Quando a economia muda de lado, a política também muda? As transformações no trabalho, no consumo e na organização da sociedade ajudam a compreender o avanço da direita no Brasil.

 

Uma transformação profunda da economia brasileira ajuda a compreender as mudanças políticas deste primeiro terço do século XXI. O projeto desenvolvimentista contribuiu para formar uma sociedade urbana e industrial, cuja organização coletiva favoreceu o crescimento político da esquerda. A transição econômica posterior, conduzida pelo neoliberalismo e marcada pela financeirização, expansão dos serviços e digitalização, alterou as relações de trabalho e ampliou a valorização da iniciativa individual, criando condições para a maior presença de discursos e forças de direita.

Isso não afirma que a mudança econômica determine automaticamente a opção política e até o voto. Mas permite reconhecer que cada estrutura produtiva organiza interesses, produz identidades, estabelece expectativas e influencia as formas de mobilização política. Afinal, as preferências políticas e eleitorais também se formam na experiência cotidiana do trabalho, do consumo e das possibilidades de ascensão social.

Entre as décadas de 1960 e 1970, o Brasil atravessou a fase das maiores transformações estruturais de sua história. A industrialização acelerou, as cidades cresceram, milhões de brasileiros migraram do campo para os centros urbanos e o emprego assalariado se expandiu. A renda per capita aumentou significativamente, embora os benefícios do crescimento tenham sido distribuídos de maneira desigual, com maior concentração da renda nas parcelas mais ricas da população.

A modernização ocorreu sob a ditadura militar, acompanhada pelo autoritarismo, pela repressão política e pelas profundas desigualdades. Ao mesmo tempo, criou profissões, ampliou a escolarização, consolidou uma classe trabalhadora urbana e fortaleceu o mercado consumidor. Emprego formal, casa própria, automóvel, eletrodomésticos e educação dos filhos passaram a integrar as aspirações de parcelas crescentes da população.

Mas a principal consequência política da industrialização não decorreu apenas do aumento da renda ou do consumo. A concentração de trabalhadores em fábricas, bairros e grandes centros urbanos favoreceu a formação de experiências e interesses compartilhados. Pessoas submetidas às mesmas condições de trabalho e relações salariais passaram a reconhecer problemas comuns, cuja solução dependia frequentemente da organização coletiva.

A fábrica não produzia apenas mercadorias. Também reunia trabalhadores em torno de interesses que ultrapassavam suas trajetórias individuais. Nesse ambiente, sindicatos, associações de moradores, movimentos estudantis, organizações populares e comunidades eclesiais de base ganharam importância. As reivindicações por melhores salários passaram a se articular com demandas por educação, saúde, moradia, transporte e participação política.

Essa dinâmica contribuiu para o fortalecimento da esquerda, especialmente das correntes que associavam a transformação econômica à ampliação dos direitos trabalhistas, à redistribuição da renda e à democratização do Estado. O novo sindicalismo, as greves do ABC paulista no final dos anos 1970, a formação do Partido dos Trabalhadores em 1980 e a criação da Central Única dos Trabalhadores em 1983 expressaram parte desse processo.

Nem toda a classe trabalhadora aderiu à esquerda, mas a organização coletiva criou condições para transformar interesses sociais em representação política. Essa mobilização ganhou força porque as aspirações de uma população cada vez mais urbana, escolarizada e organizada entraram em conflito com a concentração de renda e as restrições à participação democrática. O Brasil econômico havia mudado antes que o Brasil político conseguisse acompanhá-lo. A redemocratização expressou também as contradições dessa transformação social.

A partir da última década do século XX, contudo, a trajetória econômica brasileira assumiu características diferentes. A perda relativa de densidade industrial, a financeirização, as reformas de orientação neoliberal e a expansão dos serviços modificaram as relações entre capital, trabalho e Estado. Mais recentemente, a hiperconectividade, as plataformas digitais e a inteligência artificial aprofundaram essa reorganização.

O emprego assalariado formal não desapareceu, mas passou a conviver com uma estrutura ocupacional mais diversificada, marcada pelo crescimento das atividades por conta própria e por novas formas de obtenção de renda. A fábrica perdeu centralidade relativa, enquanto o celular passou a funcionar simultaneamente como ferramenta de trabalho, banco, loja, meio de comunicação e espaço de sociabilidade.

Essa mudança alterou também a organização dos interesses. Trabalhadores que compartilham o mesmo espaço produtivo encontram condições de mobilização diferentes daqueles que exercem atividades individualmente, atendem clientes dispersos ou dependem de plataformas digitais. Os sindicatos permanecem relevantes, mas já não constituem a principal referência de representação para muitos desses trabalhadores.

