O século XXI será lembrado pela emergência da Internacional de Extrema Direita, assim como os dois séculos anteriores ficaram marcados pelo surgimento das internacionais socialistas e comunistas.

O primeiro quarto do século XXI poderá ser lembrado como o período em que a extrema direita deixou de ser um fenômeno nacional para se transformar em verdadeira internacional política. Se o final do século XIX e parte do século XX foram marcados pela emergência das internacionais socialistas e comunistas, o século XXI , o século XXI assiste à formação de uma rede transnacional da direita radical, oligárquica e autoritária, capaz de conectar lideranças, plataformas digitais, interesses financeiros e novas formas de poder.
Desde o Brexit, em 2016, e, sobretudo, com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos, a nova direita deixou de ser um conjunto disperso de experiências nacionais para constituir uma força política global. O que uniu essas experiências foi menos uma ideologia comum e mais um diagnóstico compartilhado de que a globalização neoliberal fracassou e as instituições tradicionais já não conseguem oferecer proteção, pertencimento e perspectivas de futuro.
A crise atual parece filha do esgotamento do neoliberalismo construído desde os anos 1980. Um modelo baseado na desindustrialização, na financeirização, na flexibilização do trabalho e na redução da capacidade do Estado de promover o desenvolvimento que produziu crescimento contínuo e desigual, concentração de riqueza e enfraquecimento das formas tradicionais de integração social.
Mesmo os governos progressistas latino-americanos, por exemplo, capazes de promover importantes avanços na inclusão social e na redução da pobreza, permaneceram, em grande medida, limitados pelos marcos da globalização neoliberal. O resultado foi paradoxal, cujas políticas sociais exitosas conviveram com baixo dinamismo econômico, a precarização do trabalho e o aumento da fragmentação social.
Foi nesse terreno de insegurança econômica e cultural que a extrema direita prosperou. A América Latina, por exemplo, converteu-se em um dos principais laboratórios dessa transformação. A vitória de governos de direita radical em diversos países da região, combinada com o fortalecimento de lideranças conservadoras e ultraliberais, desenha um novo mapa político continental. A direita latino-americana passou a compartilhar estratégias de comunicação, narrativas sobre soberania, combate ao “globalismo”, uso intensivo das redes digitais e construção de alianças internacionais.
Enquanto uma parte crescente da América Latina se desloca para governos conservadores ou de extrema direita, o Brasil encontra-se relativamente isolado na defesa da democracia social, da integração regional e de uma agenda de desenvolvimento mais inclusiva. O país vê diminuir o número de interlocutores políticos na região ao mesmo tempo em que se ampliam as dificuldades para reconstruir mecanismos de cooperação sul-americana.
Esse isolamento possui consequências geopolíticas relevantes. O espírito do primeiro quarto do século XXI é o da fragmentação, com as velhas mediações sociais mergulhadas em crise. O trabalho organizado perde força. As identidades nacionais se enfraquecem. As instituições liberais entram em declínio. Em seu lugar surgem formas híbridas de poder, combinando plataformas digitais, oligarquias econômicas, crime organizado, autoritarismo político e novas formas de dominação tecnológica.
Não parece ser o retorno puro e simples do fascismo da primeira metade do século XX. Algo novo que provém do capitalismo de plataformas sem freios, sustentado por uma guerra permanente pela proteção, pertencimento e controle dos dados. Uma ordem marcada pela erosão da soberania nacional, pela privatização da informação e pela colonização algorítmica da vida social.
A internacional da extrema direita emergiu precisamente nesse ambiente que marca a desintegração social. Ela oferece identidade em meio à insegurança, pertencimento em meio à fragmentação e inimigos em meio à incerteza.
Por isso, o verdadeiro conflito do século XXI não tem sido apenas entre direita e esquerda ou Oriente e Ocidente. Possivelmente entre sociedades capazes de reconstruir formas de cooperação, soberania, desenvolvimento e esperança coletiva e aquelas condenadas a mergulhar na fragmentação permanente, no autoritarismo digital e na barbárie oligárquica.
O grande desafio do Brasil é justamente procurar evitar o isolamento regional e oferecer, em meio à crise da ordem neoliberal, um projeto alternativo de desenvolvimento capaz de combinar democracia, transformação produtiva, soberania tecnológica e integração latino-americana. Se fracassar nessa tarefa, o país poderá descobrir que a internacional da extrema direita não é apenas um fenômeno externo, mas o novo espírito de época.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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