Amélia não faz nada antes de tomar um café. Tem que ser forte e sem açúcar. Toma devagar. Pensando em nada. Ou no Nada. Sem café, seus pensamentos são dispersos, incompletos, imperfeitos. Sem café, seus sentimentos flutuam. Sem café, Amélia não é de todo Amélia.

Optou por um expresso. Intensidade 12, estava escrito na caixa de design que procurava justificar o preço. Excitou-se com o aroma quente lhe subindo à mente. Trouxe a xícara à boca. Deu o primeiro gole titubeante. Investigativo da temperatura e sabor. Desceu como elixir de vitalidade. Aprovou. Levava a xícara à boca para o segundo gole quando foi interrompida.

“Você não acha?”, perguntou Pedro, de supetão. Conversava com Fagundes, da Contabilidade, sobre política. Amélia estava alheia à conversa, aos dois, à política, ao mundo. “Acho o quê?”, respondeu incomodada. “Não acha que esse negócio de Bolsa Família deixa as pessoas preguiçosas?”.

Amélia colocou a xícara na mesa. Tinha preguiça de responder àquilo. Também tinha preguiça de trabalhar, de estar ali, de conviver com aquela gente e, sobretudo, preguiça de conversar com gente que não gosta de gente. Ou que só gosta de gente que pensa do jeito que ele pensa que pensa. Tentou responder para se livrar logo dele.

A conversa demorou. O café esfriou. Para Amélia, café frio é tão ruim como aquela conversa. Já passou por um desgosto, não quer outro na sequência. Jogou fora e colocou-se a preparar outro. Novo começo de dia. Nova fumaça cafeinada. Nova esperança de um bom começo.

Deu um novo primeiro gole. Não foi como o primeiro primeiro gole. Estava mais cansada. Aporrinhada. Esvaziada de café. Não passou do primeiro. Nova interrupção. “Criança tem que trabalhar. Sempre foi assim. No trabalho, aprende também, né Amélia?”. Pousou o café na mesa para mais uma contenda inútil.

Seu colega percebeu. Roberval, do RH. Foi ao seu socorro se metendo na discussão. Os argumentos de Pedro pareciam café aguado. Não têm cara de café, só um leve gosto. Parece café, mas não é. É água suja como os argumentos de Pedro. Amélia não suporta café aguado. Nem café fraco. Ela gosta de café com gosto de café. De inteligência com gosto de inteligência. E de vida com gosto de vida. Naquele momento não tinha o gosto de nenhum dos três, só desgostos.

O novo café também esfriou. Suspirou fundo e procurou por outra cápsula de café. Estavam acabando. Havia gente demais para café de menos naquela empresa. Falatório demais para pensamento de menos. Moralismo demais para moral de menos.

Fez o terceiro. Apressada, temendo nova interrupção. Estava decidida a só abrir a boca depois de tomar toda a xícara. Contemplou a xícara fumegante em suas mãos. Nada a impediria dessa vez. Alienou-se da insistência de Pedro por uma resposta a uma pergunta que ela nem sabia qual era.

Sem resposta, Pedro a cutucou forte no braço. “Ei!”. Era o braço que sustentava a xícara. Metade do café foi para o chão. Outra metade escorria pela mão de Amélia. Um funcionário novo, alheio ao drama de Amélia, pegou a última cápsula de café.

Amélia olhou para Pedro com o olhar vazio dos psicopatas. Pensava em crimes inconfessáveis. Mais uma vez, Roberval percebeu. “Calma…”, disse mais por solidariedade que por esperança de acalmá-la.

“Como é que você aguenta?”, perguntou Amélia. “Café. Três xícaras com conhaque antes de sair de casa. Mais algumas depois que chego aqui”. “Acabou o café…”, disse Amélia. “Eu trouxe o conhaque. Quer?”.

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Ilustração: Mihai Cauli
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