É tenebroso ver o avanço da extrema direita e a perplexidade paralisante dos democratas. Não há nada de concreto que os arautos da barbárie possam oferecer em uma ordem social que desmorona como consequência da indiferença das elites em relação aos grandes problemas da humanidade e aos seus efeitos sobre os desafortunados.

Todas as soluções da extrema direita só agravam os desastres que agora nos afligem e que se transmitirão às novas gerações.

A desigualdade se tornou uma mancha planetária e depois de ser motivo de pudor e contenção do exibicionismo das elites no pós-Segunda Guerra, voltou a ser sinal da graça divina e do mérito dos mais ousados na busca da riqueza. Já não são a diligência, o trabalho duro e a temperança as virtudes do presente. São o frenesi do consumo ostentatório, a aventura especulativa e a aposta na esperteza oportunista.

Um trilionário aventureiro causa mais admiração do que indignação. Um político corrupto, que abandona seu mandato para conspirar contra o próprio país no exterior, não estarrece aqueles que pagam o dízimo ao mercenário da fé e vendilhão da salvação instantânea. Pelo contrário, faz os olhos deles brilharem diante da vida de luxo da família que usufrui as delícias das vitrines inatingíveis pelo Zé Ninguém, em um império que se corrói na própria arrogância. Delícias financiadas pelo dinheiro de um banqueiro estelionatário, que dilapidou fundos públicos, enganou clientes e, pasmem, passou a perna em grandes bancos privados.

O fascínio domina os ressentidos. É como a multidão hipnotizada pelo brilho das estrelas de Hollywood, tingidas pelo neon dourado, que, no filme “O dia do gafanhoto”, de John Schlesinger, anunciava a tragédia e a irrupção do instinto de morte das massas, embriagadas pelo luxo alheio, plenas de uma vida sem sentido e vazia de realizações dos próprios sonhos.

A extrema direita não oferece a igualdade – pelo contrário, exalta a diferença, louva a riqueza fácil e despreza o pobre. Mas, manipula com habilidade o ressentimento e dirige o instinto destrutivo do indivíduo frustrado contra tudo o que não lhe traga benefício imediato, transformando-o em militante da morte por meio de sua máquina de comunicação. As massas do fascismo pós-neoliberal não querem construir um mundo novo – querem dilacerar as entranhas de um sistema que as abandonou à própria sorte.

Milhões de imigrantes fogem de guerras, da perseguição política, da fome e da dor para encontrar consolo e uma vida nova em outros países. A grande maioria busca países vizinhos aos seus, na esperança de retornar às terras devastadas mais pelas misérias do mal moral (político) do que pela natureza.

Os africanos expulsos de suas vidas ancestrais não correm primeiro para a Europa, para os EUA e, agora, até para o Brasil. Ficam em seu próprio continente, nos países fronteiriços. O mesmo ocorre em relação aos sírios, líbios, libaneses e palestinos. Mas são tantos, que extravasam para as orgulhosas nações do mundo capitalista rico, que construíram suas riquezas originais saqueando as colônias e agora recebem com hostilidade aqueles que buscam refúgio em suas metrópoles e campos.

A desigualdade, construída com as promessas do trickle-down (conceito intraduzível) e da globalização conduzida sob os interesses das grandes corporações, gerou uma multidão rancorosa e pronta para o canto da sereia da extrema direita. Culpam os imigrantes por parte de seus infortúnios e hostilizam aqueles que trazem suas culturas, conhecimentos, religiões e força de trabalho. Perseguem o vizinho que constrói suas casas, colhe suas plantações, cuida de seus idosos e crianças, gera conhecimento em seus departamentos de P&D, ensina em suas universidades e produz música, arte e culinária. Dão brilho à melancólica estética das vitrines que expõem os simulacros de acesso ao modelo de consumo conspícuo, que se torna produção em massa a cada virada da moda e da tecnologia.

A solução da extrema direita para a questão da imigração é criminalizar o imigrante, criar estereótipos nauseantes, encarcerar milhares, separar famílias e construir muros, sejam eles físicos ou frutos da propaganda fascista. Em vários países, isso desestrutura os mercados de trabalho, cadeias produtivas essenciais e até o financiamento de sua seguridade social. O ódio destrói as bases das próprias economias do cuidado e do abastecimento alimentar.

