Carl Jung combinou a literatura, a narração de histórias e a psicanálise para chegar às memórias inconscientes coletivas de certos arquétipos, promovendo a reconciliação das crenças com a ciência.

Na década de 1930, Carl Gustav Jung apresentou ao mundo a sua ideia de inconsciente coletivo. Por baixo do inconsciente pessoal analisado por Freud, Carl Jung aponta a existência, em cada indivíduo, de uma parte mais fundamental da psique humana que é comum a todos os homens, em todos os tempos e lugares, como uma herança psicológica, comum a toda humanidade. Disse ele: “O inconsciente contém não apenas componentes pessoais, mas também impessoais, em forma de categorias, ou arquétipos.”

Esses arquétipos se expressam através de símbolos que se manifestam nos nossos sonhos e nos mitos de todas as tradições culturais. Esses mitos revelam a própria natureza da alma, são metáforas da nossa realidade interna mais profunda e essencial. De todos os mitos, o mais conhecido é o do herói. Eles são estruturalmente semelhantes nas mais diferentes culturas. Obedecem a uma forma, um padrão universal, quer seja na Grécia antiga, nas tribos africanas, nos índios americanos, nos incas peruanos.

Com a publicação de seu livro Psicologia do inconsciente ocorreu o distanciamento de seu mestre Freud, que estava focado no indivíduo e não aceitava a ideia de Jung do inconsciente coletivo, formado por memórias ancestrais passadas, ou seja, a bagagem que os indivíduos trazem dentro de si. Jung identificou a existência do inconsciente coletivo, além do inconsciente pessoal detectado por Freud.

Daí derivou a noção dos arquétipos (padrões universais e simbólicos que permeiam a psique de todas as culturas e indivíduos) que são memórias culturais coletivas que nos ajudam a compreender nossas histórias de vida. São diversos os arquétipos que moldam nossas personalidades, motivações e comportamentos.

Aqui, nos concentraremos nos arquétipos Persona, Sombra e no processo de individuação.

PERSONA

Para Jung, o arquétipo PERSONA representa a “máscara social” que cada indivíduo utiliza para se apresentar ao mundo. O termo vem do latim persona, que designava a máscara usada pelos atores no teatro antigo. Ela é a fachada externa que usamos para nos adaptarmos e nos adequarmos às expectativas e normas da sociedade. É através dessa máscara que nos apresentamos ao mundo e interagimos com os outros. Ao reconhecer a presença da Persona e confrontá-la com a verdadeira identidade, o indivíduo pode trabalhar uma integração mais equilibrada entre a Persona e a sua essência. Atrás das máscaras que usamos para nos adaptarmos ao mundo, para nos apresentarmos socialmente, adequando-nos às expectativas, valores e normas dos grupos aos quais pertencemos, é aí que reside a verdadeira essência do eu, esperando para ser descoberta e integrada em toda a sua complexidade.

Assim, a Persona é uma estrutura psíquica que permite ao indivíduo interagir socialmente. Ela inclui a imagem que queremos transmitir aos outros, os comportamentos “adequados” em cada contexto, as identidades sociais que assumimos (na profissão, na família, nas relações), os modos de falar, vestir e agir na convivência social. Bons exemplos são como se comportam um Juiz no Tribunal ou um Professor na sala de aula.

Jung não considerava a Persona algo falso ou necessariamente negativo. Pelo contrário: ela é uma necessidade psicológica e social. E ela tem grande importância para a adaptação social, facilitando a vida em sociedade em termos da previsibilidade comportamental, permitindo o exercício de papéis sociais, sem o descontrole dos impulsos, emoções e fantasias, protegendo e preservando a intimidade psíquica, favorecendo o reconhecimento social das pessoas pelas competências, funções e responsabilidades delas no meio social.

Entretanto, quando o indivíduo se identifica completamente com essa máscara, corre o risco de empobrecer sua vida psíquica e afastar-se de sua individualidade profunda. O desenvolvimento saudável consiste em equilibrar a adaptação social proporcionada pela persona com a fidelidade à própria realidade interior.

