Adivinhe quem era o único cineasta convidado e presente ao casamento veneziano de Jeff Bezos.

O Danúbio de Claudio Magris é um fluxo ininterrupto de memória, ao mesmo tempo que um esforço para penetrar o sentido único de cada coisa, de cada evento ou personagem e encontrar os nexos e tudo quanto os universaliza. É como uma dança contínua de movimentos que querem “transcender as individualidades particulares” e abarcar o geral, a humanidade. A viagem de Magris pela civilização que nasce (e desaparece) no correr do rio parece propor um tensionamento fluido, líquido, entre universal e o singular – aquele que teima em não se repetir. O rio, escreve, “não tem nenhuma totalidade”, mas é, também, “um velho mestre taoísta, que ao longo de suas margens dá aulas sobre a grande roda e sobre os interstícios entre seus raios… Indiferente aos órfãos nas suas margens, o Danúbio corre para o mar, para a grande persuasão”.
São incontáveis os pontos de paragem do viajante. Longas ou breves estadias, elas vão estabelecendo pistas dos possíveis (e variados) nexos com os outros elos que compõem o trajeto (a paisagem danubiana).
Numa dessas paradas, o observador se encontra em Gunzburg. Nesta “cidadezinha que foi chamada pequena Viena durante o período habsburguiano, os cidadãos homenagearam, em 28 de abril de 1770, Maria Antonieta, que se dirigia, com seu cortejo nupcial de 370 cavalos e 57 carruagens, ao matrimônio com Luís XVI e, mais além, ao seu encontro com a guilhotina”. Mas a pequena Gunzburg foi apenas uma das dezenas de cidades pelas quais passou o cortejo e a razão pela qual Magris a inclui em seus comentários é outra. Ali “nasceu Josef Mengele, o médico algoz de Auschwitz, talvez o mais atroz assassino dos Lager”, e é onde, em um convento, também “ficou escondido até 1949”.
Mengele nunca foi capturado e teria morrido (de infarto ou derrame cerebral) enquanto nadava na praia da Enseada em Bertioga, litoral paulista, em fevereiro de 1979.
Seja como for, aqui nos separamos da viagem de Magris para, invertendo a direção do olhar, nos fixarmos nas bodas da então púbere (tinha 14 anos de idade) arquiduquesa austríaca. Todos os números são majestosos, dignos da dinastia dos Bourbon, à qual estava prestes a se incorporar – o extravagante palácio de Versalhes é a obra magna da dinastia.
#
Em 21 de abril de 1770, o cortejo nupcial deixou Viena para uma viagem que durou quase um mês e percorreu aproximadamente 1.500 quilômetros. Além dos 470 cavalos e das 57 carruagens a que se refere Magris, transportando uma comitiva de quase 300 pessoas, é fácil imaginar a logística exigida para um tamanho e tão importante deslocamento. Basta pensar que aqui se trata das estradas e dos meios de locomoção de finais do século XVIII. Cada parada para descanso e alimentação por sua vez exigia uma verdadeira operação de guerra: locais para os animais, hospedarias de todos os tipos para os nobres e seus serviçais, pátios para as carruagens e sua manutenção, depósitos para as pesadas bagagens, compra e armazenamento de toneladas de alimentos, dezenas de “cozinhas e cozinheiros trabalhando simultaneamente”, soldados para a segurança.
Nas circunstâncias da época, os cavalos eram quase tão importantes quanto os humanos. Para tão longo trajeto, exigia-se obviamente que fossem trocados constantemente. Em cada parada alguns animais eram substituídos, assim como arreios. A comprida procissão se estendia por mais de 500 metros, “às vezes aproximando-se de um quilômetro, dependendo da distância entre os veículos e os animais”.
Segundo os relatos históricos, Maria Antonieta mantinha-se alheia a toda a logística exigida (quase nunca a via). Enquanto era recebida com cerimônias, música e banquetes, “dezenas de intendentes já estavam organizando a partida do dia seguinte: conferindo as carruagens, distribuindo a bagagem, trocando cavalos e definindo a ordem exata do cortejo” antes da partida para a nova jornada.
