
Viu-se ao espelho de bigode eriçado. Há muito reparou que ficava assim em momentos de tensão. “Como pode?”, pensava. Fios de bigode não possuem músculos, alma ou qualquer outra coisa que os coloquem em alerta diante de perigos. Energia estática? Talvez. Mas vinda de onde? E que energia seria essa que energizaria os pelos do beiço quando se está no meio de uma crise republicana?
Perguntas… Muitas perguntas e nenhuma resposta. Talvez fossem apenas os movimentos involuntários da boca que pressionaria lábios e bigodes para impedir que algo indevido saísse da boca. Também não sabia se o encrespamento do buço era bom ou ruim. Não sabia como domá-lo. Nem o que fazer de sua cara com ele daquele jeito. Combinou consigo mesmo que pensaria no assunto.
Ele sempre pensa muito quando não sabe o que pensar. Fica meditativo, inerte, perdido em encaraminholamentos entre as caraminholas antigas de sua cabeça, as novas que passou a cultivar quando se tornou poderoso e as caraminholas que os outros despejam aos montes em sua cabeça. Enquanto na sua cabeça e bigode tudo se movimenta, o resto de seu ser é de uma paralisia absoluta.
Não decide. Cobrado, diz: “vou pensar…”, e pensa, pensa, pensa… Pensa sem, realmente, pensar. Na verdade, só espera. Talvez, o mais correto fosse chamar seu pensamento de esperança. Um desejo mentalmente barulhento de que as coisas se acertem sozinhas e que, de quebra, ao final sua imagem saia aprumada como seu bigode em dias de tranquilidade.
Suas ideias estão eriçadas como seu bigode. O que ele quer de verdade não pode ser dito ou feito. Não ousa dizer nem para si mesmo. É pensamento que não quer pensar. Que não quer tornar-se palavra. Que não quer tornar-se plano ou ação. Falta lisura de ideias e coragem de ação. Então pensa. Dá prazo para outros também pensarem, como se todos fossem, como ele, perdidos em contradições. Como se todos tivessem bigodes e ideias hirsutas.
Sabe que a situação pede ações duras como os fios de seu bigode. Ações que seu espírito de pensador cheio de palavras e vazio de coragem para ter convicções é incapaz de realizar. Na falta de movimento, fala palavras com a dureza que seria necessária às ações. “Tomarei medidas enérgicas!”, “o momento exige coragem”, “grave lesão, que deve ser sanada”. Palavras cheias de promessas de ações não realizadas. Seu bigode sabe que palavras duras sem ações têm a moleza gelatinosa dos inúteis espíritos áulicos. Talvez, por isso, ele se encrespe.
Olhou-se novamente ao espelho. A atenção ao bigode roubou-lhe a concentração na gravata. O nó ficou torto. O que pensariam de seu nó torto? De seu bigode denunciante de suas vacilações? De seu pensar infinito? Sua vaidade de poderoso lhe parecia mais em risco do que a República a que deveria servir.
Lamentou que seu bigode não lhe desse respostas. Lamentou ainda mais que tanta gente esteja agindo tão rápido. Numa velocidade impossível de atingir com os passos curtos de seus pensamentos intermináveis.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
Leia também “A aposta no caos para proteger a direita”, de Gerson Almeida.






