
Por volta de 1h20 da manhã, em diversos estados do Brasil, um alerta extremo da Defesa Civil fez os celulares tocarem com um barulho inquietante, acordando muita gente logo depois da vitória do Brasil por 3 a 1 contra o Haiti. Na tela, além do susto coletivo, aparecia a palavra “misantropo”, que imediatamente transformou metade do país em pesquisador noturno de dicionário e a outra metade em especialista improvisado de internet. Ao amanhecer, a palavra já circulava entre curiosos, jornalistas e teorias de ocasião, numa mistura de explicações sérias e interpretações cada vez mais criativas. O resultado foi um estado geral de estupefação coletiva, como se o país tivesse sido lançado dentro de um dicionário filosófico em modo apocalipse, com direito a redes sociais em combustão e um leve toque de surrealismo involuntário.
“Quero ser sincero e dizer o que penso, ainda que isso me custe o mundo inteiro.” A frase é de O Misantropo, de Molière, obra que leva justamente esse nome porque gira em torno de Alceste, seu personagem central. Alceste é esse sujeito radical na franqueza, alguém que não tolera hipocrisias sociais e que transforma a sinceridade absoluta quase em posição moral. Em O Misantropo, ele encarna essa tensão entre viver em sociedade e não suportar as regras que sustentam essa convivência, o que o coloca num conflito permanente com o mundo ao seu redor. No fundo, a peça não fala de alguém que quer destruir a humanidade, mas de alguém que não consegue concordar com ela, e isso, para ele, já é motivo suficiente de desgaste total, algo que hoje talvez soasse apenas como uma timeline mal administrada.
Intervenção alienígena ou um hacker com insônia
Pela manhã, o circo já estava montado: videntes falando em intervenção alienígena, influenciadores resgatando supostos avistamentos de discos voadores, a Defesa Civil tentando se explicar e pedindo desculpas pelo susto, e a imprensa correndo para decifrar ao público o que afinal significava a palavra “misantropo”. Nas redes sociais surgiam ainda aqueles que transformavam o alerta em performance pessoal, relatando em detalhes o que sentiram ao receber a notificação, enquanto outros reclamavam indignados de que tudo aquilo tinha atrapalhado a comemoração da vitória do Brasil, como se o país tivesse sido interrompido no seu momento sagrado por um detalhe técnico chamado realidade. Uma verdadeira miríade de interpretações em que a ignorância encontrou seu palco perfeito e não faltaram absurdos. No fim, ficou a sensação de que foi o dia em que o Brasil aprendeu uma palavra nova e não soube muito bem o que fazer com ela.
A guerra dos mundos em push notification
A imprensa correu para fazer carrosséis, artes explicativas, matérias em tempo recorde e entrevistas com linguistas, representantes da Defesa Civil e hipóteses sobre ataque hacker. Mas, principalmente, correu para tentar explicar aos brasileiros o que era “misantropo”, o que acabou contribuindo ainda mais para o pânico geral e para teorias de conspiração. Ao tentar traduzir tudo às pressas, reforçava-se a sensação de que havia algo maior por trás da palavra. No meio do afã de recorrer ao dicionário, entre Aurélio e Michaellis, a palavra passou a soar como algo saído diretamente de A Guerra dos Mundos, de Orson Welles. E a sensação que ficou foi a de que alguém estaria testando os limites da realidade. Não foi o que aconteceu, mas a madrugada já tinha feito o seu trabalho.
A filosofia de mau humor
Guy Debord diria que tudo virou espetáculo. Baudrillard diria que já não existe diferença entre realidade e simulação. Byung-Chul Han diria que o problema é o excesso de estímulo. Cioran diria que o erro foi a humanidade continuar funcionando como se fizesse sentido. No fim, todos reforçam menos uma explicação e mais a sensação de que o mundo já passou do ponto em que precisa ser entendido.
O caso é sério
É importante dizer que a conversa filosófica não diminui a gravidade do que aconteceu. O alerta extremo da Defesa Civil foi real e acordou milhares de pessoas. Em uma situação real, o esperado não é correr para o dicionário, mas para um abrigo ou segurança. Trata-se de algo sério.
O que se viu depois não anula isso. Apenas desloca o foco. O alerta virou outra coisa: espetáculo, ruído e interpretação infinita.
No fim das contas, será que a gente não precisa mesmo de um pouco de misantropia?
No fim das contas, talvez a palavra “misantropo” tenha tido mais sorte do que parecia. Num mundo em que genocídios como o de Gaza acontecem em tempo real, em que qualquer pessoa com celular vira autoridade instantânea, em que redes sociais amplificam tudo sem filtro, e em que figuras públicas dizem qualquer coisa como se fosse regra universal, o espanto com uma palavra dessas parece quase ingênuo. Entre guerras transmitidas ao vivo, desinformação em escala industrial e excesso de opinião sem reflexão, a ideia de dar um tempo da humanidade deixa de parecer exagero e passa a soar como um reflexo compreensível. Talvez o problema não tenha sido a palavra ter aparecido, mas ela ter lembrado, por alguns segundos, que essa vontade silenciosa de sair do grupo nunca foi tão estranha assim.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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