Como escreveu Roberto Calasso em “O Livro de Todos os Livros”, “Dez gerações passaram de Adão a Noé – e degeneraram. Mais dez passaram de Noé a Abrão – e degeneraram. Degenerar era uma característica primária das gerações. Javé não tinha criado um mundo fundado em equilíbrio. A tendência natural do mundo era em direção ao pior.”

Talvez porque a política continue sendo o território masculino por excelência é que seja também uma zona de guerra e destruição, onde o mal, os pequenos e vis interesses hegemonizam quase toda ação. Em particular, é na política, o espaço primordial do poder, onde se entrelaçam os interesses de classe e os vícios mais degradantes da espécie – e do mundo da masculinidade.

A enxurrada de esgoto que subiu à superfície desde que explodiu o escândalo do banqueiro Daniel Vorcaro trouxe à cena o último círculo do inferno.

É como se as elites brasileiras, encarnadas na figura do dono do Master, quisessem demonstrar sua vocação para o inimaginável, a ausência de limites casada ao despudor, seu destino de campeã, de quintessência do desregramento em benefício próprio – do clã, da família, dos amigos cujos nomes estão guardados a sete chaves nas agendas dos celulares, das festinhas nababescas e das reuniões secretas – mas nunca da nação, que é sempre muito maior que elas.

Por que, então, esse foco voltado para a fortaleza murada onde a macheza se reúne privadamente e se reproduz sem a necessidade do sexo oposto, a não ser como objeto de desfrute?

Claro que a biologia, ou a genitalidade, não define o ser, não pelo menos entre os humanos. Ao menos assim se espera. São inúmeros, embora pudessem ser muito mais – e devessem ser todos – os homens que ultrapassam em todos os sentidos e direções sua condição biológica, os limites do gênero no qual nasceram.

Porque decidiram se transcender, tornando-se macho e fêmea num só tempo.

Assim como, desgraçadamente, são muitas as mulheres que, deixando para trás a natureza específica do seu gênero, se alienando e fugindo do ser feminino, vestem a couraça e incorporam a ideologia daqueles que a oprimem e sufocam, desses intrépidos cavaleiros que com seus cavalos as pisoteiam.

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Será acaso que as corporações voltadas para a guerra (e o controle do poder) sejam o mais fértil dos espaços para a macheza?

Não há nenhuma novidade nisso. Qualquer um pode constatar. Os exércitos cultivam suas cercanias como parte de um solo sagrado onde imperam como profissionais da morte, treinados para matar (e nunca chorar). A ausência de limites os deixaria em pânico, a inexistência das fronteiras os tornaria inúteis.

Quando, num esforço marcial para parecerem devotos companheiros de suas mulheres, o que definitivamente não são nem querem ser, soam patéticos.

Reparem que uma das engrenagens da máquina de compra e venda financiada pelo banqueiro e compartilhada por maiorais das instituições ditas republicanas era a vil mercantilização de mulheres, tratadas como bonecas de luxo importadas a preço de ouro para seu uso: moças, meninas, “norueguesas” como a elas se referiu um dos beneficiados do festim (o senador Irajá do PSD de Tocantins), mulheres transformadas em objeto, coisas, entidades sem nome, vontade, história, expostas no balcão dos fetiches à disposição dos milionários e dos poderosos.

Não, o escândalo do banco Master e seu dono não se restringe ao ataque contra as instituições da República, muito menos a um simples embora monumental escândalo político-financeiro. Ao contrário, uma de suas faces mais perversas era a violenta exploração e usufruto de mulheres.

A transbordante hipocrisia e o falso moralismo – o desrespeito às próprias cônjuges, às filhas, às mães e irmãs – desses cidadãos acima de qualquer suspeita incorporam o que há de pior nessa aliança entre classe, poder e macheza.

Pressionados pelas circunstâncias das máscaras que eventualmente lhes são arrancadas da cara, agem – como fez Flávio Bolsonaro num encontro de mulheres no qual se apresentou de mãos dadas com a esposa – convocando suas companheiras para negarem a existência dos seus pecadilhos e juramentarem a seu favor. Duplamente ofendidas e humilhadas, elas se submetem a essa barganha na qual deixam de existir, se anulam, escondendo a humilhação da qual foram vítimas para que o projeto de poder do homem permaneça inviolado.

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É possível que hoje, quatro de outubro, o destino do país esteja muito particularmente na escolha que farão as mulheres. Milhões de brasileiras e brasileiros lamentarão, do fundo do coração, se o resultado das urnas ungir a candidatura da ultradireita – quando deveríamos apenas constatar a alternância no poder, porque é a regra do jogo que nos coube jogar.

Também, não serão poucos, nem poucas, os que vão manifestar seu fervoroso apoio à política representada pelo capitão do exército, seus filhos e, lamentavelmente, sua esposa Michelle – que apesar de sentir a incandescente espada do machismo queimando a pele, segue fidelíssima ao credo do esposo (como tantas milhões de outras).

E se, por conta de inúmeras combinações ou trapaças da história, após o 15 de novembro, estivermos nos lamentando por esse talho nas veias da civilização, será também por termos perdido ali, naquela encruzilhada, essa imensurável conquista de sermos todos num só tempo mulheres e homens, maridos e esposas, amantes e amantes, filhas e filhos tanto quanto, num só ser, pais e mães, machos e fêmeas e todas as quase que infinitas possibilidades da alma humana.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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