
Subiu ao palanque esperando aplausos. Poucas palmas estalaram no salão. Algumas, de gente sua cujos fazeres incluíam aplausos, outras, de gente constrangida pela situação que buscava, pelo bom caráter de suas almas, amenizar a frieza com que o ilustre candidato era recebido.
Não havia por ele nem antipatias, nem simpatias. Era um indiferente. Momento chato do evento em que um candidato separa com palavrório o tempo presente do futuro esperado. Tomou o microfone e ficou alguns instantes em silêncio. Seu olhar era determinado. Mas não se podia saber se aquele silêncio que já durava o tempo de uma hesitação era sinal de medo, coragem ou mera resignação. Pigarreou, como a que preparar a garganta e anunciar que seu espírito já estava pronto.
“Boa noite!”, cumprimentou com voz firme e deu uma longa pausa à espera de cumprimentos em resposta que não vieram. Podia-se ouvir no silêncio daquela pausa os sons sutis de respirações, cochichos e lamentosas expiações.
Repetiu o cumprimento e recebeu resposta de dois ou três dos presentes em “boa noite”, mais murmurando do que dito. Respirou fundo e emendou: “vocês não sabem porque eu estou aqui…”.
A frase era inesperada e ensejou o espanto e curiosidade que dela se esperava. Estavam prontos para ouvi-lo, mas insistiu. “Vocês sequer imaginam quem sou e porque estou aqui.”
“Eu não quero o voto de vocês. Não quero nada de vocês. Acho que não quero nem mesmo que me escutem neste instante”. A surpresa do público fazia um ou outro segurar em sua boca pedidos de “fala! O que você quer? Quem é você?”.
“Vocês são pessoas que falam de moral, do certo e do errado, do justo e do injusto. Julgam as vidas uns dos outros. Julgam desconhecidos. Julgam conhecimentos e saberes que não têm. Vocês todos são hipócritas ignorantes”. O público se dividia entre o atônito que meditava se devia ou não uma resposta àquilo e o que sorria para tentar, na alegre tranquilidade aparentada, fingir que a coisa não era com ele.
“Vocês vivem de cumprimentos, abraços e palavras de afeto trocadas uns com os outros. Chama a um desconhecido de querido, irmão, amigo, desde que ele tenha dinheiro ou alguma vantagem para lhes dar. Vocês não gostam de gente. Duvido até mesmo que gostem de vocês mesmos. Vocês se odeiam e entre si e a si mesmos. Gostam só de dinheiro, poder e prazeres comprados. Gostam de suas vidas vazias de vida. Gostam de suas mediocridades e por isso eu os desprezo profundamente.”
O público ouvia num silêncio acuado, mais constrangedor que o silêncio de indiferença com que receberam aquele estranho. “Veja quem vocês elegem! Quem vocês veneram. Defendem como se fosse um parente amado políticos que dizem a seus ouvidos medíocres mentiras que apenas nos espíritos mais estúpidos poderiam ser recebidas como verdades. E na mesma medida com que declaram amor por assassinos, corruptos, ladrões, falsos profetas e picaretas de toda espécie, expulsam seus filhos, a quem deveriam amar e cuidar, porque eles não pensam como vocês. Ou porque não querem viver como vocês”.
“Vocês amam apenas as imagens distorcidas que essa gente hipócrita lhes dá e vocês a admiram porque mesmo o mais obtuso de vocês, na pouca inteligência que lhe habita, sabe que não suportaria a verdade de sua própria imagem. Não suportaria a podridão de sentimentos e ideias que tentam disfarçar falando uma ou outra palavra repleta de sentidos nobres, mas vazias de significado quando ditas por essas suas bocas imundas de maldades”.
“Pois eu não quero o voto de vocês porque já estou eleito. Vocês já me elegeram há muitos séculos. E em poucos momentos deste oceano de tempo em que me veneram estive tão em alta em seus espíritos”.
“Eu sou Mefistófeles. Mas vocês me dão outros nomes. Nas suas igrejas falam de mim, chamam por mim ao ponto de me doerem as orelhas. Mas eu não sou como vocês pensam. Chamam-me pai da mentira, mas isto é apenas vocês fazendo de mim a sua imagem e semelhança. Por isso, lhes digo estas verdades. Eu não os amo. Ao contrário, tenho por todos vocês o desprezo que se tem pelo que há de mais vil e repulsivo”.
Percebendo que chegara ao fim do discurso, o público explodiu em aplausos. Os rostos exibiam lágrimas de emoção. “Eleito, eleito!”, gritavam em uníssono.
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Ilustração: Mihai Cauli
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