
O acaso não existe na vida de Shirley. Tudo é de caso pensado. Planejado silenciosamente nos momentos de solidão. Pensa muito antes de agir e consegue agir como quem não pensou antes. Aprendeu a ser assim por necessidade. É seu jeito de sobreviver e crescer em um mundo masculino onde, desleixadamente, insistem em rebaixá-la à condição de corpo disponível e inteligência irrelevante. Para além dos arrogantes devaneios e desejos masculinos, o corpo de Shirley está disponível apenas às suas próprias e sempre dissimuladas ambições.
Ninguém nunca a teve. No silêncio de seus pensamentos, nunca se fez de coisa a se ter. Na intimidade de seus sentimentos, nunca amou ninguém além de si mesma. Ria daqueles que, se refestelando de prazer com seu corpo, julgavam ingenuamente terem possuído a si e aos seus sentimentos. Gargalhava por dentro enquanto seu rosto exibia um gozo inexistente em seu corpo. No desprazer de deitar-se com homens poderosos, deleitava-se ao dominá-los enquanto acreditavam tê-la dominado. Na frieza paciente de suas estratégias, ambições e coragem, Shirley é uma mulher fabulosa.
Entendeu cedo que poder é mais importante na vida do que dinheiro e conquistou seu naco de poder estando ao lado de homens poderosos. Sempre submissa nas aparências. Sempre lúcida e senhora de si nas suas certezas íntimas. Ascendeu com esforço, mas com a segurança de quem confia em si mesma.
Mas o tempo é implacável no seu fazer de desfazer as coisas. Shirley envelheceu. Tornou-se a mulher bonita “para sua idade”. Seu corpo não seria mais instrumento eficaz por muito tempo. Precisava adaptar-se. Meticulosa, pôs-se a planejar novas estratégias para conquistar e manter poder.
O adoecimento de seu poderoso marido antecipou seu planejamento. Na política, a doença mata o poderoso antes do corpo padecer. O exercício do poder é inadmissível sem um corpo potente. Shirley se viu em um conflito com os enteados que cresceram na vida e na política defendendo privilégios masculinos. Luta pelo espólio de um político personalista e carismático. Não era possível a Shirley usar seu corpo contra eles. Não havia para ela papel secundário possível ao lado deles. Seria excluída. Abandonada à irrelevância de coadjuvante de momentos passados. Shirley precisava agir. E rápido.
Sua astúcia construiu sua sorte. Envolvida com um poder carismático, viu na construção de seu próprio carisma o caminho para sobreviver. Trabalhou com a inteligência habitual, fazendo-se notar sem chamar excessivamente a atenção. Aparecia ao lado, um passo atrás, obediente. Falante, articulava nos espaços privados. Calava-se e sorria nos espaços públicos. Seus enteados, mais à vontade nas machezas do exercício do poder, pavoneavam-se despudoradamente em busca de seus poderes próprios. O que eles faziam à luz do dia, Shirley precisava fazer às sombras.
A hora e o dia chegaram calculados. Sem nenhum acontecimento público anterior que fizesse ao público entender seu ato, o que aumentou ainda mais seu impacto no público. Não foi impelida pelas circunstâncias. Criou as circunstâncias. No seu tempo. Do seu jeito. No cenário milimetricamente planejado para que seu público se reconhecesse em um ou outro detalhe, leu seu desabafo.
Pegou de surpresa os enteados seguros demais em suas machezas, desastutos demais em suas ignorâncias. Saiu das sombras deixando claro que não aceitaria sobras. Agiu com classe, elegância e dureza. Mostrou a que veio. Exibiu, despudoradamente, inteligência mais exuberante que os encantos corporais a que o mundo machista a reduzia.
Shirley não seria mais secundária. Não seria mais bibelô. Nunca mais.
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Ilustração: Mihai Cauli
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