
Ilustração: Mihai Cauli
Maria é inquieta, teimosa e fogosa. João é calado, trabalhador e atento. Maria vive com os pais. João, novo, já é pai.
Maria não come carne por opção. João não come carne por falta de condição. Maria anda de carro. João pega condução. Maria não quer gasolina cara. João quer poder comprar um botijão.
Maria é chique. João não combina a calça com a camisa. João compra à prestação. Maria compra em butique, igual a que tem em Milão.
Falta salário no mês de João. Maria quer mais dólar para viajar. João tem que economizar. Maria não pode gastar. João, se poupar não come. Maria não come para poupar. E emagrecer.
João não tem nada a ver com Maria. Maria é de sonho, João de pesadelo. No sonho de Maria, ela quer a vida diferente. Na vida de João, ele não quer mais pesadelo. Maria busca. João foge.
João não confia em político. Maria não confia no centrão. João quer protestar na rua, vai pronto para apanhar da polícia. Maria quer protestar na rua, e já combinou com as amigas.
Maria não gosta do governo que deixa gente morrer. João não gosta do governo porque falta o que comer. Maria bate panela e grita impeachment. João quando grita, apanha da polícia.
João está cansado. Maria está angustiada.
Maria irá para a rua protestar. E encontrará o João. Não vão se apaixonar. Talvez, nem se olhar. Mas vão se respeitar. Entenderam que, apesar de tudo que os separa, sentindo e pensando diferente, no que os aflige são iguais.
Solidários no entristecimento com a tristeza do outro. No desamparo de ver gente faminta. Na estupefação diante da estupidez que nos governa. No medo do desgoverno e da tirania. Na incompreensão dos porquês de uma gente que magoa, ofende e ameaça quem não é dos seus.
Maria não quer o país sem João. João não quer o país sem Maria. E nem sem ninguém. Querem que seja para todo mundo. E para eles também. Com gente e gentileza. E dinheiro para comida, gasolina e até coisas inúteis. E o direito de tê-las, sem pesar na consciência, a culpa de ter o inútil quando muitos não tem o essencial.
João quer ser Feliz. Maria quer ser feliz. Vão para as ruas e redes. No dia 2 de outubro estarão lá. E nos outros também. Por decência. Por medo. Por esperança. Por tudo que não é mórbido. Por tudo que há de belo.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Sobre as manifestações políticas, leia também “As manifestações de setembro e a unidade antifascista“, por Adhemar Mineiro.






