
“Que vivan los estudiantes/ Jardín de nuestra alegria” é o começo de uma música da compositora chilena Violeta Parra. Viva os estudantes que iniciaram a grande virada histórica no Brasil com repercussões mundiais. Imagino que não irão tardar livros sobre uma das maiores vitórias da História, mas para isso é preciso recordar o que foi o domingo à noite do dia 4 de outubro de 2026. Metade do país estava frustrada, abatida, entristecida, cheguei a pensar em escrever sobre a frustração, mas seria frustrante, então aguardei alguns dias; aos poucos li notícias das primeiras manifestações de rua. E logo as passeatas cresceram, foi como uma centelha de fogo em serragem seca, e logo milhares e milhares ganharam as ruas.
Tudo começou na Universidade Federal Fluminense, a partir de três estudantes de Direito que convocaram uma assembleia diante da derrota no primeiro turno. O que era para ser algo pequeno logo cresceu, e ao final do encontro houve a decisão da primeira passeata no dia 5 de outubro. Na terça-feira, dia 6, foi lançado o “Manifesto dos Estudantes” pela UNE – União Nacional dos Estudantes, que logo repercutiu em todo o país. Centros e diretórios acadêmicos e os secundaristas ganharam as ruas com manifestações gigantes no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Porto Alegre e centenas de cidades por todo o país. Junto aos jovens começaram a ir os adultos e velhos, com uma mobilização de milhões de brasileiros durante semanas.
“Me gustan los estudiantes porque levantan el pecho”, assim começa a última estrofe da famosa música que eu tanto tinha escutado e voltei a recordar. O entusiasmo da juventude brasileira contagiou os pais, avós e até bisavós, pois os estudantes defendiam o presente e o futuro. Eles lembravam o que ocorreu com os cortes de verbas no governo de Jair Bolsonaro, com a hostilidade aos professores e alunos feita pelos piores ministros da Educação. Ganhar as ruas foi a palavra de ordem, pois estava em jogo o nosso país, que escapou por pouco do maior corte de verbas de todos os tempos na educação, na saúde, nos salários, aposentadorias e cultura.
O candidato à Presidência anunciou o corte de duzentos e cinquenta bilhões, e aí disse a verdade, e essa frase e outras tocaram os corações dos jovens e do povo.
Foram três semanas de ruas, na defesa do governo – que a elite definiu e repetiu como o de Lula ladrão. Aliás, essas duas palavras, Lula ladrão, foram o título de uma crônica de Maria Rita Kehl, psicanalista e jornalista de primeira. O editor teve a ideia de pôr uma pequena foto do presidente escrito embaixo: “Lula ladrão roubou meu coração”. Frase inteligente, bem-humorada, para desconstruir a mentira dita e repetida em qualquer conversa. Kehl analisa o quanto as elites sofreram, nunca admitiram ser lideradas por um nordestino, operário mecânico, sem estudos universitários, vindo da pobreza, um brasileiro da gema. Nunca gostaram do sistema de cotas que abriu as universidades aos pobres, negros e indígenas, nem o Minha Casa, Minha Vida, o Luz para Todos, o Bolsa Família, entre dezenas de planos para diminuir a grande injustiça social no país.
Uma palavra também sobre o Exército do Lula, que foi criado em abril deste ano pelo deputado Janones, mas só fez história logo após o primeiro turno.
O humorista e palhaço Claudio Thebas, que integrou o exército, explica como tudo foi um jogo, uma brincadeira, uma forma nova de lutar na democracia. Tudo era jogo, pois o exército não é exército, o general Janones não é general, o marechal Lula não é marechal, o exército é de brinquedo. Então, só nosso time para inventar uma grande brincadeira como essa, cantando e dançando nas ruas, e tudo isso não teve as instituições formais, tudo foi uma graça, engraçado, espirituoso, a serviço da seriedade das eleições.
O exército chegou a mais de dez milhões de participantes empolgados participando até na madrugada. Uma grande ideia precisa do momento certo para acontecer, para tocar os corações, e isso ocorreu diante da ameaça da derrota eleitoral.
Dois grandes movimentos se uniram para explicar, em boa parte, a vitória: manifestações estudantis e o Exército do Lula. Foram novidades em nível mundial, e o movimento popular democrático superou a famosa campanha do ódio, o amor venceu, o humor foi mais forte que a morte!
Foram superados o “Diretas Já” e todos os demais movimentos de massa no Brasil, com repercussões no mundo todo. Conquistar as ruas será um imperativo a partir de agora, junto à alegria das novas forças armadas como jogo.
“Que vivan los estudiantes/Jardín de nuestra alegria”. Logo, é preciso ser jovial em todas as idades, mantendo o entusiasmo para o bem do Brasil e do mundo. Quem escreve tem relação com quem lê, e quem ama depende do ser amado. A gente se constitui nas identificações, somos seres sociais, política toca a todos, sem amizade não se vive, se sobrevive. Logo, convém repetir o ditado zulu contra o individualismo: Umuntu ngumuntu ngabantu (Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas). Ou: “Eu sou porque nós somos”.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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