
Terminado o primeiro turno da campanha eleitoral para a presidência da República, e após a ressaca eleitoral da noite de domingo e de toda a segunda-feira, aparece aquela enorme pergunta: e o que acontece agora, o que posso fazer?
Começar a refletir sobre essa questão implica superar o desânimo, a frustração, as dúvidas sobre o que teria acontecido no domingo. O adversário estava escondido? Jogamos de salto alto? Outros fatores?
Bem, o fato é que tivemos os votos que os institutos de pesquisa tinham dito que teríamos, uns cerca de 45%, dentro das margens de erro de cada instituto de pesquisa. E vamos para o segundo turno, como previsto desde o começo da campanha, e como aconteceu nas três outras vezes em que Lula ganhou. Nunca houve vitória no primeiro turno com Lula, é bom lembrar.
De outro lado, dependendo do instituto de pesquisa, o outro candidato que vai ao segundo turno teve mais votos (mas não muitos) do que alguns dos institutos previram, considerando as margens de erro. Mas pouca coisa. Ou seja, uma parte (pequena) dos seus eleitores estava meio enrustida.
Um elemento parece ajudar a explicar a explicitação desse voto. Trata-se do desempenho dos candidatos da direita e extrema direita nas eleições estaduais, em especial em alguns grandes colégios eleitorais, como São Paulo e Minas Gerais, mas também um desempenho bem superior ao previsto em alguns estados, como o Rio Grande do Sul. Esse desempenho não apenas deve ter alavancado a candidatura presidencial, como também as bancadas da extrema direita no Senado e Câmara Federal e nas assembleias legislativas estaduais.
Outro número importante para a análise é o percentual de abstenções, pouco mais de 21% dos votos (parecido com o pouco menos de 21% registrado na eleição presidencial anterior). São mais de 33 milhões de eleitores que, por razões diversas, não foram até as seções eleitorais votar. Considero que a pequena diferença final entre os candidatos (cerca de 1,8%) comparada a esse número da abstenção, por si só, mostra que a eleição não está decidida.
Não está decidida, mas a chance de uma vitória da extrema direita é grande. O principal indicador disso é a cristalização dos votos, desde o início das pesquisas. Esse é um indicador de que virar votos é muito, muito difícil.
Não houve nenhuma grande variação, a menos de um suspiro do candidato Cury em um breve momento, quando foi para 10% dos votos, mas logo recuou para o seu resultado final, de menos de 3% (2,89%). Na sequência, Renan (2,24%) e Caiado (2,18%). Esses números, que totalizam pouco menos de 7,5% dos votos são importantes, porque são votos que não se dobraram na reta final à forte campanha do voto útil da extrema direita e, portanto, disputáveis agora. São diferentes dos possíveis votos de Zema, que se desmilinguiram até chegar aos 0,27% pela pressão do voto útil, o que serviu para aproximar os votos do ex-governador mineiro (sendo Minas um colégio eleitoral muito importante) aos de Samara, da UP. Portanto, aqui, existem cerca de 7,5% dos votos disputáveis pelos dois candidatos, sem alinhamento automático (e que também podem virar abstenções ou votos nulos).
O grande manancial em disputa são as abstenções, mais de 20% dos votos. Não se sabe exatamente quem são esses eleitores – uma parte deles pode ser de pessoas que já morreram (e não ter sido atualizado nos arquivos eleitorais), uma parte pode ser de doentes que estavam sem condições de ir às seções eleitorais, mas uma parte grande simplesmente não foi votar, e a diferença entre os dois candidatos que passaram para o segundo turno é de 1,87%. Então, é fundamental saber quem são esses cidadãos, e por que não foram votar. E ver como mobilizar esses eleitores a irem votar em Lula (e, imagino, o outro lado deve tentar fazer o mesmo). Aqui está, a meu ver, a principal variável que pode ajudar a mudar o quadro do primeiro turno.
Outro ponto que me parece importante é observar que o único dos grandes colégios eleitorais onde pode haver segundo turno (digo “pode” porque quando escrevo esse artigo ainda não está definida a situação desse estado) é o Rio de Janeiro. Os demais estados onde teremos segundo turno (Distrito Federal, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Acre, Amazonas e Tocantins) não são grandes colégios eleitorais. Isso significa que, provavelmente, as grandes máquinas estaduais que disputaram vagas em governos, Senado, Câmara e assembleias legislativas no primeiro turno não estarão em ação com o ímpeto em que estiveram no primeiro turno, até porque isso custa dinheiro. E vale observar, pelos resultados, que essas máquinas operaram (fora na área do Nordeste) muito mais a favor do candidato da extrema direita.
Assim, eu diria que a presidência segue em disputa, agora com um favorito (o vencedor do primeiro turno), mas com uma não impossível possibilidade de virada, dado o quadro descrito acima. É muito esforço, muito trabalho, muito sangue frio, mas vale a pena investir.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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