Se Pablo Marçal está na dianteira para ocupar o posto de comando da tropa de choque bolsonarista, Nikolas Ferreira não fica muito atrás. Imaginá-los como uma espécie de Ernst Röhm (o chefe da SA nazista) não será exagero. Se os métodos são outros, o espírito é praticamente o mesmo. Ainda que se igualem na rudeza e no fanatismo, há pelo menos uma diferença, e não de pequena monta: os Camisas Pardas de Röhm não tinham o enriquecimento pessoal como foco de suas ações e eram de fato dedicados militantes do racismo e do anticomunismo.

Marçal e Nikolas, apesar da pureza raivosa dos discursos contra a esquerda, o que desesperadamente anseiam é fazer crescer o cofrinho.

Nesse sentido, o coach é muito mais direto do que o pequeno Nikolas – e só não concorreu a algum cargo nas passadas eleições porque estava proibido de se candidatar. É um mascate do século XXI que se deu muito bem vendendo cursos motivacionais, empreendedorismo e segredos para a prosperidade com técnicas behavioristas, transformação pessoal visando o sucesso financeiro e que tais. Defenestrado das eleições pela justiça eleitoral, logo tratou de cavar um nicho de atuação na campanha de Flávio Bolsonaro.

Sem os talentos empresariais do coach, Nikolas encontrou na política o caminho para a rápida ascensão social e a fortuna – em apenas cinco anos, saltou do posto de vereador de Belo Horizonte a deputado mais votado do país, não sem antes tornar-se usuário frequente dos jatinhos de Daniel Vorcaro.

(Num dos diálogos entre Nikolas e Vorcaro, o deputado pede ao banqueiro para que interceda em favor de um tal Thiago Rodrigues Faria, provavelmente um testa-de-ferro, em pendência relacionada a um negócio de mineração, “e solicita que Vorcaro examine a situação e, se possível, ajude a resolvê-la”. Tudo muito republicano, é claro – faltando apenas esclarecer como um banqueiro privado pode atuar num assunto reservado à União. Àquela altura, apenas uns poucos tinham conhecimento do verdadeiro poder de compra de Vorcaro.)

De modo que ao deputado por Minas Gerais parece não ter sido difícil perceber as oportunidades oferecidas pela carreira parlamentar para o seu próprio enriquecimento. Mas aceitemos por um momento que tenha entrado na política pela descoberta de que havia um filão de ouro a ser explorado no Brasil pós-Dilma: a rejeição, a repulsa pelos movimentos políticos que apontam para uma transformação coletiva da sociedade e em defesa dos menos favorecidos.

Olhar para os seus vizinhos da periferia de Belo Horizonte ou para os fiéis que frequentavam a congregação evangélica do pai e se ver refletido neles, com praticamente nenhuma perspectiva de romper as fronteiras que os mantinham presos à classe média baixa, certamente provocava no ambicioso Nikolas uma candente revolta.

Daí que precisa se afastar, deixar para trás o berço estreito onde se sentia oprimido.

E muito antes de se sentar ao lado do coach para juntos ensinarem truques de comunicação ao adversário de Lula no debate da Band (são exímios vendedores de mercadorias intangíveis, não nos esqueçamos), o pequeno Nikolas já era uma estrela ascendente da extrema direita brasileira.

Não é de hoje, portanto, que ele, tanto quanto Pablo Marçal, repete ad nauseam seu credo fundamentalista no individualismo, nos métodos milagrosos de enriquecimento individual e seu ódio a qualquer projeto de transformação social. Fingem não saber que na sociedade onde eles conseguiram fazer fortuna isso está destinado a uma ínfima e restrita minoria.

Ao vender ardis para a ascensão individual, segredos de empreendedorismo, promessas de fortuna meteórica num país governado pelos Bolsonaros (e por eles próprios), estão apenas mentindo. A mentira está no cerne da sua pregação ideológica – e, na verdade, pouco importa se são ou não cientes disso. Eles mentem com extrema competência.

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Às vezes, Marçal e Nikolas surgem como as faces opostas de uma mesma moeda.

Quando Pablo Marçal veste seus trajes abertamente políticos, é incapaz de esconder o ódio incontrolável àqueles que, mesmo à distância, possam significar ameaça à sua ambição. Sua face lupina se ilumina e se escancara, os dentes expostos, exibindo o desejo de exterminar os inimigos e fazê-los desaparecer para que o universo se torne uma grande sala para seus cursos de prosperidade a qualquer preço.

Quanto ao pequeno Nikolas, só às escondidas o cinismo (e a ferocidade) transparece. Nas imagens de bastidores, por exemplo, quando se sente embriagado pela proximidade do triunfo. É quando vem à tona a petulância dos irremediavelmente pequenos frente aos protagonistas da história. Além de um mínimo senso de humildade, muito provavelmente lhe falte também alguma noção de ridículo.

Tão determinado quanto César às margens do Rubicão, sente-se à vontade para se referir ao antagonista, em tom de debochada superioridade: “Passou… a geração dele passou, meu irmão. Ele (Lula) é muito fraquinho. Não aguenta, simplesmente não aguenta”.

Assim é como o mais novo príncipe da ultradireita resolve decretar não apenas o crepúsculo de uma liderança e de um projeto político, como também um tempo histórico, no qual valores humanistas ainda podiam se afirmar.

O fim de uma era.

E o pior é que talvez o pequeno Nikolas e sua trupe estejam certos – e estejamos literalmente à beira do abismo. Um abismo que tem nome: qualquer coisa muito próxima do fascismo – um regime de exceções em favor do capital e apoio massivo de um amplíssimo espectro das classes médias.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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