Eles vão dobrar a aposta na crise e tentarão romper o dique de contenção institucional que evitou o golpe em janeiro.

Os tentáculos do Banco Master alcançaram algumas das mais importantes instituições do Estado brasileiro e capturaram vários agentes públicos, seja do Banco Central – que, sob a administração de Campos Neto, teve os mecanismos de controle desativados; seja de deputados e senadores, como o emblemático caso de Ciro Nogueira (PP) – que cobrou alto preço para colocar seu mandato a serviço de Vorcaro, apresentando a “emenda Master”, feita sob medida pelo banco; alcançando até a Suprema Corte, na qual ao menos três ministros — Alexandre de Moraes, André Mendonça e Dias Toffoli – possuem relações de proximidade com Vorcaro.

Em meio a tanta fumaça produzida para embaralhar as responsabilidades da rede de proteção Master, vai ficando claro que estava em curso uma estratégia de poder, que contava com o estabelecimento de relações privilegiadas nas estruturas de Estado. Longe de ter sido interrompida com a prisão de Vorcaro, essa estratégia continua em curso e seus agentes dispostos a fazer tudo, inclusive levar o país a uma crise institucional, dando continuidade à tentativa de golpe de 8 de janeiro. Ao menos dois fatores que, combinados e atuando em colaboração, corroboram isso:

1) Quem controla o ritmo das investigações, com mão de ferro, é o ministro André Mendonça, que determinou acesso antecipado do seu gabinete ao material obtido pelas investigações da PF, em formato compatível de análise forense. Isso permite ao seu gabinete a “pesca” direta no acervo, antes de ser feita a triagem e análise pela equipe policial responsável. Na prática, isso significa uma intervenção do juiz no trabalho tipicamente policial. Não contente com isso, decide monocraticamente pelo afastamento do diretor-geral e do chefe da inteligência da PF, como se estivesse numa briga de vale-tudo;

2) Flávio Bolsonaro continua sendo um candidato competitivo à presidência da República, resistindo a qualquer alternativa “mais palatável” à direita e, apesar de haver robustas provas e fartas evidências do seu relevante papel no esquema de Vorcaro e do INSS, as investigações contra ele andam a passos de caranguejo.

Em vez de ajudar a trazer luz às investigações, as ações do ministro André Mendonça colocam mais combustível na crise. Ele vai buscar apoio na mobilização de paixões não contadas por parágrafos e incisos, mas por salmos. Em vídeo dirigido à comunidade religiosa, ele agradece o apoio e as orações: “Meus irmãos e minhas irmãs, minha palavra se dirige a vocês essencialmente para agradecer tantas mensagens de oração e de carinho. Estejam certos de que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família”. Deliberadamente, o pastor suplantou o ministro.

Ao assegurar a irrestrita liberdade religiosa para todos os cidadãos, nenhuma decisão no âmbito do Estado laico pode ser fundamentada por qualquer crença, que não a Constituição. Essa é a base da luta contra as monarquias absolutistas, que legitimavam o seu poder na bênção divina e não na soberania popular e na igualdade entre os cidadãos. Logo depois da sua declaração, Michelle Bolsonaro afirma que Mendonça é um “escolhido e ungido do Senhor” e, ato contínuo, as principais lideranças da direita transformaram as manifestações convocadas para o dia 7 de setembro em atos de apoio ao ministro, tendo Flávio Bolsonaro (PL) como protagonista político. Em nenhum momento, ele precisou explicar os R$ 70 milhões pedidos diretamente para Vorcaro. Imediatamente após essas iniciativas orquestradas, André Mendonça decide monocraticamente retirar do comando da PF as duas pessoas que estiveram à frente das investigações que deram fim ao roubo do INSS e levaram Vorcaro para a cadeia.

A extrema direita não tem dúvida sobre qual o caminho escolhido para evitar que seus principais líderes sejam desmascarados como a guarda pretoriana dos interesses mais escusos e corruptos, que vieram à tona com as fraudes do INSS e do Banco Master. Crimes que só foram estancados pela ação da PF, do Banco Central e do Ministério da Fazenda, no governo Lula.

Eles vão dobrar a aposta na crise e tentarão romper o dique de contenção institucional que evitou o golpe em janeiro. A busca no discurso religioso pela legitimação das suas ações mostra que o objetivo é acirrar ao máximo os ânimos e impor um clima de guerra de crenças, na qual a Constituição e a democracia são as primeiras vítimas e alguns dos principais líderes da direita, envolvidos até o pescoço em corrupção, os principais beneficiários.

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Clique aqui para ler artigos do autor.