
É possível que a capacidade de enganar, junto ao desejo de ser enganado, jamais tenha atingido antes o que estamos testemunhando agora, abismados. As articulações verbais de Flávio Bolsonaro (as decorebas, segundo Lula), sobretudo quando num embate, são resultado de uma inabilidade inata para pensar e falar com uma dose ainda que mínima de veracidade. Mas são, ao mesmo tempo, menosprezo pela necessidade de convencimento.
É como se desse como certo que o nível de exigência dos seus seguidores se encontra num patamar tão elementar que no final das contas o sentido do que fala ou deixa de falar é desimportante. São, acima de tudo, fiéis seguidores.
Grande parte dos seus milhões de eleitores quer distância das dificuldades e nuanças do mundo real. Extasiados, desejam apenas serem guiados. Estão exaustos. Quanto menos terem de refletir, melhor. Menos esforço. É o conforto da mentira que apazigua os tormentos do dia a dia, engana a fome e a humilhante imobilidade social. Estão no limite, no nível mais baixo possível do uso das propriedades do cérebro humano para discernir e tomar decisões.
E tudo isso já estava muito evidente, não é de hoje.
Mas a fuga e as últimas decisões tomadas por Bolsonaro (proponho que os tratemos a todos eles como uma só entidade) parecem ter a capacidade de inverter o quadro: é a nossa faculdade de discernimento que por um momento se vê obstruída e paralisada.
Que imaginação faustiana seria capaz de prever tamanha patacoada?
Nossa perplexidade, que havia muito ia se aproximando do imensurável, foi sobejamente atropelada pelo mais recente episódio protagonizado pelo clã (lembre-se que antes de fugir, Flávio teve o cuidado de visitar o pai preso). Enfim, algum crédito deve ser dado a Bolsonaro: ele sempre consegue dar novos significados àquilo que pensávamos já ter compreendido.
Como medir a dimensão do deboche? – do personagem em relação aos seus seguidores, e da sociedade brasileira em relação ao personagem.
Será possível que tenhamos todos sido forçados a fazer parte dessa risível burla, partícipes involuntários, mas ainda assim partícipes dessa encenação rudimentar – dessa mentira monstruosa?
O que ela nos conta – nos espremendo contra a parede, oprimidos pela vergonha de milhões de brasileiros como eu e você – é que o candidato a presidente pela segunda maior força política do país nunca foi, na realidade, candidato num pleito no qual nos envolvemos de corpo e alma. Todos, de um lado e do outro, cada um à sua maneira e de acordo com suas capacidades. Era, então, que o personagem concorreu e levou multidões a se mobilizarem por ele, apenas sob a condição de que a ele estivesse garantida a condição de vitorioso?
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Se a fuga já era em si mesma uma arrematada estultice, a carta divulgada após a aterrisagem nos Estados Unidos consumou um desastre de grandes dimensões, se não o próprio funeral do bolsonarismo com Bolsonaro. Seja o que for que venha a acontecer a partir de agora no campo da direita e da ultradireita, não deverá ter mais a família do capitão como protagonista.
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Deixada para trás a inolvidável fuga (e a carta fabulosa), o que deverá ocorrer é um movimento (ou vários) geral de reacomodação das forças que compõem o bolsonarismo – ou, se você preferir, no topo desse movimento que obteve o apoio entusiasmado de pelo menos 60 milhões de brasileiros. Bolsonaro não os levou no jatinho de luxo no qual embarcou com a mulher e as duas filhas para os Estados Unidos.
Abandonados ao léu, em grande parte seguirão fiéis ao credo, seja quem for que se apresente para conduzi-los. É natural que o entusiasmo seja momentaneamente arrefecido, quase na mesma medida em que se verá aumentado naquela parcela dos seguidores onde o fanatismo (a fé) é o próprio conteúdo da crença – nada mais há ali que não a radical vontade de acreditar.
Da mesma forma como essa energia que move a massa de fiéis seguidores antecede o aparecimento de Bolsonaro, ela certamente continuará existindo após cair para o segundo plano. O que significa dizer que, nesse momento de agudo constrangimento, a fuga deve estar também sendo festejada por aqueles mesmos políticos que até aqui se apresentavam como coadjuvantes, atuando na sombra do mito – e se alimentando dele.
O espaço deixado pela inaudita decisão de distanciar-se da própria base (sua fonte de poder, o combustível que o moveu até onde chegou) já está sendo ocupado pelos príncipes que os acompanhavam na cruzada. Em política, dizem, não há espaço vazio – o que esvazia é imediatamente reocupado.
O unânime rechaço dos aliados ao que poderíamos chamar de manifesto da fuga – aquela afobada e mal redigida carta, na qual originalmente o candidato derrotado e foragido se declara presidente eleito – é a mais que necessária pá de cal para que o movimento todo acompanhe o funeral sem, no entanto, se meter no caixão do morto.
Talvez estejam abertas as portas para o aparecimento de uma direita menos ultra, dita civilizada pelos que de repente se tornaram órfãos. Uma direita que signifique eventualmente a alternância de poder – ao invés de ameaça à democracia.
Isso existe?
E existindo, quem, afinal, deverá capitaneá-la?
O governador de São Paulo Tarcísio de Freitas – cria e enteado de Bolsonaro? Cleitinho, de Minas Gerais? Ou está sendo ainda gestado no ventre sempre muito criativo da política tradicional da terra brasilis?
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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