
Nestas últimas semanas, foi divulgado um enorme número de matérias e opiniões pressionando o governo atual e o que será eleito para fazer o corte de gastos públicos, a fim de enfrentar o que seria o grande problema de nossa economia: o tamanho da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), que atingiu 81,9% do PIB em junho de 2026.
Esse corte dos gastos públicos deveria focar, segundo o pensamento econômico convencional, no aumento real do salário mínimo e nos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que seriam os grandes responsáveis pelo aumento dos gastos do governo e, consequentemente, de sua dívida.
Ao analisarmos esses gastos, vamos verificar que o principal responsável pelo aumento da dívida é o pagamento de juros. Em 2025, os juros nominais do setor público consolidado alcançaram R$ 1,008 trilhão (7,91% do PIB), enquanto o déficit primário — diferença entre receitas e despesas antes dos juros — foi de R$ 55 bilhões (0,43% do PIB). O resultado nominal, que soma o resultado primário e os juros, ficou negativo em R$ 1,063 trilhão. Segundo o Banco Central, a elevação da taxa Selic e o aumento do estoque do endividamento contribuíram para esse custo. Essa informação é omitida permanentemente pela imprensa conservadora.
É por esse mecanismo que o serviço financeiro pressiona a dívida. Quando os juros não são cobertos pelo resultado primário, precisam ser financiados e tendem a ser incorporados ao estoque. Em 2025, somente a incorporação de juros acrescentou 8,9 pontos percentuais do PIB à Dívida Bruta do Governo Geral; o crescimento do PIB nominal retirou 5,7 pontos e outros fatores também atuaram, resultando em aumento líquido de 2,4 pontos, para 78,7% do PIB. Em junho de 2026, a DBGG chegou a 81,9% do PIB. É preciso distinguir, contudo, juros de amortizações: essas integram o serviço da dívida, mas, em grande parte, correspondem à rolagem de títulos vencidos e não podem ser contadas como gasto novo.
Ao analisarmos outros gastos do governo, vamos verificar que há problemas gravíssimos com eles e que também são permanentemente omitidos. Esse excesso de gastos ocorre porque há verdadeiras castas no funcionalismo público que precisam ser enfrentadas.
Uma delas são as Forças Armadas. Em 2025, as despesas empenhadas com pessoal ativo, inativo e pensionista somaram R$ 100,4 bilhões, cerca de 76% dos R$ 132 bilhões empenhados pelo Ministério da Defesa. As regras próprias dos militares podem assegurar remuneração integral na inatividade, enquanto os benefícios do Regime Geral de Previdência Social estão limitados ao teto de R$ 8.475,55 por mês em 2026.
Outra casta que precisa ser enfrentada é a do Poder Judiciário. Em 2025, suas despesas totalizaram R$ 164,6 bilhões, equivalentes a 1,3% do PIB. Além disso, pagamentos brutos a magistrados podem ultrapassar o teto constitucional de R$ 46.366,19 em determinados meses, em razão de verbas indenizatórias, retroativas e eventuais. Há ainda outros gastos que precisam ser enfrentados, como as emendas parlamentares.
Também devem ser revistos os gastos tributários, projetados oficialmente em R$ 620,8 bilhões para 2026. A revisão deve ser criteriosa, com avaliação periódica de objetivos, beneficiários, resultados, prazo e custo-benefício, eliminando-se os que não apresentem retorno econômico ou social comprovável. Essa revisão não deve incluir o Simples Nacional, essencial às micro e pequenas empresas.
Diante dessas informações, que praticamente não são divulgadas, não dá para aceitar que o chamado ajuste fiscal recaia sobre o aumento do salário mínimo, o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e outros programas de transferência de renda.
Devemos exigir que a grande imprensa aborde, de forma responsável e verdadeira, quais são os principais gastos do governo federal e que esses sejam enfrentados.
Mais do que perseguir um equilíbrio fiscal de natureza contábil, é preciso adotar a perspectiva da sustentabilidade fiscal, que considera conjuntamente a trajetória da dívida, o crescimento econômico, a capacidade de financiamento do Estado e a qualidade do gasto público.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
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