A fragmentação das experiências profissionais dificulta a construção de identidades coletivas semelhantes às que ganharam força durante a industrialização. Paralelamente, o trabalhador passa a ser incentivado a se perceber como prestador de serviços, empreendedor e responsável direto pela administração de sua renda, de seu crédito e de seus riscos.

A relação entre capital e trabalho torna-se, para parcelas crescentes da população, entrelaçada à relação entre débito e crédito. Financiamento, investimento em equipamentos, manutenção de pequenos negócios e endividamento passam a integrar as condições de obtenção de renda. Nesse ambiente, a mobilidade social também adquire novos significados. A promessa de conquistar uma posição profissional com salário, carreira, previdência e direitos passa a conviver com a aspiração de construir uma trajetória própria, ampliar o consumo, alcançar independência financeira e exercer maior controle sobre o trabalho.

O empreendedorismo pode representar uma escolha efetiva, mas também uma alternativa diante da insuficiência de oportunidades de emprego. É nesse contexto que parte dos discursos associados à direita encontra correspondência nas aspirações de segmentos da sociedade, ao enfatizar autonomia, mérito, empreendedorismo, liberdade econômica e menor interferência estatal.

A transformação econômica, entretanto, não explica isoladamente a expansão da direita brasileira. Sua presença política também se relaciona à atuação de partidos, lideranças, organizações religiosas, redes digitais e movimentos sociais, além de questões como segurança pública, corrupção, família, valores culturais e confiança nas instituições. As plataformas digitais ampliaram as possibilidades de mobilização política, permitindo formar comunidades em torno de identidades e interesses que não dependem necessariamente de uma ocupação ou de um território compartilhado. A direita também utiliza essas redes para difundir propostas e mobilizar diferentes segmentos, embora a tecnologia não favoreça exclusivamente uma orientação política.

A complexidade desse processo aparece nos próprios dados eleitorais. A matriz ideológica divulgada pelo Datafolha em julho de 2026 identificou 44% dos brasileiros à direita ou à centro-direita, diante de 39% à esquerda ou à centro-esquerda. Entretanto, ao separar as dimensões econômica e comportamental, o levantamento encontrou predominância de posições mais à esquerda nas questões econômicas e mais à direita nos temas comportamentais. Isso mostra que as pessoas podem defender proteção social e, simultaneamente, sustentar posições conservadoras em questões culturais. Também podem valorizar o empreendedorismo sem abrir mão de serviços públicos e garantias trabalhistas.

Existe, portanto, uma contradição importante. A promessa de autonomia individual ganha força em uma economia na qual muitos trabalhadores continuam dependendo de crédito, proteção social e decisões tomadas por empresas ou plataformas sobre as quais possuem pouco controle. Não basta afirmar que qualquer pessoa pode empreender sem considerar seu acesso ao capital. A liberdade de trabalho também precisa ser compreendida em situações nas quais plataformas estabelecem preços, algoritmos e condições de remuneração. Da mesma forma, o aumento do consumo não elimina necessariamente a insegurança associada à renda instável e ao endividamento.

A promessa de autonomia pode ampliar oportunidades, mas também transferir para o indivíduo a responsabilidade por problemas que possuem causas estruturais. Essa tensão ajuda a compreender por que uma pessoa pode estar ocupada e sentir-se insegura, aumentar sua renda sem realizar suas expectativas ou conquistar maior independência profissional enquanto perde garantias coletivas. É nesse contexto que as disputas políticas encontram espaço justamente nessa distância entre aspirações e condições concretas de vida. Diferentes projetos oferecem interpretações e respostas para a insegurança, a busca por reconhecimento, o desejo de liberdade e a necessidade de proteção.

O contraste histórico brasileiro revela, assim, como a transformação econômica modifica as bases da organização política. A industrialização favoreceu a formação de organizações coletivas que contribuíram para o fortalecimento da esquerda e para a redemocratização. A expansão dos serviços, a individualização do trabalho e a digitalização alteraram essas bases sociais, enquanto discursos centrados na autonomia econômica e diferentes pautas conservadoras ganharam espaço.

A sociedade atual deseja liberdade, mas também segurança, pois valoriza o empreendedorismo, mas necessita de proteção. Da mesma forma que busca ampliar o consumo, exige qualidade de vida e reconhece a iniciativa individual, embora continue dependendo de bens e serviços públicos.

A experiência brasileira demonstra que as mudanças na estrutura produtiva influenciam profundamente a política, mas seus resultados dependem das instituições, dos valores e das organizações capazes de transformar expectativas sociais em representação. Embora a economia não escolha um lado político, ela termina por contribuir na transformação da sociedade, reorganizando os seus interesses e modificando as condições em que cada projeto disputa o futuro.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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