Por outro lado, a população idosa, que cresce em todas as partes, é tratada cada vez mais como os idosos no filme “A balada de Narayama”, de Shohei Imamura, no qual eles eram levados à montanha e lá abandonados ao frio e à inanição. Não são mais os filhos que devem carregá-los nas costas e sofrer a angústia de cumprir uma tradição criada pela fome e pela dificuldade de manter os improdutivos. Agora são os burocratas e tecnocratas que se perdem em cálculos atuariais frios e que, a cada revisão das tábuas demográficas, ampliam a idade de aposentadoria e reduzem seu valor. Cortam os gastos com saúde e de apoio aos desvalidos, com frequência para garantir o serviço de dívidas públicas acumuladas para favorecer grandes bancos e empresas em suas aventuras e apuros. Cortam impostos dos ricos, subsidiam empresas que desviam os recursos para a especulação financeira ou para projetos extravagantes, como construir uma base em Marte ou criar torres cada vez mais altas, como que buscando reproduzir os delírios faraônicos.

Vivemos, há décadas, crises epidemiológicas cada vez mais frequentes e graves: HIV/aids, nos anos 1980 e ainda presente em muitos países; SARS, em 2002-2003; MERS, em 2012; ebola, em 2014; Covid-19, em 2020-2022;  Zika, Dengue e Mpox, recentes e em expansão.

A resposta da extrema direita tem sido estimular um movimento antivacina, baseado em pura ideologia anticientífica e em mentiras torpes. As vacinas, um dos maiores avanços da medicina na história humana e responsáveis por salvar milhões de vidas desde sua descoberta, são tratadas como veneno por políticos ignorantes e descartadas por pessoas que acabam sofrendo as consequências dessas atrocidades da fraude em massa perpetrada por líderes de um movimento fatal.

Os países governados pela extrema direita durante a pandemia de Covid-19 tiveram várias vezes mais mortes por habitante do que aqueles que preservaram seus princípios de bem-estar social. O Brasil teve três vezes mais mortes por habitante que a média mundial. Bolsonaro e seus aliados, a expressão local da extrema direita mundial, não só foram negligentes durante a pandemia, mas também agiram contra medidas sanitárias mínimas, difundiram mentiras antivacinas para aterrorizar a população e transformaram essa conduta em símbolo de pertencimento ao bolsonarismo.

Morreram 700 mil pessoas no Brasil e milhões em todo o mundo. A Covid longa até hoje aflige milhões no Brasil. E, para piorar o cenário, a propaganda fascista criou o medo das vacinas, destruindo parte do esforço de mais de um século para fazer a população aderir às campanhas de vacinação. A cobertura vacinal diminuiu muito, e doenças já erradicadas voltam a aparecer. O sarampo, a poliomielite e a rubéola voltaram a se tornar problemas de saúde pública em vários países. No Brasil, desde 2019, houve o retorno do sarampo, da coqueluche e o recrudescimento da febre amarela silvestre.

Há indícios de que muitos vírus e outros agentes infecciosos são resultado do desmatamento irrefreado em todo o mundo, que agrava outra crise provocada pela civilização industrial, a mudança climática. A resposta da extrema direita é negar a existência do fenômeno com argumentos pueris, sem nenhum respaldo científico. A mudança climática não só está comprovada por estudos científicos feitos durante muitas décadas e confirmada por revisão criteriosa de milhares de especialistas do IPCC – Painel Intergovernamental da Mudança Climática, como também já se tornou objeto de constatação na vida cotidiana. Geleiras estão desaparecendo; regimes de chuvas e correntes marinhas estão mudando de padrão; ondas de calor assolam países de climas temperados; ventanias e tornados causam destruição onde raramente ocorriam; e espécies mudam de hábitos e sucumbem rapidamente a esses turbilhões meteorológicos e climáticos. Enquanto isso, os governos de direita não só negam o que já está à vista de todos, como também retiram recursos das instituições que buscavam pesquisar e atuar para impedir ou mitigar esses desastres. Retiram-se de conferências internacionais, sabotam políticas públicas e atribuem a inimigos externos a difusão desses alertas. Coisa de chineses, dizem.

A mudança climática, além de ameaçar a humanidade e todas as espécies do planeta já no presente e nas próximas gerações, provoca fome e desespero crescentes em um mundo já convulsionado e com milhões vivendo na penúria em razão dos desastres políticos e das guerras.

O avanço da extrema direita é outro desastre em andamento que, além de aprofundar os maiores problemas da humanidade, pode destruir muitas décadas de esforços e avanços civilizatórios, políticas de bem-estar social e a própria democracia liberal. Resistir a esse avanço é um imperativo político, moral e humanista. Não basta apenas lamentar a barbárie, é preciso derrotá-la.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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