
Amâncio mora perto do local de votação. Dez minutos de caminhada lenta, daquelas em que se parece caminhar sem destino certo, são suficientes. Ele segue titubeante. Pouco acostumado a andar no bairro em que mora, escolheu um caminho mais longo. Zigue-zagueia por entre esquinas, ruas e praças. Seu andar é truncado como seus pensamentos. Mas Amâncio não se dá conta disso. Desconhece os erros do seu caminho e dos seus pensamentos. Acha que anda em linha reta, que segue a menor e mais lógica distância até seu destino. Acha que suas decisões o levam em linha reta até seus desejos.
Ele se diz contra a corrupção e a desonestidade, apesar de não ser tão honesto como se esforça para parecer, nem tão incorruptível quanto insiste em dizer que é. Engana com pequenos trambiques e oportunismos quotidianos. Nada grande. Coisa baixa de pequenezas. Mente pequenas mentiras. Diz que são suas pequenas ideias alheias. Diz que são suas as pequenas coisas perdidas que acha na rua, mesmo quando sabe a quem pertencem. Não devolve a pequena diferença do troco dado a mais pelo feirante e esconde pequenos valores para dizer que o vendedor lhe deu o troco errado.
São tão pequenas suas desonestidades, que não as acha desonestas. “Todo mundo faz isso”, pensa. Sua corrupção é coisa normal porque banal. Não é como a corrupção dos políticos, que é sempre coisa grande, de milhões pra cima. Aquela corrupção distante da sua possibilidade de corromper é que é, para ele, corrupção de verdade. A sua não é nada. Tem outros nomes. E quando confrontado com o fato de suas desonestidades serem desonestidades, culpa os grandes corruptos. No seu pensar perdido pelo bairro da sua consciência, sua desonestidade é efeito natural da desonestidade dos grandes desonestos. A desonestidade deles é culpada. A sua é inocente.
Angélica conhece bem o bairro em que vive. Não tem carro e seus caminhos são sempre percorridos a passos largos. Anda de cabeça erguida, não por orgulho ou vaidade, mas por atenção aos perigos da rua que conhece muito bem. Não só os perigos dos ladrões que querem levar suas coisas, mas também os perigos de ser mulher num mundo onde homens a tratam como carne disponível à satisfação de suas insatisfações. Por isso zigue-zagueia no caminho até a urna. Sabe que o menor caminho é uma reta, mas também sabe que o melhor caminho é aquele que a permite chegar inteira de corpo e espírito.
Ela não vota no mesmo candidato de Amâncio. Ela vota Lula, e demonstra isso na camisa que veste. Amâncio vota no outro e também demonstra isso numa camisa amarela com uma pistola estampada. Amâncio é o tipo de pessoa que faz Angélica desviar de seu caminho reto para evitar aporrinhação.
Ela estava a ponto de dobrar a esquina. Hesitou quando viu que Amâncio, ao retirar as mãos do bolso, deixou a carteira cair no chão. Sem se aperceber, seguiu em frente com seu andar esquisito. Angélica parou. Hesitou entre avisá-lo e seguir seu caminho desviante. Entre a solidariedade para com um estranho e o risco para si mesma, optou pela solidariedade.
Acelerou o passo para alcançá-lo. Fisgou a carteira no chão. Chegando ao alcance do braço, o tocou. Amâncio virou-se meio alheio, meio surpreso. “Sua carteira”, disse Angélica, entregando-a. Amâncio olhou para a camisa de Angélica, depois para a carteira. Conferiu o conteúdo sem disfarçar a desconfiança. Virou-se e partiu sem agradecer.
Angélica sentiu-se agredida. Quase arrependida. Porém, ainda mais convicta da importância de apertar 13 na urna eletrônica.
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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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