no MAGA (Make América Great Again), apoiada por Tucker Carlson, Tusly Gaber, Elon Musk e J.D. Vance, que apregoa a reindustrialização do país e a redução de conflitos armados. Outra, dos neocons, representada por Lindsay Grahan, Peter Hegset, Michael Waltz, Howard Lutnick, Sean Hanith (Fox TV), Jared Kushner, Sheldon e Mirian Adellson, que se pauta pelo exercício da força, calcada nos lobbies da indústria armamentista e de Israel. É um “exército” de elite que vive dentro de sua própria bolha, mas que nunca foi para as guerras. Eles querem continuar acreditando que os EUA são a única superpotência no planeta. Trump, hipocritamente, como bom sionista cristão, oscila entre ambas, a depender do momento. Nem a Rússia nem a China acreditam nos seus jogos de cena, apesar de continuarem tentando reconduzi-lo ao bom senso. Contudo, infelizmente, prevalece nos EUA a antiga estratégia de domínio da Eurásia, o que coloca o país na linha do nacional imperialismo e da ameaça do uso da força.

Os EUA continuarão projetando seu poderio militar para outros territórios por muito tempo, lançando mão de seus aliados mundo afora e obrigando-os a comprar seus sistemas de defesa. Europa contra Rússia, Japão contra China, países do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuait e Oman) e Israel contra Irã, etc.

Não podemos esquecer que a economia norte-americana está combalida, com uma dívida de USD 40 trilhões, com a perda progressiva da importância do dólar no cenário mundial, com elevada concentração de renda, desemprego, inflação e sérios problemas nas cadeias de produção. Além disso, parece que o povo norte-americano está cansado de tantos gastos militares com conflitos internacionais e poderá mudar a composição do Congresso nas eleições de meio de mandato, dando um recado claro a Trump sobre sua possível desaprovação nas eleições de 2029.

No tocante à guerra da Ucrânia, os EUA tiraram o corpo fora e terceirizaram a guerra para os países da União Europeia, que passaram a financiá-la. Com isso, os EUA estão vendendo armas para essa guerra.

Porém, uma coisa é certa: os EUA terão de se acostumar com a ideia de conviver com as outras superpotências do planeta, conformando-se com a perda de sua supremacia.

CHINA

Tudo que a China quer é o deslocamento gradual de poder. Para ela, a aceleração da decadência dos EUA é nociva e bastante perigosa e ela fará tudo para conter os rompantes agressivos e irracionais dos atores do capitalismo imperial moribundo. Ela procurará manter a neutralidade para maximizar suas opções. Paralelamente, além de diminuir suas compras de petróleo para segurar preços, tem trabalhado nos bastidores para encontrar uma solução diplomática, especialmente para a guerra com o Irã.

Segundo Jeng Xuequin, a China quer se reunificar com Taiwan, não pela força, mas sim, pelo voto, apoiando a eleição da líder da oposição, Cheng Lee Wung, o que é muito malvisto pelo Japão, que está buscando cooperação com a Índia, Filipinas e Austrália para combater a reunificação de Taiwan com a China. O Japão já está atuando como vassalo dos EUA, apesar da grande rejeição de sua população a qualquer novo conflito. Daí a estratégia chinesa de utilizar a Coreia do Norte para atuar em seu favor, o que causaria certo receio de conflito na população japonesa.

EUROPA

Não há nenhuma razão para os europeus entrarem em guerra por procuração contra a Rússia. O povo europeu não tem nada contra a Rússia. Mas os líderes da UE continuam praticando a russofobia como autômatos e sofrendo pressão dos EUA a fazê-lo.  Os europeus são comandados por burocratas da pior espécie, atuando como vassalos dos EUA. É a OTAN a responsável e está desesperada para envolver os EUA na guerra da Ucrânia.

UCRÂNIA

Já com 2,5 milhões de mortos, demitiu seu novo Ministro da Defesa, responsável pela novidade de exportar a guerra para o território russo através do ataque de drones. Volta, assim, a priorizar também a estratégia anterior de defesa do território ucraniano, apesar da situação combalida do seu exército nacional, fortemente dependente da presença de mercenários. Esse é um caminho que pode causar desgaste político para Putin, principalmente junto ao empresariado, devido à continuidade do conflito, o que seria a aposta dos líderes ucranianos e da OTAN. Segundo diversos analistas, alcançar êxito numa guerra convencional no território ucraniano só seria possível com o envolvimento de tropas da OTAN, o que poderia redundar numa situação incontrolável de exportação da guerra para toda a Europa.

