A realidade esconde seus mistérios. Nunca é completa aos olhos. Há sempre algo por detrás. Algo além. Jacinto via além das coisas. Via o que quase ninguém via e isso o tornava sábio para alguns e estranho para outros.

Explicava a realidade das coisas falando das causas ocultas das coisas. Dominava a dinâmica dos acontecimentos sociais, políticos e econômicos. Poucos pareciam ter sua sagacidade e precisão. Era quase mágico. Genial analista das complexidades.

Um dia, depois de analisar cenários políticos decorrentes das guerras e temperamento das lideranças norte-americanas, a jornalista lhe perguntou de supetão: “e o que o senhor sente disso tudo”. Respondeu com mais análises, mais profundas e abrangentes. “Ainda não me respondeu. Gostaria de saber o que você sente”. Jacinto hesitou e calou-se.

Sujeito de palavras fáceis, não conseguia dizer o que sentia. Sentia algo, é certo, mas sentia o quê? Que nome teriam seus sentimentos? Como eles seriam o oculto que explicaria as aparências de sua vida? Jacinto não sabia explicar nada disso. Sabia do sentimento sem nome e porquê. Sentia, mas não conseguia pensar o sentimento, nem ir além e sentir o pensamento.

Achou-se frio em seus pensamentos. Seria alguém de razão sem sentimentos? Um autômato racional? Beliscou-se para ter certeza de que sentia dor. Lembrou de amores sentidos e da dor de tê-los perdido. Havia sentimentos. Aos montes. Às toneladas. Sentimentos até demais. Talvez, tantos que não dava conta.

Mas se conseguia concatenar tantos dados, se conseguia esconder, no flerte, tantos sentimentos ocultos como os termos ocultos de sua realidade, por que não conseguia pensar seus sentimentos? O que lhe faltava, já que tinha pele, membros e coração? Jacinto perturbou-se com a falta de respostas.

Isolou-se em casa como se, aprisionado o corpo entre quatro paredes, as ideias não lhe fugissem. Mas elas nem vinham. Não enxergava seus sentimentos com os olhos da mente, os mesmos dos quais se valia para enxergar tão longe na realidade. Tentou com os olhos da cara.

Olhou-se no espelho demoradamente. Como nunca havia olhado antes. Surpreendeu-se um pouco com o próprio rosto, há muito não visitado pelo seu olhar. Talvez fosse isto, a falta de hábito de examinar-se, de buscar no fundo de sua alma os sentimentos e no fundo dos sentimentos suas razões. Mas não via nada. Era só seu rosto, incompleto pela ausência de sentimentos.

Demorou-se ainda mais e, a cada segundo, além de nada acrescentar à sua imagem, algo parecia sumir. Era como se Jacinto fosse se tornando, a olhos vistos, menos Jacinto, menos qualquer coisa.

Sentiu uma angústia inédita, mas que não sabia se aquilo que sentia assim se chamava. Talvez fosse só tristeza. Ou medo. Ou um vazio. “Qual seria o sentimento do vazio? Ou o vazio seria a falta de sentimentos? Eu sou vazio? Mas se sou, porque sei que sinto algo forte? Será que sei mesmo? Será que sei de mim? Ah… Que será de mim?”.

Revoltou-se e espancou o espelho com o peso de papel da mesa ao lado. Esperou ver-se dividido em cacos de espelho. Fragmentado. Craquelado. Para sua surpresa, parecia normal. O mesmo rosto, o mesmo vazio de sentimentos.

Socou o espelho. E mais uma vez. E com mais força. Parecia inquebrável. Mas estava quebrado! Estava craquelado. E sua imagem, ainda que distorcida e dividida, parecia inteira. Como poderia algo assim? Estaria louco? Que rosto havia de ter nos destroços do espelho? Seria sua realidade um Jacinto quebrado, escangalhado das ideias?

Saiu para a rua sem destino, como se procurasse fugir de si mesmo. Olhou os movimentos e complexidades da rua com a clareza de sempre. Com a clareza que nunca tem com relação aos próprios sentimentos.

Diante do caos do mundo, entendeu que seus olhos de ver e sua mente de pensar não davam conta de ver e pensar a si mesmo. Que esta seria sua maldição. Seus anos de azar garantidos pela quebra de seus espelhos.

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Ilustração: Mihai Cauli
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