O livro de Paulo de Tarso Riccordi, escritor e jornalista, publicado pela Editora Coragem e pela Fundação Perseu Abramo, é mais do que um relato das memórias de uma geração marcada pela violência das ditaduras sul-americanas. Ele vai surprender.

O texto reconstrói, com sensibilidade humana e densidade histórica, as trajetórias de homens e mulheres lançados ao exílio pela repressão política brasileira que encontraram no Chile de Salvador Allende a esperança de reconstruir suas vidas e reinventar a política. Entre sonhos, derrotas e resistência, este livro-reportagem resgata a experiência histórica chilena, que continua a lançar luz sobre os desafios da democracia e da participação política na América Latina.
Nas palavras do poeta Pedro Tierra, a obra nos coloca “diante de um vasto mural de vidas humanas entrelaçadas”. Um mural fragmentado e dramático, composto por diferentes gerações “impelidas ao exílio para escapar à prisão, à morte ou se entregar à teimosa busca da liberdade sonhada, impelidas, repito, pela ruptura autoritária ditada por aquela lógica que anoiteceu o país – e o continente – durante mais de duas décadas”.
Entre lembranças pessoais, episódios políticos e experiências coletivas, o livro reconstrói não apenas o cotidiano dos exilados brasileiros no Chile, mas também a atmosfera de um tempo em que a esperança revolucionária convivia permanentemente com o medo, a perseguição e a iminência da tragédia.
O romancista e cineasta Tabajara Ruas apresentou a obra como um “mergulho profundo, de olhos bem abertos, no horror que foi a invasão norte-americana nas sociedades democráticas da América Latina”. Segundo ele, Paulo de Tarso, como repórter “tenaz e persistente”, percebeu que “a saga dos asilados no prédio da embaixada da Argentina em Santiago do Chile era um resumo dos longos anos de dominação sobre povos, onde plantar e colher alimentos eram valores mais altos do que a fabricação de armas”.
Mas, para falar do livro, talvez nada seja mais revelador do que recorrer às palavras do próprio autor, que, logo nas primeiras páginas, nos apresenta homens e mulheres que atravessaram aquele período dramático e sobreviveram para contar o que significaram aqueles acontecimentos decisivos em suas vidas. Eis o trecho que reproduzimos literalmente:
Jovens generosos e corajosos
Por Paulo de Tarso Riccordi
Esta é uma história feita por jovens. Havia mais velhos, mas a maioria dos que aqui falam estavam, pouco mais, pouco menos, com 25 anos. Um, por ter 32, recebeu o apelido de “Velho”.
É a história de jovens que não hesitaram em colocar a própria vida em risco para enfrentar as ditaduras que lhes interromperam a adolescência e os sonhos das populações. A maioria encarou dois, vários, até três golpes. Sofreram no corpo os horrores da tortura, da loucura e do sadismo[1] de agentes do Estado, sob conhecimento e mando do topo da cadeia de responsabilidade.
Não por acaso, começaram se movendo contra a violência real e a simbólica à sua vista – o fechamento de grêmios estudantis e centros acadêmicos, demissão de professores, expulsão de alunos –, o que lhes ampliou a percepção de um sistema que proibiu a expressão política, a ponto de fechar o Congresso Nacional e Universidades e destroçar corpos por conterem ideias. Daí cresceram para a concepção da democracia para todos, do mundo ideal, sem opressores e sem oprimidos, que lhes norteia a vida ainda hoje, aos 75, 80 anos, vários, mais.
Este livro conta a menor fatia temporal de suas vidas, mas não a menos intensa, o breve período em que residiram no Chile governado por Salvador Allende. Atropelados pelo golpe de 1964 na adolescência, grande parte dos exilados brasileiros foi conhecer democracia e liberdade pela primeira vez naquele país, ainda que por pouco tempo.
Os leitores verão que aqui não narro a complexa história da “via chilena para o socialismo”. Menos ainda analiso sua derrota política. Eu não teria o que acrescentar aos estudos de fôlego realizados no Chile, Brasil, Europa, Estados Unidos. Escolhi outro caminho: como algumas pessoas viveram aquela circunstância histórica?
Pretendi ouvir não personas, mas pessoas, que contaram trechos de suas vidas entre os dias mais felizes e os dias mais assustadores daquela efervescente década. Muitos, muitos, foram presos, torturados; oito brasileiros foram assassinados. Ainda assim, muitíssimos dos que entrevistei afirmaram que os dias, meses e anos em que viveram no Chile antes do 11 de setembro de 1973 foram os melhores de sua vida. A melhor fatia. Sonhando, lutando, vivendo, amando.
_________
[1] Vicente de Paula Faleiros caracteriza seus carcereiros como canibais. Faleiros era exilado político no Chile, professor de Serviço Social na Universidade Católica de Valparaíso. Após o golpe, foi trancado no porão do navio Lebu com outros 900 prisioneiros.

Clique aqui para adquirir seu exemplar do livro.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Clique aqui para ler artigos do autor.






