
Sempre sonhei com o desconhecido, a fantasia de ser marinheiro e viajar pelos mares do mundo, com uma mulher em cada porto. Fez parte da adolescência sonhadora quando imaginava como brincadeira, e aprendi os poderes da imaginação. Se imaginava com o mar, tinha o amparo na terra mesmo, algo como ter os pés no chão, ou só um pé, o outro estava no ar, na excitação do sonho. Logo, não tardei para chegar na “Odisseia” de Homero, pois sabia que nela começava a palavra escrita, e estava seduzido pelas palavras que se concentram na odisseia: aventura, viagem, mar, o desconhecido.
A vida é uma odisseia, muitas na verdade, e, portanto, um dia me encorajei e telefonei a quem mais sabia sobre a Grécia, o professor e escritor Donaldo Schüler. Para minha sorte ele foi simpático e gentil e logo me felicitou pelo recém-lançado livro “Para início de conversa”, entrevistas que fiz com Cyro Martins. Logo o convidei para vir à instituição psicanalítica da qual eu era o diretor científico, para falar da velha Grécia. Ele então me perguntou sobre que tema seria a palestra, e perguntei se poderia ser sobre a “Odisseia”. Respondeu que havia uma tendência a o chamarem para esse livro, e aí eu disse que já estava lendo e que até nosso encontro concluiria. Ficou contente e disse que falaríamos juntos sobre essa obra que está na origem da literatura ocidental.
Durante um mês, todos os dias, fiquei mergulhado na “Odisseia”, uma edição muito bonita de capa dura que dormia na biblioteca. Tardaria anos para essa obra ser traduzida pelo Donaldo em edição bilíngue, grego e português, pela L&PM. Na época, já tinha lido a “Ilíada”, e havia me cansado de tanta guerra. Já a Odisseia é empolgante, divertida e nos primeiros cantos me impressionei com Telêmaco, filho de Odisseu, que estava perdido devido à ausência do pai por 20 anos. O jovem estava assustado com a invasão de 88 reis ambicionando serem o rei de Ítaca e se casarem com Penélope, sua mãe. Então, aparece a Deusa Atena e diz a ele que deveria sair em busca de seu pai Odisseu, dando o norte a quem estava desnorteado. Esse foi meu primeiro comentário sobre a “Odisseia” na noite em que falamos diante de uma plateia pequena e atenta. Não tardou para o bondoso Schüler dizer que não havia pensado em como sair em busca pelo pai tinha sido terapêutico para Telêmaco. O jovem cresceu, amadureceu, pois saiu da posição passiva de sofrimento para sua odisseia de viajar ao encontro do pai.
Um parênteses: uns 15 anos após essa noite em que falamos sobre a “Odisseia”, fui ao lançamento de “Telemaquia”, a primeira parte do famoso livro, e revendo agora, fiquei espantado ao ler o autógrafo do Schüler referindo-se ao nosso primeiro encontro de tantos anos: “Para meu Abrão, “Odisseia I”, “Telemaquia”, com quem discuti os primeiros cantos, 19/06/2007, Donaldo”. Homero criou pontes entre as ilhas gregas, emoções afetivas em ambiente festivo, banquetes, apresentações musicais e esportivas. E também, conflitos em torno do poder, da posse de terras, reinos e mulheres como Helena e Penélope, entre outras.
Quem entra na Grécia, da literatura e filosofia não sai mais, é um imã como a Bíblia. A palavra odisseia é musical no mundo ocidental e se mantém viva ao longo dos séculos. Esteve nas mãos de Margareth Atwood – A odisseia de Penélope – do nosso Guimarães Rosa, de García Márquez, Ezra Pound, Joyce, Virgílio, até nas mãos do jovem Werther de Goethe, em Camões. Homero é uma referência essencial da cultura ocidental.
Entre as passagens da “Odisseia” que não esqueci é quando Odisseu encontra Aquiles no fundo do inferno, no canto XI. Logo elogia o grande herói grego dizendo o quanto sua memória é celebrada no mundo. Então, o grande guerreiro Aquiles responde: “Não tente consolar-me da morte, ó nobre Odisseu!/ Eu preferia estar na terra doméstica de um camponês/ mesmo sem patrimônio e quase sem recursos/ do que reinar aqui entre essas sombras…”. Aplaudi o grande Aquiles em sua exaltação pela maravilha que é a vida, mais que a glória de um herói morto. Ele preferia estar vivo, pagando o preço de ser um desconhecido.
Também há os que preferem a morte, alguns buscam-na, como os incríveis Tchekov e Kafka. Recentemente, vi um belo vídeo de Jacques Lacan elogiando a morte como sendo bem-vinda.
Odisseu foi um herói astucioso, orador, cavalheiro, malandro, trapaceiro, pai, esposo, infiel, rei, líder, vitorioso e derrotado, e tinha uma impressionante capacidade de enfrentar obstáculos. Durante 20 anos, sonhou em voltar à sua Ítaca – onde era rei –, recuperar a esposa Penélope – corajosa e astuciosa – e o filho Telêmaco. Esse retorno é repleto de aventuras fantásticas, e a “Odisseia” relata isso em seus cantos.
Não me surpreendeu agora a notícia de que estará nas telas do mundo o filme que já teve outras versões do clássico mais famoso da literatura ocidental. O diretor agora é Christopher Nolan, o mesmo do filme “Oppenheimer”, Oscar de melhor filme e melhor diretor em 2024. Três horas de duração, a estreia será na metade de julho, e tem tudo para despertar o entusiasmo do público.
Sempre que estou em contato com a “Odisseia” de Homero, que leio Donaldo Schüler sobre a Grécia, e agora, com o filme, percebo como Aquiles acertou em preferir viver a ser um herói morto. Uma das maiores lições da Odisseia de Homero consiste em que a gente deve ter um objetivo, não esquecer, não se perder de si mesmo, não deixar de buscar o norte da própria vida. Talvez o sentido da vida de cada um de nós seja aprender a viajar na direção do que a gente deseja ser e como e com quem construir essa odisseia.
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Ilustração: Mihai Cauli
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