Jung alertou para o perigo da identificação excessiva com a persona. Nesse caso, o indivíduo passa a acreditar que ele é apenas aquilo que aparenta ser. Ocorre, assim, uma alienação do seu mundo interior já que a pessoa perde contato com suas emoções verdadeiras, desejos pessoais, fragilidades, criatividade e aspectos inconscientes da personalidade. Bons exemplos são o executivo que reduz toda sua identidade ao sucesso profissional e o acadêmico que passa a se considerar o dono da verdade.

Mas, definitivamente, não se trata de destruir a persona. Jung nunca propôs abandonar os papéis sociais. A persona deve ser usada como uma roupa adequada para cada situação, mas não como a própria pele.

SOMBRA

A sombra é um arquétipo que reúne aspectos da personalidade que o ego rejeita, reprime ou considera incompatíveis com a imagem que tem de si. Dentre tais aspectos figuram tanto características negativas como a agressividade, inveja, egoísmo, ressentimento, covardia, impulsos sexuais reprimidos quanto as qualidades positivas sufocadas tais como criatividade, espontaneidade, assertividade, sensibilidade e liderança, dentre outros. Portanto, a sombra não é somente o lado mau. Ela engendra tudo aquilo que a consciência não integrou.

Para Jung, o reconhecimento da sombra é uma das etapas fundamentais da individuação. Na verdade, o processo de individuação é a busca do indivíduo pelo autoconhecimento, pela integração na sociedade e com a natureza, enfim, a busca do sentido da vida. E ela começa seriamente quando a pessoa deixa de se identificar apenas com sua persona e passa a confrontar aquilo que não gostaria de reconhecer em si mesma. Daí a importância da sombra para a individuação já que nesse processo busca-se a totalidade psíquica e não a perfeição moral. A pessoa permanece fragmentada quando acredita ser apenas aquilo que sua consciência reconhece. A sombra representa a parte esquecida dessa totalidade. Por isso Jung afirmava que “tornar-se consciente da sombra é o primeiro passo da individuação”.

Reconhecer em si mesmo aspectos negativos existentes na sombra é bastante desconfortável. São as características contraditórias, impulsos negados, sentimentos “inaceitáveis”, comportamentos repetitivos não compreendidos. Exemplos ilustrativos disso é a pessoa se dar conta de sua necessidade de admiração por alguma qualidade boa e da constatação da existência de agressividade frente à sua autopercepção de pacifismo. Tudo isso abala a autoimagem, mas amplia a consciência.

A observação das projeções é um dos caminhos importantes para encontrar a sombra. Isso porque enxergamos nos outros aquilo que não aceitamos em nós mesmos (arrogância e imoralidade alheia, intensa fascinação por certas pessoas, etc.). Para descobrir e confirmar conteúdos sombrios projetados a pergunta junguiana seria: “o que há em mim que torna essa pessoa tão emocionalmente importante?”.

Sem a integração da sombra, a individuação fica bloqueada. Manifestam-se conteúdos inconscientes através de sintomas neuróticos, explosões emocionais, comportamentos compulsivos, relações conflituosas, autoenganos, etc.

Nas palavras de Jung, “aquilo que não chega à consciência retorna como destino”. Isto é, o que não é reconhecido internamente tende a aparecer externamente sob a forma de conflitos.

Para a integração da sombra há que reconhecer, compreender e assumir responsabilidade. Não é necessário expressar todos os impulsos. Para admitir sua agressividade a pessoa não precisa ser agressiva.  Na verdade, quem tem consciência de sua agressividade a controla melhor do que quem acredita não ser agressiva.

Quando a sombra é gradativamente integrada, ocorre uma ampliação da personalidade, sobrando energia para criatividade, melhores relacionamentos, autoconhecimento e desenvolvimento psicológico. Menos defensividade e mais realismo do Self. Para Jung essa é uma experiência ética e psicológica profunda. Disse ele: “Ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a escuridão”.

