
Não é que estejam sendo enganados. O que há é desejo mesmo. Por mais que seus próprios interesses possam ser contrariados ou, no mínimo, postergados, ainda assim parece ser essa a vontade manifesta de milhões de eleitores que irão às urnas daqui a alguns dias.
É evidente que não estou me referindo à minúscula minoria de privilegiados que sabe muito bem a quem os ungidos servirão e a quem se curvarão os bolsonaros, mas aos milhões que serão punidos pelas políticas que serão executadas pelo clã e seus agregados, com o apoio entusiasmado do novo e ainda mais envilecido Congresso (não é preciso mais uma pandemia para nos fazer lembrar da inércia proposital e obscurantista que condenou à morte milhares de brasileiros porque o governo Bolsonaro deixou de tomar as medidas racionais cabíveis, enquanto o presidente se movia como um animador de auditório contando piadas e rindo da desgraça alheia).
Faltando menos de um mês para a votação, a urgência ultrajante desses últimos momentos atropela qualquer promessa anterior (como a do artigo da semana passada sobre os opioides, as armas de fogo e a indústria do cigarro que deveria ter sequência no de hoje). Perdoem, portanto, pela promessa não cumprida. Mas há uma razão batendo à porta: a progressiva e rápida evolução do quadro eleitoral apontada pelas pesquisas informa que podemos estar prestes a ingressar num período ainda mais pavoroso do ponto de vista da democracia e das necessidades populares que aquele vivido entre 2018 e 2022.
O que pode acontecer daqui a apenas alguns dias seria, sem exagero, mais um passo atrás no processo civilizatório – não há nada de inédito, civilizações inteiras, prósperas e vigorosas já entraram em colapso e simplesmente se extinguiram. Nós, que nunca chegamos muito longe no que diz respeito ao que se possa considerar civilização, que nunca demos muita bola para que seus eventuais benefícios se estendessem o mais amplamente possível e nem nunca nos importamos de fato pelo rastro de iniquidades que deixamos pelo caminho, podemos estar em ponto de bala para nos igualarmos àqueles que implodiram o pouco que já haviam adquirido.
Há, é claro, muita gente que não vê assim – ou não se dá conta da dimensão da catástrofe que pode estar se avizinhando. Devido às circunstâncias e a esses tempos históricos, dentro e fora do Brasil, a onda que arrasta os indecisos (ou o centro, se você preferir) na direção do caos bolsonarista até soa natural. E ainda que não fosse, ou não seja, parece também inevitável.
Na imprensa, mesmo a não bolsonarista, alguns analistas destacam que na curva das pesquisas “a boca do jacaré está se fechando”, lembrando que a vantagem de Lula sobre Flávio caiu de oito pontos para nenhum em pouco mais de dois meses – a apenas alguns dias para o primeiro turno.
Não é pessimismo, muito menos alarmismo – é só o ruído estrepitoso da sirene que anuncia a iminência do desastre. É pavor mesmo. Será acaso difícil dimensionar (ou especular sobre) o tamanho do estrago que um segundo mandato da aliança formada sob a sombra do pequeno clã fará ao país?
Se daqui até o 4 de outubro não for possível convencer a uma parte importante dos indecisos e dos recalcitrantes, ou mesmo daqueles que não tendo nenhuma simpatia pelos ultradireitistas estão descontentes, com raiva, ou simplesmente cansados da figura de Lula, a catástrofe será inevitável e, ao que tudo indica, com consequências provavelmente inéditas.
Bom, poderão dizer: pelo menos estaremos seguindo a par e passo o que acontece também nas estrelas mais cintilantes do mundo próspero – como anunciam as trombetas, pela primeira vez desde 1945, um partido de ultradireita pode voltar ao comando da riquíssima Alemanha, prometendo, entre outras coisas, as de tristíssima memória “deportações em massa”. São, nada mais, nada menos que os rejuvenescidos admiradores do nazifascismo.
Como já proclamado pelo candidato do bolsonarismo, seu primeiro ato será tirar da prisão o condenado por tentativa de golpe de Estado e supressão da democracia – seu pai e ex-presidente da República Jair M. Bolsonaro. Será de mãos dadas e nos ombros dos fiéis que subirão a rampa do palácio para varrer os inimigos da democracia – prometeu o candidato.
Ato contínuo, o desmonte das pequenas, mas importantes conquistas da sociedade brasileira durante o governo Lula: o enterro de qualquer expectativa de redução da jornada de trabalho (com o fim da exala 6×1), fim do reajuste do salário mínimo com aumentos reais acima da inflação, volta do imposto de renda para os que ganham até cinco mil reais, e por aí vai. Vale lembrar que essas tão singelas medidas atendem e beneficiam a aproximadamente 120 milhões de brasileiros – os trabalhadores diretamente beneficiados e aqueles que vivem em seus domicílios.
Mas quem dera que fosse apenas isso.
Talvez fosse razoável levar a sério também o que a mais têm a dizer, o que prometem e desejam os principais comandantes desse exército de pregadores intransigentes – e seus pastores de igrejas imensamente lucrativas. Não se cansam de repetir que as decisões tomadas pela sociedade, através das instituições do Estado democrático de direito, não são democráticas. Que as próprias instituições da República não são democráticas, nem republicanas, nem merecedoras de respeito. Podem, devem e serão desconsideradas – porque lhes desagradam, porque contrariam seus interesses, porque papai foi preso, continua preso e se não ganharem nas urnas continuará preso.
Quem dera, no entanto, que fossem apenas seus capitães, seus pastores e seus ideólogos. Quem dera que não fosse também essa montanha de seguidores imunes a qualquer racionalidade, orgulhosos da própria estupidez e do próprio rancor. Eles carregam uma tremenda energia, a transbordante energia que se alimenta da frustração ao mesmo tempo que a alimenta. Até onde estão dispostos a chegar? A verdade é que parece não haver limite. São como os fenômenos amorfos, que se expandem até engolir a própria vida.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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