
A ideia de massacre
“A ideia de massacre (vem), antes de tudo, de uma operação do espírito: uma maneira de ver ‘o outro’, de estigmatizá-lo, de rebaixá-lo e anulá-lo, antes mesmo de matá-lo, de fato”, escreve Jacques Sémelin em Purificar e destruir – Usos políticos dos massacres e dos genocídios.
Jerusalém
Um dos grandes feitos da Primeira Cruzada (1096-1099) foi a chacina dos judeus e muçulmanos que viviam em Jerusalém. Após um cerco que durou pouco mais de um mês, na manhã de 15 de julho de 1099, uma sexta-feira, os cruzados finalmente conseguiram romper as muralhas que protegiam a cidade para tomá-la. A dimensão do que aconteceu em seguida é alvo de polêmica. Embora talvez seja impossível precisar o número de vítimas envolvidas na carnificina que se seguiu, o que se sabe é que “toda a população muçulmana e judaica da cidade foi aniquilada”, conta o historiador Steven Runciman (A Primeira Cruzada e a fundação do Reino de Jerusalém). No que todos parecem estar de acordo, até mesmo alguns dos cronistas cristãos que seguiam com os cruzados, é que foi um verdadeiro massacre, “uma matança em grande escala”.
Antecedendo o ataque final contra Jerusalém, porém, os comandantes e líderes religiosos da peregrinação ordenaram que todos “deveriam jejuar e se penitenciar”. E uma semana antes da tomada da cidade e da carnificina que veio em sequência “clérigos, cavaleiros e soldados caminharam descalços numa procissão ao redor das muralhas, dirigindo-se ao Monte das Oliveiras, onde ouviram sermões”.
Só então atacaram.
Ao massacre seguiu-se o saque, pois aqueles quase vinte mil peregrinos não vieram de tão longe apenas para consagrar a Cruz. Algum lucro haveria que se auferir. Com a evidência de que peregrinação poderia ser um ótimo negócio para os cruzados, foram se profissionalizando, por assim dizer, enquanto se preparavam para as próximas viagens. Umas duas décadas depois daquele julho de 1099, por volta de 1119, um grupo de cavaleiros fundou a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou Ordem dos Cavaleiros Templários.
De pobres não tinham nada – e rapidamente se fizeram imensamente ricos e poderosos, tornando-se conhecidos “por sua disciplina, riqueza e influência”. Mas, ao se fazerem credores até do próprio rei, começaram a ser perseguidos (sim, os reis podiam eventualmente matar seus credores ao invés de pagar as dívidas – agora, imagine se a moda volta?) até verem ordenada sua dissolução, dois séculos após seu aparecimento.
Criados com o pretexto de proteger os peregrinos até a Terra Santa, os Templários logo se transformaram numa organização militar profissional, uma espécie de tropa de elite a serviço da peregrinação e da ideologia Cruzada.
Corpos de elite
Mil anos depois e novas Cruzadas iluminam o horizonte do hipercapitalismo (chame como quiser). O primeiro a servir-se do termo foi G. Busch, o Filho. E ele se referia ao ataque contra as forças do mal, mais uma vez representado pelos muçulmanos – mas não aos judeus de Jerusalém, que agora o apoiavam e estimulavam. Aqui e ali novas Cruzadas vão se tornando frequente. É preciso livrar a Terra Santa da presença dos infiéis.
Mas há pequenas nuanças tanto para o que é a Terra Santa, quanto para quem são os infiéis. O que não varia nunca é o sentido. A terra é imaculada sempre e quando é a nossa terra – e o uso do possessivo é o que deve ser destacado. Nesse caso, o cruzado é aquele que expulsa para longe, para além de uma mais ou menos fictícia fronteira, o outro, o infiel, aquele que não partilha a mesma fé, as mesmas crenças e os mesmos valores que eu e os meus. Esse outro que, para que nós possamos existir precisa ser convertido ou neutralizado, preferencialmente neutralizado – riscado do mapa.
A versão mais radicalizada dos novos cruzados poderia ser encontrada no braço paramilitar do nazismo, as tropas SA ou camisas-pardas (como eram popularmente conhecidas). Foram formadas para proteger as reuniões do partido, mas, sobretudo, para intimidar e agredir os adversários. Sua brutalidade extrema e uma ambição desmedida fez com que a própria cúpula do hitlerismo ordenasse sua eliminação. Mas também pode ser vista nos assassinos profissionais a serviço das FFAA do Império, os SEALs – treinados para matar no estrangeiro e à margem da lei se for preciso e com um nível de especialização que coloca no bolso o mais qualificado dos neurocirurgiões.
São, por definição, resultado de uma seleção extremamente rigorosa – soldados que passam por um “treinamento prolongado, elevada capacidade física, psicológica (seja o que for que isso signifique), especialização técnica e disciplina”. Uma referência bem antiga poderia ser encontrada na Guarda Pretoriana romana.
Legendários
São membros da mesma família os cada vez mais na moda Legendários – cujo participante mais conhecido é o empresário de “cursos, mentorias e conteúdos de desenvolvimento pessoal e empreendedorismo pela internet”, o goiano Pablo Marçal. Uma espécie de tropa de elite da ultradireita na guerra cultural e (cada vez mais) política contra o que se poderia chamar de humanismo, ou do que resta de humanismo no admirável mundo próspero.
Participar do mais conhecido evento da turma, o TOP – ou Track Outdoor de Potencial, assim mesmo, nessa mistura de inglês com português – não é para qualquer um. Primeiro é preciso arcar com o pagamento de pouco mais de um salário mínimo (entre R$ 1.690,00 e R$ 1.790,00) para um evento com duração de três dias. As descrições disponíveis na Internet caracterizam o feito como uma combinação de “atividades que demandam esforço físico, desafios emocionais (?) e práticas religiosas cristãs” – se acaso se lembrarem das Cruzadas talvez não estejam tão distantes da realidade. Conta-se também que “há caminhadas e trilhas exigentes, subidas, atividades em equipe, momentos de silêncio e reflexão, pregações, orações e dinâmicas destinadas a provocar forte envolvimento emocional”.
Mas há atividades mais amenas – que ninguém é de ferro – e, pelo que me contou uma insuspeita amiga, eles se encontram também em casas de condomínios de luxo, ocasiões nas quais as mulheres e, é claro, a própria esposa do dono da propriedade, estão terminantemente excluídas.
Não é a toa que as mesmas descrições se referem a uma “acentuada concepção de masculinidade: disciplina, resistência física, liderança…”. Na realidade, ser parte dos Legendários está permitido apenas para os comprovadamente machos da espécie. Meninas não entram – bem consideradas as coisas, talvez devessem agradecer aos céus. Seja como for, considerado o panorama atual do mundo da mercadoria, logo tratarão de arrumar um modelo qualquer para a participação desses seres subordinados e inferiores da espécie, que são as fêmeas.
PS: Na noite de quinta para sexta-feira, recebi pelo WhatsApp essa mensagem enviada por uma querida amiga. “Halley, vi uma cena triste no centro do Rio. Um garoto com uma bandeja vendendo balas, no meio dos carros, debaixo de muita chuva, com a camiseta rasgada e descalço. Pendurado na bandeja, um pedado de papel tipo A4, escrito ‘Fora Lula ladrão’. Acho que nunca mais vou esquecer essa cena”.
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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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