No último artigo que escrevi aqui, há duas semanas, afirmei que teríamos um segundo turno renhido. Apontava ali que a vitória da extrema direita, no primeiro turno, lhe dava uma vantagem e um leve favoritismo no segundo turno, mas que por vários motivos a virada de Lula e seu bloco de centro-esquerda não era impossível. De fato, a candidatura de Lula conseguiu avançar, empolgar com gigantescos atos de rua – ao que a extrema direita esteve longe de fazer frente – e incorporar o voto de setores de direita, que expressaram seu voto no candidato, ou reafirmaram sua abstenção (e não o voto no outro candidato).

Esse segundo turno está chegando ao fim nesta semana. Vou então fazer uma análise breve de propostas que foram escritas ou faladas no último período, para que aqueles que ainda tenham dúvida (pouquíssima gente, imagino) possam se definir. Os temas são segurança e corrupção, economia, soberania, unidade nacional e democracia.

Segurança e corrupção são grandes temas de cortina de fumaça na campanha. Digo isto pelo histórico concreto dos candidatos. O candidato da extrema direita esteve conectado aos dois últimos governos do Rio de Janeiro, que ajudou diretamente a eleger, os de Wilson Witzel e Cláudio Castro. Nestes últimos oito anos, duvido que algum carioca ou fluminense aponte uma melhoria nestas questões no Rio de Janeiro. As políticas defendidas pelo candidato do PL são as que foram implementadas nestes oito anos, aqui no Rio. Não houve nenhuma melhoria concreta na situação do estado, e governadores foram afastados por corrupção. Promoveram algumas operações teatrais, com muitas mortes e pouco efeito na redução da criminalidade. Deputados estaduais apoiadores, inclusive o ex-presidente da Assembleia Legislativa, que seria candidato a Senador, foram afastados por conexão com o Comando Vermelho (tráfico) e milícias.

De outro lado, o presidente Lula que, apesar de não ser responsável direto pela segurança nas ruas (policiamento é questão estadual), fez propostas, inclusive a do Sistema Nacional de Segurança Pública; e no tema da corrupção, deu o respaldo a investigações da Polícia Federal sobre os temas em pauta, inclusive o Banco Master/Daniel Vorcaro, com o qual o candidato da extrema direita se envolveu ao pedir dinheiro diretamente. Bem, estão aí alguns dados para a decisão.

Na economia, como os setores economicamente mais influentes, do mundo financeiro, colocam pesadamente restrições e exigências de ajuste fiscal, qualquer que seja o eleito terá que navegar em um ambiente hostil. Aqui, temos de um lado o presidente Lula, que provavelmente vai tentar se mover sem confrontar muito as restrições (embora parte de sua coalizão apoie revisões importantes na politica orçamentária, abrindo mais espaço para o gasto público e o crescimento econômico), mas caminhando pelo que no passado era chamado de “ajuste com rosto humano”, tentando preservar os mais pobres e os programas sociais, no que for possível. De outro lado, temos o candidato da extrema direita que, embora fale que não vai fazer o que todo mundo (inclusive o grosso de sua base social) acha que ele vai fazer (cortes duros nos programas sociais), alardeia a Argentina como exemplo a ser seguido na área econômica – país que segue em crise econômica e financeira, com estagnação econômica e aumento da pobreza. Já dá para refletir sobre o tema.

Sobre soberania, não há muito o que falar, depois do “beija mão” do candidato da extrema direita a Trump nos EUA, e da ideia de incorporar representantes dos EUA aos grupos de transição de governo, o que seria uma coisa absolutamente inédita em matéria de conspurcar nossa soberania. Do outro lado, temos o candidato Lula e seu discurso na Assembleia da ONU, reafirmando que o Brasil não cabe no quintal de ninguém.

O discurso de Flávio Bolsonaro é voltado para a defesa de seu próprio grupo político (que tem como forte espinha dorsal o partido que sai como o relativamente maior nas duas casas do Congresso, o PL), com bastante exclusivismo, e um sentimento anti-Nordeste, que faz com que seja difícil escapar de um debate sobre como unir o país, política e regionalmente, com esses movimentos. De outro lado, o candidato Lula, que até por não ter maioria sozinho para a frente com a qual disputa a eleição (que já é bem diversa politicamente) fala em união e governar com todos, o que é uma proposta generosa (mas também, e fundamentalmente, pragmática), que afasta de início qualquer pretensão de exclusivismo (que, vale reforçar, ele não pode ter em função do quadro político que se estabeleceu com o resultado eleitoral).

Finalmente, vale tocar o tema decisivo e claro. Enquanto o candidato Lula defende os valores e a institucionalidade democrática, o candidato Flávio é o herdeiro da tentativa de golpe, da qual nunca fez autocrítica. Essa talvez seja a clivagem mais clara e transparente sobre esses cinco temas.

Por isso, fazendo essa breve comparação, não há como não defender o voto em Lula neste segundo turno, para que possamos continuar nos esforçando para reduzir as muitas desigualdades nacionais, buscar construir um rumo de desenvolvimento e, fundamentalmente, defender com vigor a democracia que estamos tentando construir no país nos últimos quarenta anos, e que anda bem abalada.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone

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