A virtude está no caminho do meio. Na repetição ordinária da sabedoria budista, o caminho é esquecido e fica-se só com uma vaga ideia de que o meio entre extremos é sempre bom. Gervásio é homem desse tipo de sabedoria. Filósofo de Tik Tok. Comentarista político de Instagram. Comentador contumaz em sites de notícias. Juiz de comportamento moral de gente desconhecida e histórias mal contadas. Seu currículo é extenso.

Não perde uma oportunidade de desqualificar mulheres. Mas também não deixa passar sem algum texto odioso quando uma mulher é morta por marido, namorado ou homem com qualquer outro tipo de vínculo que lhe permita, no íntimo de suas perversidades, ignorâncias e impotências, sentir-se dono de uma mulher. Entre a misoginia e a violência contra a mulher, Gervásio está no centro, onde se pode ser um pouco misógino e um pouco violento sem se sentir misógino nem violento.

É um patriota. Veste a camisa da seleção e torce aos palavrões. Também gosta dos Estados Unidos. Enrola-se na bandeira americana com a mesma paixão com que torce pelo menino Neymar em campo. Acha que lá tudo funciona e que aqui tudo é disfuncional. Acredita que os filmes e séries gringas que vê são a realidade de lá.

No fundo, queria ser de lá. Queria viver as maravilhas do sonho dos filmes americanos e não o pesadelo das notícias sensacionalistas de seu país. Gervásio é um patriota de centro. Pronto a aplaudir qualquer intervenção gringa em sua terra por amor à sua terra. No seu centro, pode ser patriota da terra que não lhe quer e entreguista da terra que diz amar.

Há quem viva com olhos voltados para o futuro. Outros, caminham na vida com a cabeça voltada para o passado. Mas Gervásio é de centro e nesse lugar o presente é uma curiosa mistura de passado e futuro. Para ele, antigamente era tudo melhor. Tempo bom era aquele em que os milicos mandavam. Matavam só gente que merecia. Torturas, não sabe se aconteceram, “quem disse? Algum comunista?”.

Acha que nada ruim do presente é consequência do passado que acha glorioso. Na sua cabeça de centro, o passado não se liga ao presente, mas o presente se liga ao futuro. “Se continuar assim, olha o que vai acontecer!”. E acha o futuro tenebroso sempre que ele não é parecido com o passado.

Mas Gervásio é um homem de valores e amores. Ama a liberdade e tem certeza de que nada vale mais do que a liberdade, exceto o dinheiro. Liberdade é consequência do dinheiro, por isso, quem tem dinheiro pode poder. Quem não tem, não pode, não merece, não vale. É em nome dessa liberdade que se diz liberal. Liberdade para ganhar dinheiro e poder ser livre de coisas antiliberais como as leis, moral e qualquer forma de respeito.

Crê que ser livre é poder se impor sobre os outros. E tem raiva dessa gente que quer tirar sua liberdade de poder se impor sobre a empregada, o entregador de comida, o porteiro, a menina bonita que ele assedia e toda essa gente que não merece liberdade porque não tem dinheiro. Achando-se radical na defesa das suas liberdades, Gervásio não percebe que sua opinião está no centro entre a tirania e a anarquia, onde se pode ser tirano dos outros e anarquista dos próprios desejos.

O Centro de Gervásio é vazio de caminho, sabedoria e humanidade e por isso, nele cabe toda perversidade de uma vida vazia.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli
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