
Belmiro é um sujeito simples. Sua maior ambição era ver seu Palmeiras campeão do mundo. Não vê o filho há anos, mas sente falta. Falavam-se pelo Facebook, mas se desconectaram quando Belmiro trocou futebol por política. Ficou agressivo com o filho e com todos que achava que não pensavam como ele. Belmiro virou linchador de torcida virtual de político de direita. Agora, sua ambição é ver seu país salvo do comunismo e dos gays, mas está abalado em sua confiança nos políticos e nos militares. Acredita que só os americanos com seus exércitos e bombas poderosas podem lhe trazer a liberdade de odiar que tanto necessita.
Anacleto vive como pode. Não faz planos de vida porque sabe que para seguir planos é preciso a liberdade de escolha que o dinheiro lhe dá. E o que ganha mal dá para comer. Faz biscates com frequência para Belmiro, que o paga pouco e trata mal, mas a vida de Anacleto não lhe permite o luxo de recusar trabalho e dinheiro. Dignidade é coisa mais cara e menos necessária do que comida. Belmiro chama Anacleto de preguiçoso e vagabundo desde que descobriu que Anacleto ganha bolsa família. “Um absurdo! Nem família esse crioulo tem!”, Belmiro repete com insistência. Anacleto quer votar em quem lhe der comida. Se der alguma dignidade também, melhor, mas acha que querer dignidade é pedir demais.
Sandrileya gosta de Anacleto. O acha divertido. Também resolve rápido e barato seus problemas domésticos quotidianos, da máquina de lavar que não ligava ao cano da cozinha estourado, Anacleto resolvia. Ela não sabe em quem votar. Pensa que político tinha que ser que nem Anacleto, que resolve os problemas e cobra pouco. Mas o que ela vê é apenas políticos que criam problemas e cobram muito por isso. Na campanha sempre os vê com o papo de que tal coisa é simples, que falta só vontade política, vontade de cuidar do povo. Depois de eleito, a conversa muda. Não é bem assim, faltam recursos, a oposição não deixa. E Sandrileya vê tudo mudar para pior na sua vida enquanto a vida dos políticos muda para melhor. Eles não mereciam vida melhor, já Anacleto merecia. Desacreditada na política, Sandrileya procura um candidato que, ao menos, mereça mudar de vida.
Quando chove, Sandrileya vai para o trabalho com Robervaldo, motorista que conheceu em uma corrida de Uber e de quem ficou, mais ou menos, amiga. Sempre que precisa de carro e motorista, liga para ele e combina o preço. Robervaldo sempre a atende com gentileza. Ele é formado. Fez Letras. Fala inglês fluente. Pensou que isso bastaria para ter um bom emprego. Teve vários. Uns bons, outros nem tanto. Nenhum deles muito duradouro. Trabalha para o aplicativo, que lhe leva um naco do valor da corrida maior do que o naco dos impostos que lhe vinham descontados no contracheque nos seus tempos de CLT. O que ganha, dá para sobreviver, mas sente que é pouco para viver. Ele também não sabe em quem votar. Mas está certo de que não votará em nenhum daqueles políticos que seu pai, Belmiro, tanto ama e defende.
Edgardo é porteiro do prédio em que moram Belmiro e Sandrileya. Conhece Anacleto, que volta e meia presta serviços por lá. Também conhece, de vista, Robervaldo, que sempre que vem pegar Dona Sandrileya fica olhando para o prédio. Olha demais. Olha até mesmo depois que Dona Sandrileya já entrou no carro. Edgardo desconfia de Robervaldo. Ele queria ser policial para, de arma em punho e coronhada na testa perguntar o que ele tanto procura no prédio. Olha para quê? Para quem? Edgardo também não gosta de Seu Belmiro, nem de Dona Sandrileya, nem do pé rapado do Anacleto. Acha que o país está assim por causa de gente assim. E só sem gente assim as coisas vão deixar de ser assim. Está convicto. Vai votar em políticos de direita, que vão lhe dar uma arma para que ele possa, pelas próprias mãos, fazer um país melhor.
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Ilustração: Mihai Cauli
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