Nem de longe a China repetiu ou repete a política de exploração colonial europeia, de ontem ou de hoje.


Parêntesis inicial. Num dos trechos do agora clássico Danúbio, Claudio Magris escreve: “Certamente Roma era também e sobretudo domínio, e a universalidade por ela representada era uma máscara do domínio e como tal destinada a desaparecer, apesar das pretensões de eternidade… Os desprezados bárbaros tornaram-se os artífices da nova Europa; mais tarde os eslavos, considerados por séculos um obscuro povo da gleba e sem história, sentiam que tinha chegado a sua hora; os chineses que transportaram os brancos no rockshaw são hoje o que são” – suspeito que a referência aos chineses seja um acréscimo posterior à edição original do livro, que é de 1986 (foi lançado no Brasil em 2008), mas pode ser também um vislumbre genial do que estava por acontecer. Seja como for, não deixa de iluminar o cenário atual.

No iniciozinho do século XV, havia na costa oriental da África, banhada pelo oceano Índico, uma importante cidade-Estado chamada Malindi (ver artigo anterior). A uns mil quilômetros de distância, muito além do lago Vitória, bordeando o Atlântico no outro lado do continente, ficava o que era, então, o Reino do Congo. À época da tomada de Ceuta pelos portugueses e da chegada dos chineses a Malindi, constituíam mundos distanciados e significativamente diferentes um do outro. Nos séculos seguintes, o colonialismo tratará de torná-los próximos, ambos parte do universo das terras colonizadas, sangradas até quase a última gota pelos centros econômicos europeus e, logo, transatlântico.

Entre a visita da frota do almirante Zhang He e a chegada do navegador Vasco da Gama (1498), a partir da qual se fez aliada dos portugueses, passaram-se quase cem anos. Um século mais tarde, a até então próspera cidade inicia um longo processo de decadência, ao fim do qual foi quase que totalmente abandonada – até ser novamente revitalizada pelo sultão de Zanzibar, já em meados do século XIX.

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Na metade dos anos 1970, Portugal foi expulso das colônias que durante eras havia conservado na África. Os movimentos que lutavam pela independência (contavam com a simpatia e algum apoio da China de Mao Zedong) de Angola, na costa do Atlântico, e de Moçambique, na do Índico, após um conflito que devastou os já dilapidados territórios africanos, conseguiram enfim vencer e expulsar as forças do antigo império colonial – que para trás não deixou grandes obras (nem pequenas), nem nostalgia, nem boas recordações.

Menos de duas décadas depois, os chineses (agora da era Deng Xiaoping) voltaram à África – seiscentos anos haviam se passado desde as viagens da frota estelar do imperador Yongle através do Índico. O ainda incipiente, mas planejado modelo de crescimento do país asiático impôs um brutal aumento da demanda por riquezas minerais, de petróleo, antes que qualquer outra. Em 1993, a China “pela primeira vez importava mais petróleo que exportava”, afirma David van Reybrouck (Congo – Uma história épica). Daí que os primeiros contatos foram com os principais países petroleiros da época (Nigéria, Angola e Sudão). Logo, essas relações vão se estender e se aprofundar. A explosão da economia neocomunista (chame como quiser) exige enormes quantidades de tudo quanto é mineral que exista no subsolo, esteja onde estiver, no planalto central do Brasil (nióbio, fosfato, terras raras…), ou na África subsaariana – e a República Democrática do Congo era (e continua sendo), como escreve Reybrouck, um autêntico “escândalo geológico”.

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Não que os chineses que se estabeleceram no Congo a partir do início do século XXI repetissem a mesma generosidade daqueles seus contemporâneos do século XV. São provavelmente mais pragmáticos. Mas nem de longe repetiram ou repetem a política de exploração colonial europeia – de antes ou de agora.

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Resta, portanto, saber como lidaram (e lidam) com a corrupção endêmica implantada por Mobutu a partir dos anos 1970 e seus sucessores em parceria com os belgas, franceses, e outros. A fórmula chinesa se desdobra em medidas aparentemente simples – e eficazes. Antes de qualquer outra providência, segundo Reybrouck, “Pequim cumpria estritamente sua política de não ingerência em assuntos internos”. Por outro lado, “a nova China era racional, eficiente e pragmática… não tinha nenhum problema em comerciar com tipos sinistros como Mobutu e Al-Bashir”, desde que seguissem o seu modelo para os novos contratos.

A partir daí, começaram a investir e a trabalhar. E é aí que se torna claro que, pelo menos no que diz respeito aos chineses, não interessavam mais as barganhas que deixavam a infindável cadeia de políticos corruptos bilionários, esvaído o país e o populacho na mesma miséria reproduzida pelo colonialismo ao longo de séculos.

Em 2007, o governo congolês aceitou firmar um primeiro grande acordo com a China, no qual os asiáticos fundariam “uma empresa conjunta com três empresas estatais chinesas (um banco, uma construtora de estradas e uma empresa de construção civil em geral)”.

Mas, em troca da extração de dez milhões de toneladas de cobre e seiscentas mil de cobalto, a empresa (controlada pelos chineses com 78% do capital) “investiria três bilhões de dólares na reestruturação da infraestrutura de mineração e seis bilhões de dólares na construção de estradas (seis mil km), estradas de ferro (três mil e duzentos km), casas (cinco mil), policlínicas (145), hospitais (31), centrais hidráulicas (duas), aeroportos (dois) e universidades (duas)”. Dinheiro por obras físicas, gerenciadas e entregues pelos credores, tintim por tintim.  Eram, ao mesmo tempo, incalculavelmente mais obras de infraestrutura construídas que em toda a história do Congo Belga desde o velho imperador Leopoldo – e seus sucessores.

Na avaliação de Reybrouck, o contrato assinado (“de apenas sete páginas – menos que um contrato de aluguel”) era, de fato, absolutamente impactante, além de inédito. Constituía “uma forma prática de evitar a corrupção… já que não é fácil botar um hospital no bolso”.

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Parece não haver dúvidas de que há mais de uma maneira de demonstrar e exercer o poder, mesmo para impérios e imperadores. Escolhas podem ser feitas. Há, na realidade, modos muitas vezes opostos de buscar e manter a hegemonia – e disputar parcerias e mercados. Dizer isso pode soar como uma mera platitude e, no entanto, deixar de fazê-lo é jogar nas trevas as nuanças da própria história, as diferenças entre culturas por vezes milenares.

P.S. 1: Ao contrário do Brasil, onde corrupto de grande porte merece cela especial na sede da Polícia Federal em Brasília, as penas para a corrupção na China são severas. Para os casos menos graves, prisão de apenas alguns anos, multas e perdas dos bens. Para os graves, as penas variam de dez anos a perpétua, com confisco de patrimônio. E para os casos excepcionalmente graves, até a pena de morte (se o condenado demonstrar bom comportamento, tal pena pode ser comutada para perpétua sem possibilidade de liberdade condicional).
P.S. 2: As sentenças são cumpridas à risca. A partir de 2012, milhares de funcionários e dirigentes foram investigados e condenados, incluindo membros de alto escalão do Partido Comunista e executivos de empresas estatais.
P.S. 3: Agora, imagina se a moda pega por aqui…

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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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