No “Grande Tabuleiro de Xadrez” de Brzezinski, os Estados Unidos ainda estão vencendo a disputa pela hegemonia mundial?

Nos dias de hoje, estamos testemunhando um acirramento do conflito OTAN + Ucrânia versus Rússia e a ampliação do conflito no Golfo Pérsico. A diplomacia não funciona e parece que o objetivo é seguir ad eternum com os conflitos. Trata-se de um verdadeiro desastre. Parece que todos os lados querem a guerra. A CIA (Central Inteligence Agency), a Palantir Technologies (1) e o próprio Donald Trump nunca quiseram paz. Seguiram com a estratégia de escalar a guerra de drones na Rússia e, também, no Irã.
A CIA tem dado a tônica para as decisões geopolíticas norte-americanas e, nesse arcabouço, as informações para os ataques de drones da Ucrânia na Rússia. A Palantir, por seu turno, está no coração da máquina de guerra norte-americana, trabalhando nas entranhas do pentágono e muito envolvida com as autoridades de defesa da Ucrânia, indicando a maioria dos alvos na Rússia que têm sido atacados por drones, nessa “guerra por procuração”. Seu CEO, Alex Karp deixa muito claro que para “salvar” o ocidente os principais opositores terão de ser combatidos. De fato, desde 1991, a CIA está liderando um programa contra a Rússia visando enfraquecê-la.
O livro “The Grand Chessboard: American Primacy and Geostrategic Imperatives” (1997), de Zbigniew Brzezinski (2) é a bíblia que tem sido seguida por 35 anos pelas autoridades norte-americanas. Dizia ele: “Derrotar a Rússia é fundamental para a conquista da primazia dos Estados Unidos na Eurásia”. E essa estratégia continua atual e válida. Só que hoje em dia, os políticos tratam a guerra como se fosse um videogame, sempre bem longe dela e sem correr riscos. E a hipocrisia é o desenho de contorno das ações. Trump dá luz verde para as ações da CIA e da Palantir e ao mesmo tempo, finge mostrar para o mundo seu “real” esforço para alcançar a paz.
A situação é séria, pois o provável resultado é uma guerra muito sofisticada que pode descambar para um conflito nuclear, o que seria o fim da civilização. Da parte dos EUA, tudo isso é conduzido em segredo, financiado por dívida e alimentado por poderosos lobbies da indústria militar, do Silicon Valley, da Palentir, da Space X, etc. É uma excelente oportunidade de testar armas desenvolvidas com IA no mundo real, sopesando os resultados para a manutenção da primazia norte-americana no planeta. E isso tudo acontece a despeito das pesquisas de opinião indicarem uma maioria absoluta das pessoas contra as guerras, tanto na Ucrânia, na Rússia, no Irã, nos EUA e na Europa.
O objetivo é a primazia norte-americana, as ameaças são a Rússia e a China. A solução é enfraquecê-los, causar mudança em seus regimes ou derrotá-los. Tudo isso consta do The Grand Chessboard, de Brzezinski. E a forma de fazê-lo é através de pivôs geopolíticos que funcionam como alavancagem contra os inimigos (Ucrânia, Israel, outros países europeus, etc.).
A obra de Brzezinski, de 1997, é uma das mais influentes da geopolítica contemporânea. Escrito poucos anos após o fim da Guerra Fria, o livro procura responder a uma pergunta central: como os EUA poderiam preservar sua posição como única superpotência mundial no século XXI?
Sua tese central é de que a Eurásia é o centro do poder mundial. Ela reúne a maior parte da população, da riqueza, dos recursos naturais e das principais potências econômicas e militares do planeta. Assim, quem dominar politicamente a Eurásia terá condições de exercer predominância global. Para tanto, o principal objetivo estratégico dos EUA é o de impedir que qualquer potência ou coalizão passe a controlar a Eurásia. Se isso for alcançado, os EUA conservarão sua primazia global.
E reparem: quais os pivôs geopolíticos indicados por Brzezinski? Rússia e Irã, que coincidência, não? Rússia por sua influência na Europa e Eurásia e Irã como pivô para a região do Golfo, para os recursos de energia do Oriente Médio e para a região do Mar Cáspio. Essa estratégia não é do Trump. Vem do Clinton, passa por Bush, Obama, Trump 1, Biden e agora com mais truculência por Trump 2. Com a dissolução da União Soviética, essa estratégia foi posta com clareza pelo então secretário de Defesa Paul Wolfowitz (2001-2005) para perpetuar a primazia dos EUA na Eurásia.
