
Se me perguntarem qual o melhor livro que li em 2026, diria que é o da antropóloga francesa Michèle Petit: “Somos animais poéticos – A arte, livros, e a beleza em tempos de crise”. Ela sustenta que não somos só animais políticos como escreveu Aristóteles, mas também animais poéticos. A autora é uma referência mundial nos estudos sobre a leitura, a função da biblioteca e dos mediadores culturais em diversos contextos.
Em seu livro estão tanto escritores como pessoas anônimas sobreviventes de catástrofes – como a recente pandemia -, em que o poder da arte e da beleza são essenciais para “reinventar a vida”. São muitas as histórias de crianças e adultos transformando horror, dor e inquietudes em beleza e assim descobrir o reino das possibilidades.
Em 1943 um jovem de 12 anos chamado Jacques Demy adorava teatros de marionete, e teve que se abrigar num abrigo antiaéreo em Nantes, pois sua cidade estava sendo bombardeada. Ele disse que estavam apavorados e talvez a partir disso começou a sonhar com uma existência ideal. Muitos anos depois iria dirigir o famoso filme “Os guarda-chuvas do amor”, no qual as pessoas dançam, a cor triunfa sobre a poeira e a música sobre o caos.
Michèle Petit recolheu exemplos de como, diante de grandes tristezas, as crianças e adultos conseguem reagir. A escritora Hélène Cixous aos 12 anos perdeu seu pai brutalmente, de um dia para o outro, sentiu que no lugar do mundo tinha um abismo. Fez então uma jangada para sobreviver, uma jangada de papel, e escreveu: “Não reagimos à morte com a morte, tentamos transformá-la em vida, é a arte de Fênix, as artes estão aí para transfigurar o inferno”, escreve Petit.
Uma das histórias do livro é a de Catherine Meurisse, que era a responsável pelas páginas de cultura do semanário Charlie Hebdo. Dia sete de janeiro de 2015 ela chegou atrasada à reunião, pois dormiu muito devido à tristeza de uma decepção amorosa. Quando chegou diante do prédio, o cartunista Luz, que também havia perdido o trem, disse a ela: “Dois homens armados acabam de entrar no edifício”. Lembrem do massacre que ocorreu na sala onde se reuniam artistas e colaboradores do semanário de humor, mortos por terroristas islâmicos devido a uma charge sobre Maomé.
Catherine foi cercada por amigos, perdeu a memória, parte dela estava morta, estava traumatizada. Tinha psicanalista, apoios, mas logo decidiu viajar em busca da beleza, foi a uma exposição e viu pela primeira vez o “Grito” de Munch, então disse: “É o grito que eu gostaria de ter dado depois de sete de janeiro”. Depois disso decidiu viajar a Roma em busca de repouso e foi para a cidade eterna; ao ver as estátuas antigas de dois mil anos ou mais, encontrou-se um pouco com a eternidade.
Às vezes, encontrar um pouco de eternidade, gera um sentimento de alegria, pois se a vida é uma passagem, ela deixa marcas que podem se eternizar. Foi nos museus de Roma que a vontade de viver voltou, a beleza como antídoto ideal ao horror e terminou escrevendo o livro, “La Légèreté” (A Leveza), em que reordenou as coisas, reuniu os fragmentos.
Algo semelhante ocorreu com Philippe Lançon que estava na reunião do semanário de humor Charlie e escreveu um livro sobre o que ocorreu na sala onde os terroristas invadiram com metralhadoras. O livro é “Le Lambeau” traduzido aqui como “O Retalho”, é a história de como foi gravemente ferido, passando por 17 cirurgias. Adormecia todas as noites escutando Bach como sua morfina, que acalmava, amortizava a sensação de queixa, o sentimento de injustiça, a estranheza do corpo. Escreve que leu muito Kafka, Proust, e, especialmente, Shakespeare, um guia quando se trata de avançar na neblina dúbia e sangrenta, dando sentido ao sofrido, vivido. Ao voltar para casa, refez sua biblioteca, o símbolo da reconstrução, ela tinha de ser bela, e concluiu: “A arte não repara nada, mas te escolta até no inferno, a arte é a vida transfigurada, que impede a dissolução do ser”.
Poderia seguir com o livro “Somos animais poéticos”, mas é véspera das eleições. Lemos e escutamos os artistas brasileiros e do exterior, assim como expressões da cultura, ao lado do candidato da educação pública, da saúde pública, do fim dos impostos para quem ganha até cinco mil reais e do fim da escala 6×1; do lado dos professores, artistas, negros, indígenas, pobres, trabalhadores.
Além do que a arte brasileira representa nosso Brasil, a vida sem arte é uma vida triste, é uma vida sem alma, sem cores e brilhos. No meio de um mundo desnorteado, de um mundo de guerras, do crescimento da crueldade, nós temos o que falta na Argentina, Chile, Europa e muito mais. Temos em quem votar, temos em quem apoiar e assim apoiar nosso país, escrevo com certo otimismo, percebo o quanto estamos unidos pela democracia, pela liberdade, pela justiça social.
Vivemos dias e noites únicas, portanto brindo aos que estão norteados e saudamos o L de livros, o L que tem um traço vertical encostado num traço horizontal. Estamos orientados, nada foi ganho ainda, mas estamos fazendo um furo no futuro como escreveu o amigo psicanalista Edson Luiz André de Sousa em seu livro sobre Utopia. É, somos sonhadores, agora é a hora de votar no sonho, votar sonhando num Brasil melhor e mais justo. Ah, todo o mundo está atento em nós!
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “Alienação, democracia, soberania”, de Luiz Marques.