RÚSSIA

A Rússia sofre com o fenômeno injustificável da russofobia europeia. Apesar de ter dado mostras claras de não ter intenção de dominar a Europa e que a guerra da Ucrânia é meramente um ato existencial de defesa, após ter sido traída pelos EUA e OTAN nos diversos acordos e promessas feitas para Gorbachev e Yeltsin. Ela precisa exportar seus produtos (petróleo e gás) e, talvez, para preservar sua imagem, não tenha aplicado a força que poderia na guerra da Ucrânia, tendo sido reativa e não proativa. Agora, com o acirramento da guerra, e após a decisão da Ucrânia e da OTAN de atacar com drones recebidos dos EUA e da Europa a infraestrutura russa, causando sérios danos para o país, a Rússia mudou sua postura, que passou a ser mais proativa. Contudo, a economia russa, em 2025, começou a sofrer muito com a guerra: baixo crescimento econômico, taxa de juros e inflação elevadas, significativos gastos militares e dependência de certos países, como a Índia, para triangular a venda de seu petróleo por força das sanções em vigor. Mesmo assim, é questão de tempo colocar a Ucrânia de joelhos, conquistando Odessa e Kharkiv e, possivelmente, invadindo Kiev. E para a Rússia, o acordo de paz pode sair a qualquer momento, antes mesmo de tais investidas. Depende de poucos pontos: a manutenção da Criméia, anexação de Donbass, compromisso de neutralidade militar da Ucrânia com a Rússia e aceitação pela Ucrânia de sua não adesão à OTAN.

Segundo Vladimir Brovkin, autor do livro de Vladimir Lenin a Vladimir Putin, apesar de a Rússia não ter nenhuma intenção de entrar em conflito com a Europa, seu divórcio com a última já está estabelecido e permanecerá por um longo tempo. Esse divórcio é político, cultural e econômico. E ela já se voltou completamente em direção ao leste em busca de novas parcerias com a China, Índia, Indonésia e outros países do sudeste asiático. O povo russo não nutre grandes amores pelos europeus e em especial pela Alemanha que, segundo a imprensa, é quem fabrica os mísseis usados pela Ucrânia para os ataques em seu território. O establishment russo é bastante antiamericano e demonstra que perdeu completamente a confiança nos EUA após tantos acordos rompidos ou não cumpridos.

ISRAEL

Existem 15 milhões de judeus no mundo. Somente sete milhões deles vivem em Israel. Os demais oito milhões vivem em outros países, sendo que seis milhões deles compõem a comunidade judaica americana, que está se voltando contra a política atual de Netanyahu. Note-se que um terço da comunidade judaica de Nova Iorque, a maior dos EUA, votou para prefeito em Zoran Mandani, que é muçulmano e militante da causa palestina. Isso é sinal de que o lobby pró Israel tenderá a ser diminuído, mudando a relação da Europa e dos EUA com Israel. É o filho adolescente que pode perder parte da mesada. E isso vem acontecendo em função do isolamento do regime sionista.

Além disso, sua fama de Estado militarmente imbatível caiu por terra com os ataques do Irã. Israel sofreu sérios ataques que mudaram a percepção de segurança de sua população, apesar disso ter sido muito bem escamoteado pelo governo e imprensa israelense. Sem a proteção dos EUA, Israel perde muito da sua capacidade militar. Daí ser esperado que a coalizão centro sionista, de oposição a Netanyahu, o derrote nas próximas eleições, o que não deverá mudar grande coisa na política contrária ao Estado Palestino.

IRÃ

Por décadas, o mundo boicotou a possibilidade de o Irã desenvolver armas nucleares. Após quase seis meses de conflito no Irã, o mundo percebeu que o país detinha uma arma muito poderosa. A geografia e o poder de fogo emprestam ao Irã o domínio sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do fluxo mundial de petróleo e gás natural. Países asiáticos como China, Índia e Japão são os mais afetados pela interrupção física do fornecimento.

O bloqueio continuado do Estreito de Ormuz pelo Irã gerou um forte impacto inflacionário e logístico global. Houve uma elevação dos preços do petróleo com o Brent chegando próximo de US$ 100. As seguradoras internacionais se recusam em cobrir os riscos dos navios na área, o que reduziu significativamente o tráfego.

Enquanto os EUA ameaçam Teerã com isolamento econômico total, o governo iraniano impõe exigências rígidas para negociar.

A alta nos preços dos combustíveis pressiona a inflação global (especialmente nos EUA). Isso causou uma fuga de investidores para ativos de segurança (“flight to safety”), valorizando o dólar e enfraquecendo as moedas de mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Líderes dos EUA e de seus aliados acreditam que Ormuz é uma cartada única do Irã já que novas rotas de exportação estão sendo estudadas e poderão entrar em operação em até dois anos. Três aspectos devem ser considerados: primeiro, o Irã pode usar o bloqueio de forma diferenciada, por país e por produto; segundo, a receita de pedágio deve cair, mas continuará existindo; e, terceiro, fica desde já institucionalizada a influência regional iraniana.

Além do setor energético, a guerra impacta o transporte de fertilizantes e commodities agrícolas, afetando a cadeia global de alimentos. Os gráficos abaixo, extraídos do The Economist (edição de 8 de agosto de 2026)  mostram a redução do comércio dos diversos países que dependem do funcionamento do estreito de Ormuz.

Comércio através de Ormuz
2026, em milhões de toneladas

A queda no volume por comodities, por commodity.

Em milhões de toneladas

A queda no volume de importações pelos países do Golfo.

Em milhões de toneladas

E os oleodutos/gasodutos em operação, em construção e ainda em fase de projeto.

Israel adota uma postura ofensiva, focada em conter as ameaças em suas fronteiras e degradar os aliados do Irã com ofensivas aéreas no sul do Líbano, violando acordos prévios de trégua.

Teerã evita confrontos diretos em território israelense e financia ações do Hezbollah no Líbano e dos Houthis no Mar Vermelho e infraestruturas sauditas.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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