E, naquele momento, o mundo inteiro se regozijou com a esperança de paz. Mas não era isso que estava no Grande Tabuleiro de Xadrez, pois a Eurásia continuava sendo o tabuleiro principal e os EUA continuavam atuando como o jogador externo mais poderoso. Cada país possui importância estratégica diferente. Estamos nisso há 35 anos. Atualmente, todos querem paz, menos os EUA que querem a supremacia. A OTAN continua a serviço dos EUA e a Europa praticando a sua vassalagem idiota desde o pós-guerra.
Brzezinski equivocou-se ao afirmar que os EUA conseguiriam a supremacia de poder no mundo, já que ninguém seria capaz de equipar-se a eles nas esferas econômica, tecnológica e militar. Diversos países não aceitam a dominação dos EUA e muitos deles estão em pé de igualdade com os norte-americanos nessas esferas.
Até mesmo o Irã, por incrível que pareça, está fazendo frente aos EUA do ponto de vista militar, ajudado por sua geografia, o que nunca foi cogitado por ninguém. Eles se prepararam por muito tempo para poderem se defender minimamente contra as agressões de Israel e dos EUA. E os norte-americanos não podem admitir nenhuma derrota, o que revelaria a falácia de sua supremacia imbatível. Mesmo com uma eventual derrota nas eleições de novembro de 2026 o establishment continuará buscando a supremacia, fato que se verificou nos últimos seis governos republicanos e democratas. Isso está no DNA de Washington.
Outro conselho de Brzezinski foi o de evitar a todo custo a união dos três pivôs: Rússia, China e Irã, já que unidos poderiam ameaçar a primazia industrial, tecnológica e militar dos EUA. Acontece que a política errática norte-americana tem conspirado contra seu próprio império, com ações que promovem exatamente a aproximação e a aliança dos três pivôs.
Isso acontece não só em função da percepção dos pivôs da estratégia norte-americana de destruí-los, como também, em razão da grande complementariedade existente entre eles (Rússia e China, Rússia e Europa – prejudicada pela vassalagem contumaz – e entre China e Irã). O mais triste disso tudo é que a Europa, ingenuamente, se autoescanteou e continua aguardando uma sinergia que não mais existe com os EUA.
A solução para isso estará nas mãos dos povos norte-americano e europeu, os quais poderão dar um basta nessa situação se não caírem no conto da sereia da direita radical que, infelizmente, está crescendo no planeta e tem planos de se preparar para a guerra (vide União Europeia e Alemanha).
No “Grande Tabuleiro de Xadrez” de Brzezinski existem os jogadores geoestratégicos – grandes países capazes de projetar poder além de suas fronteiras (EUA, União Europeia Rússia e China), os pivôs geopolíticos – países cujo valor deriva principalmente de sua posição geográfica (Ucrânia e Irã) e os parceiros estratégicos (União Europeia, Japão, Arábia Saudita, Índia, etc.).
Brzezinski acertou em cheio nos seguintes importantes temas:
- ascensão da China;
- importância geopolítica da Ucrânia;
- centralidade da Eurásia;
- competição entre grandes potências;
- relevância estratégica da Ásia Central.
As maiores críticas a Brzezinski foram sua excessiva visão unipolar de hegemonia dos EUA (o que foi desafiado pela ascensão da China e pela recuperação parcial da Rússia), a sua ênfase no equilíbrio de poder (o que foi desautorizada pela maior importância dos fatores econômicos, tecnológicos e ambientais) e a reduzida importância atribuída a países menores.
O trabalho de Brzezinski continua bastante atual e uma referência importante para compreender:
- a guerra entre Rússia e Ucrânia;
- a expansão da OTAN;
- a rivalidade entre EUA e China;
- a importância estratégica de Taiwan;
- a competição por influência na Ásia Central;
- a transição de uma ordem unipolar para uma ordem cada vez mais multipolar.
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Notas:
– Palantir Technologies é uma grande empresa americana de tecnologia especializada em análise de dados e inteligência artificial. Ela atende principalmente a agências de governo, forças armadas e grandes corporações.
– Zbigniew Brzezinski (1928–2017) foi um cientista político e diplomata polonês-americano que atuou como Conselheiro de Segurança Nacional do presidente dos EUA, Jimmy Carter, de 1977 a 1981. Foi um estrategista de destaque da Guerra Fria, um dos principais artífices do eventual colapso da União Soviética e uma voz influente na política externa americana, desde a administração Kennedy até Obama.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
Leia também “Sete lições e consequências da guerra do Irã”, de David Wallace-Wells.