Para Jung, a individuação não requer a eliminação da sombra, mas sim o estabelecimento de uma relação consciente com ela. Quanto mais a pessoa reconhece e integra seus aspectos negados, mais se aproxima do Self, que representa a totalidade da psique e o verdadeiro horizonte do processo de individuação.

Resumidamente, a integração da sombra faz com que a identidade deixe de ser baseada na Persona, tornando-se mais ampla; reduz as projeções e traz um maior autoconhecimento; substitui a autoimagem idealizada por uma realista; diz adeus à fragmentação rumo a uma personalidade direcionada para a totalidade.

O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

A palavra individuação deriva do latim indivicuus, que significa indivisível. O significado junguiano de individuação nada mais é do que o processo que ajuda a pessoa a conquistar uma relação consciente com a própria natureza psíquica, a se tornar aquilo que o indivíduo é, potencialmente. Esse conceito é o núcleo da psicologia de Jung. Para ele, o objetivo mais profundo do desenvolvimento psicológico não é a adaptação social, nem a felicidade permanente, nem a perfeição moral, mas tornar-se aquilo que se é, em sua singularidade mais autêntica.

O ser humano nasce sem uma identidade psicológica plena. O início é de total dependência dos pais. Com o tempo, vai absorvendo valores familiares e sociais e termina construindo uma persona para se adaptar ao mundo. Até aí, predominam os modelos externos. Mas quem somos nós, além das expectativas dos outros? E é nesse ponto que entra em cena o processo de individuação.

Assim, o processo de individuação tem várias etapas que, resumidamente, são:

  • Diferenciação da persona (quando o indivíduo percebe que seus papéis sociais não esgotam sua identidade)
  • Confronto com a sombra (quando o indivíduo passa a reconhecer aspectos rejeitados de si mesmo)
  • Encontro com conteúdos mais profundos do inconsciente (quando o indivíduo começa a reorganizar sua personalidade, observando inúmeros arquétipos ligados à sua psique, destacando-se figuras maternas e paternas, heróis, anima e animus, mitologia, religião, etc.)
  • Aproximação do Self (ego), que representa a totalidade da psique junguiana (consciente, inconsciente e potencialidades existentes)

Também é importante destacar o papel do Self nesse processo. O ego é o centro da consciência. O Self é o centro da personalidade inteira. Na infância, o ego acredita ser o centro de tudo. Com a individuação, vai aprendendo que existe uma realidade psíquica mais ampla do que sua vontade consciente. Daí Jung descrever a individuação como um deslocamento do Ego para o Self. E esse processo é pautado por análise psicológica, reflexão pessoal, sonhos, arte, espiritualidade, crises existenciais e envelhecimento.

A identificação excessiva com a persona, a negação da sombra, o narcisismo, o conformismo, o medo da mudança são fatores inibidores da individuação.

Jung observou que a individuação ganha enorme importância na meia idade, quando novas indagações surgem de forma imperativa (sentido da vida, espiritualidade, integração no mundo). É o que o autor junguiano James Hollis descreve em seu livro “A passagem do meio”.

A individuação promove maior integração da personalidade, redução das projeções, maior liberdade psicológica, relações mais autênticas e maduras, ampliação da consciência e maior sentido existencial com expressão da vocação interior e não apenas a adaptação social.

O processo de individuação requer que a persona seja apenas um instrumento de adaptação e não fonte de identidade, seja flexível e não rígida, seja consciente de seus limites e não confundida com o próprio eu, favoreça as relações sociais sem bloquear o autoconhecimento. Quanto maior a identificação com a persona, menor a possibilidade de encontro com os conteúdos mais profundos da psique. A individuação exige precisamente o contrário: perceber que somos mais amplos do que qualquer máscara social que possamos vestir.

Sintetizando, a individuação é o processo pelo qual o ser humano deixa de viver apenas segundo máscaras, expectativas e identificações parciais, e passa a integrar conscientemente os diversos aspectos de sua psique em direção à realização de sua singularidade mais profunda. Para Jung, é um caminho que acompanha toda a vida. O desenvolvimento psíquico saudável não consiste em tornar-se perfeito, e sim tornar-se mais inteiro.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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