
Ah, parem de culpar “a esquerda” pelo espírito podre, crescente no mundo todo. Não reduzam essa desgraça ao discurso eleitoral.
O fenômeno não é a derrota mundial de partidos genericamente de esquerda. O fenômeno a nos assombrar é o crescimento e a adesão da população mundial aos valores que os partidos de direita propõem.
Se quem “sabe falar” com os pobres é a Teologia da Prosperidade; se a maioria quer que a polícia mate livremente; se não importa que o candidato seja corrupto; se a solução é privatizar tudo o que é público, por que isso poderia ser atribuído “à esquerda”?!
A questão não é nem formal, nem de intensidade discursiva. Está não num lugar físico, mas nas crenças, na transformação das expectativas de uma sociedade que vê desaparecer o emprego formal e teme por seu futuro – e vê que governos não são capazes de lhes assegurar salários (ao contrário, desde sempre canibalizam e privatizam o Estado em favor dos já milionários). Pregadores da ideologia da prosperidade e seus meios de comunicação apresentam essa tragédia como “um mundo de oportunidades”: cada um por si, teologia da prosperidade, bets, salão de beleza na sala da casa, produção de viandas no puxadinho, furto de celulares, filas nas lotéricas… para vetar o questionamento sobre o que causa a exclusão.
Isso tem provocado, principalmente nestas duas últimas décadas, mudanças no pensamento, nas crenças, na cultura das relações Estado-cidadãos. Não tem a ver estarmos ou não na mitológica Periferia. O Lugar dessa disputa não é material-geográfico. É a “alma” de pessoas que se veem sem a proteção do Estado. Introjetaram que Estado, governo, política não dão conta. Isso levou ao trânsito da resposta Política coletiva para a busca solitária no individualismo. Desde o Neoliberalismo, a esquerda vem perdendo espaço para esse discurso que o Bolsonaro sênior verbalizou na pandemia: “querem que eu faça o quê? Não sou coveiro”.
Os valores “da esquerda” são a solidariedade e compaixão, são o compromisso de toda tribo não deixar ninguém para trás.
Não será a “esquerda” que irá pregar o individualismo para… para o quê mesmo? Para “se dar bem” em eleições?
Não se trata apenas da “guerra de narrativas”. Não é uma disputa no campo da razão. É sobre a perda da hegemonia de valores que vêm dos primórdios da humanidade. A “Lei da selva” não é cada um por si, mas, ao contrário, é cada um por todos.
A empatia deixou de ser um valor. O que hegemoniza a sociedade são outros princípios, outra moral, outros ideais.
Não vejo como a esquerda ser culpada de “não saber” como falar contra o culto do individualismo.
Aliás, sempre que “a esquerda” usou os mesmos métodos para governar, se deu muito mal e deixou de ter governos “de esquerda”.
Como se poderia dizer que a população não foi informada “pela esquerda”? Quem não conhece a ficha policial da família Bolsonaro? Não é porque a esquerda “não sabe se comunicar”, tampouco porque “não está nas periferias”. É porque os valores que defende não mais representam valores numa sociedade em que o Estado de bem-estar social foi destruído.
Na concepção do cidadão necessitado, a solidariedade passou a ser vista como um limitador ao “meu desenvolvimento”. Política de quotas, renda mínima, bolsa família são conceitos odiados pela elite e pelos “pobres de direita”.
Deveríamos abandonar esses conceitos, adotar o clientelismo, pregar o individualismo? Ou, ao contrário, aprofundar a disputa por valores coletivistas, ao lado de parar de ter medo de – simbolicamente – cobrar impostos dos super ricos? Valores – a disputa é por valores, não por formatos discursivos.
Não serei eu, um velho de esquerda, que por oportunismo eleitoral direi que o indivíduo tem o direito de usar armas, ou que tem que “matar ladrão no ato”, até porque roubo, estupro, agressão pessoal são atos igualmente de apropriação individualista. Se eu jogar fora o que considero valores superiores e aderir ao cada um por si, nunca terei segurança de não ser preterido e eliminado de uma sociedade cuja maioria elege quem elegeu – sem culpa minha – e me considera um peso moral.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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