No dia 7 de maio, ocorreu a chamada cerimônia de entrega (remise de l’épouse, em francês, Brautübergabe, em alemão) na fronteira dos dois países – numa ilhota do Reno, entre Kehl e Estrasburgo – e Maria Antonieta teve de deixar para trás “o que simbolizava sua origem”: suas damas de companhia, seus criados, suas roupas, suas joias pessoais – e também o seu cachorro (à época só a nobreza possuía animaizinhos de estimação – os cães dos que viviam do próprio trabalho tinham sempre uma função prática e uma utilidade para a vida dos seres humanos). Ali o cortejo se tornou ainda mais grandioso para finalmente culminar na cerimônia realizada em Versalhes em 16 de maio de 1770.
#
Dois séculos e meio após o casamento do futuro rei de França, uma cerimônia nupcial pelo menos tão magnífica quanto a dele deixou também uma marca na história. Em 27 de junho de 2025, em Veneza, a cidade da desafortunada Desdêmona (e do diabólico Iago), uma recepção para somente e exclusivíssimos 200 convidados celebrou durante três dias as bodas entre o bilionário Jeff Bezos e sua amada Lauren Sánchez. Ao contrário do casamento de Maria Antonieta e Luís XVI, que aparentemente só teria se consumado sete anos depois daquele badalado 16 de maio de 1770, o de Sánchez e Bezos já teria se consumado bem antes da festa em Veneza. Sinais dos tempos, é claro.
Mas há pelo menos outra significativa diferença que precisa ser lembrada.
O casamento entre o dono da Amazon e Lauren Sánchez era um ato privado, cuja exposição pública foi intencionadamente criada pelos próprios nubentes. O outro, como deve ser destacado, foi um casamento de Estado. Há também funerais de Estado – diferentes quanto ao objeto, mas não quanto à forma ou magnitude. As dimensões do funeral de Estado que celebrou as despedidas de Josef Stalin foram imensamente superiores aos do casamento de Luís XVI. Eram muito maiores os números envolvidos, tanto quanto a pompa (assista a State Funeral, o documentário de Serguei Loznitsa, e compare).
A fortuna do francês, ao contrário da de Bezos, não era uma fortuna pessoal estrito senso. Um patrimônio que, a rigor, era da Coroa e uma riqueza que vinha do Estado permitiam, no entanto, um desfrute idêntico aos dos bilionários do vale do silício e outros pertencentes à mesma espécie. Daí que é melhor ninguém se escandalizar com as pretensões não declaradas, mas claramente visíveis da cerimônia em Veneza.
Os bilionários do século XXI, Bezos et cia., são e querem ser uma nova aristocracia da qual estão apartados, e dessa vez muito provavelmente para todo o sempre, daqui até a eternidade, de todos os que vivem do próprio trabalho. É este um dos sentidos das bodas venezianas de Bezos e Sánchez. Uma autêntica declaração de intenções. Eles, no entanto, à diferença da aristocracia francesa do século XVIII, não precisam temer o futuro que esperava Luís XVI e sua Maria Antonieta.
Nem o mais otimista dos mortais espera que o populacho volte a se levantar, pondo abaixo a Bastilha, ou que a guilhotina volte a operar.
P.S. 1: Certamente, a primeira mais que a segunda, mas ambas são cerimônias dignas de qualquer cinematografia grandiloquente e espetacular – imagine, por exemplo, que esplêndida fotografia daria uma tomada aérea daquela extensa fileira de carruagens movendo-se lentamente pelas estradas empoeiradas da primavera europeia! Imagine, agora, que no comando daquela tomada aérea, tão minuciosamente planejada quanto a festa da realeza francesa, esteja o cineasta das multidões (e das cifras resplandecentes) Steven Spielberg.
P.S. 2: Agora adivinhe quem era o único cineasta convidado e presente ao casamento veneziano de Jeff Bezos.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
Clique aqui para ler artigos do autor.






