Se você acha que a economia é só uma questão de o Banco Central subir ou baixar os juros para controlar a inflação, a realidade tem uma péssima notícia: o jogo é muito mais bruto, financeiro e global.

  1. Dívida pública: a fábrica de ricos que o capitalismo criou

Diferentemente do que muita gente pensa, a dívida pública não foi inventada pelo capitalismo, mas foi o capitalismo que descobriu o seu verdadeiro “pulo do gato”.

Quando analisou o nascimento do sistema financeiro moderno, Karl Marx percebeu um truque brilhante: o endividamento do governo faz uma mágica contábil. A dívida, que no papel é uma obrigação do Estado, aparece no outro lado do balanço como riqueza privada e segura na mão de quem compra os títulos públicos. O governo deve, mas o mercado ganha um patrimônio garantido. E até hoje tem gente no mercado que não entendeu como essa engrenagem funciona.

Dinheiro, crédito e dívida pública não são panos em cima de uma economia real “de verdade”. A moeda não serve só para trocar mercadoria na feira, e a taxa de juros não é apenas o preço para equilibrar quem guarda dinheiro e quem quer tomar empréstimo.

Como mostrou o economista John Maynard Keynes, no mundo real as pessoas e as empresas tomam decisões cercadas de incerteza sobre o futuro. Guardar dinheiro vivo ou em títulos do governo é uma forma de proteger o próprio patrimônio. É aí que nascem os juros: na disputa entre diferentes formas de guardar e valorizar a riqueza.

  1. A regra de ouro da potência hegemônica: o Dólar manda, o Real obedece[1]

O debate econômico no Brasil ignora uma regra básica do capitalismo global: existe uma hierarquia entre as moedas e o dólar está no topo do pódio e detém um “privilégio exorbitante” que é a vantagem de emissão da principal moeda de reserva, financeira e comercial no mundo.

O conceito surgiu nos anos 1960. Foi criado por Valéry Giscard d’Estaing, que depois virou presidente da França e criticava o fato de os EUA ganharem benefícios financeiros fáceis à custa do resto do mundo. Os EUA compram produtos e financiam sua dívida imprimindo a própria moeda. Como o mundo inteiro precisa de dólares, parte da inflação é diluída globalmente. Bancos centrais do planeta guardam reservas em dólares. Matérias-primas importantes, como o petróleo, são cotadas e vendidas em dólares. Outro fator que se traduz em vantagem para os EUA é que seus títulos da dívida pública, assim como sua própria moeda, muitas vezes são vendidos por valores relativos superiores ao que de fato valem. O privilégio exorbitante permite que os Estados Unidos tomem empréstimos a taxas mais baixas e com limites muito flexíveis, além de dar aos americanos meios para impor sanções onerosas ao resto do mundo.

O dólar é a moeda do mundo. Quando a economia global entra em crise e o medo toma conta, ninguém quer saber de moedas locais: todo mundo corre para se esconder no dólar. O Real é a moeda soberana do Brasil, mas não serve para pagar contas ou guardar valor lá fora.

Essa diferença muda tudo no controle da nossa economia. O os manuais de economia dizem que o Banco Central olha a inflação, ajusta a taxa Selic, e isso naturalmente regula o crédito, o consumo e os preços no país.

Na vida real o detentor de riqueza não olha apenas Selic. Ele compara a moeda brasileira com o dólar, avalia o risco do país, a liquidez e a facilidade de tirar o dinheiro daqui a qualquer momento.

Por isso, quem realmente dá as cartas no Brasil não é apenas o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central- BC), mas o juro em dólar, chamado de “Cupom Cambial”[2] praticado no mercado brasileiro. Se o juro no Brasil não for alto o suficiente para compensar o risco em relação ao dólar, o dinheiro foge.

O BC brasileiro consegue controlar a taxa de curtíssimo prazo no mercado interno, mas faz isso amarrado à liquidez internacional. Nenhuma canetada ou regra fiscal inventada em Brasília tem o poder de transformar o Real em Dólar ou mudar essa dependência do dia para a noite.

Tratar o Banco Central do Brasil como se fosse o Federal Reserve americano é um erro conceitual, visto que o real não é uma moeda conversível internacionalmente e a economia brasileira está exposta aos fluxos globais de capital.

Ao contrário da visão tradicional (em que a taxa de juros determina a inflação e o câmbio), a taxa de câmbio é o elemento central na formação dos preços internos e na fixação das taxas de juros domésticas em países com situação de inserção financeira internacional como a brasileira: abertura da conta de capital e moeda não conversível.

Devido à hierarquia das moedas no mercado financeiro global, a teoria econômica tradicional da paridade de juros não se aplica na prática, permitindo a arbitragem constante de capitais entre mercados. O debate econômico amplo muitas vezes ignora o cupom cambial, apesar de ele ser decisivo na dinâmica do dólar, da taxa Selic e da inflação.

  1. A ilusão do Federal Reserve e a armadilha da Inteligência Artificial

A ilusão de que juros resolvem tudo não é um privilégio do Brasil – afeta também o Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA.

A teoria tradicional acredita que toda inovação tecnológica gera produtividade e crescimento automático. Mas a tecnologia funciona na base da “destruição criativa”.

No passado, as transformações nos transportes destruíram as carroças e o comércio de animais de tração. Ao mesmo tempo, geraram uma enorme demanda por novas infraestruturas, fontes de energia e fábricas ligadas a essas mudanças. E, juntos, geraram emprego e renda.

No presente, a inteligência artificial – IA deixa serviços de análise e comunicação baratos ou gratuitos, destruindo setores inteiros e tirando transações do mercado sem necessariamente criar uma massa equivalente de novos empregos.

Além disso, a IA gera novos custos pesados, como o consumo gigante de energia elétrica pelos centros de dados, encarecendo a conta de luz e gerando forte pressão sobre o meio ambiente (água) e recursos minerais.

Hoje, a inflação que o trabalhador sente no bolso não vem de salários altos, mas do aumento de itens essenciais que não podem ser substituídos: alimento, aluguel, energia e saúde. Subir a taxa de juros não faz chover, não barateia a energia e não resolve guerras no Oriente Médio ou disputas comerciais com a China.

Para piorar, com a dívida do governo americano quatro vezes maior (em relação ao PIB) do que nos anos 1980, subir juros injeta montanhas de dinheiro do próprio orçamento público direto no bolso dos grandes investidores sob a forma de rendimentos financeiros. Em vez de esfriar a economia, o juro alto turbina a renda do topo da pirâmide da mesma forma que no Brasil

  1. Breve Conclusão

Acreditar que a gestão dos juros e o arrocho fiscal conseguem resolver sozinhos os problemas de um país é viver em um mundo de ilusões teóricas.

Enquanto países emergentes continuarem reféns da dependência do dólar e os bancos centrais das grandes potências tentarem combater problemas estruturais e tecnológicos com a ferramenta cega dos juros altos, a política econômica continuará andando em círculos, tentando consertar o mundo real com fórmulas de manuais que há muito tempo deixaram de funcionar.

Notas:

  • [1] A profa. Maria da Conceição Tavares sistematicamente afirmava em seus seminários no IE/UFRJ que as pesquisas e artigos sobre a economia brasileira poderiam ter qualquer tema, só não poderiam analisá-la como uma economia fechada, sem levar em conta o câmbio.
  • [2] O cupom cambial reflete a diferença entre a taxa de juros interna e a externa (o custo de captar ou aplicar recursos em moeda estrangeira no Brasil). Ele atua como um sinalizador para o movimento de capitais (carry trade) e para as estratégias de proteção das empresas (hedges e swaps).
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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