
Há uma frase silenciosa atravessando a transição das sociedades industriais para a sociedade de serviços hiperconectada da era digital: estudei, trabalhei e, ainda assim, não consegui avançar como esperava. Ela expressa tanto um sentimento de pobreza relativa quanto, possivelmente, a perda da expectativa de uma trajetória futura superior. Esse sentimento parece acompanhar o esgotamento do projeto de modernidade ocidental, especialmente quando se rompe o contrato informal do progresso associado à mobilidade intergeracional ascendente. Quando os pais já não conseguem oferecer aos filhos a segurança que receberam de seus progenitores, a frustração pode se traduzir em opções políticas de caráter antissistêmico.
O ressentimento daí decorrente não pode ser explicado apenas pela dificuldade de adaptação à sociedade de serviços hiperconectada, tampouco pelo suposto irracionalismo dos eleitores. Ele resulta também de mudanças econômicas e sociais que fragilizaram ocupações, salários, reconhecimento e expectativas de futuro antes associadas à sociedade urbana e industrial. O neoliberalismo radicalizou essa contradição ao difundir a ideia de que cada indivíduo é responsável por seu próprio êxito ou fracasso. Ao privatizar riscos, flexibilizar relações de trabalho e transformar direitos em serviços compráveis, passou também a legitimar desigualdades como resultado do mérito individual.
Na sociedade de serviços hiperconectada, porém, a promessa de ascensão social tem se tornado mais distante. Quando as possibilidades concretas de avanço permanecem bloqueadas, o discurso meritocrático pode deixar de funcionar como promessa e passar a ser percebido como acusação. A frustração alimenta raiva e ressentimento, que tendem a buscar culpados. Esse processo é acompanhado pelo enfraquecimento de instituições de representação de interesses típicas da sociedade industrial, como associações de base, sindicatos e partidos políticos. Em seu lugar, avança uma dinâmica de individualização que atribui às pessoas a responsabilidade por dificuldades produzidas também por transformações estruturais.
Pesquisa de Jacobs e Kayser, baseada em dados de onze democracias da Europa Ocidental entre 2002 e 2020, encontrou forte associação entre mobilidade ocupacional intergeracional descendente e maior apoio a partidos de extrema direita. O estancamento da ascensão social não significa necessariamente que todo eleitor esteja economicamente derrotado. O problema surge, sobretudo, quando a perda de status se combina com a percepção de desrespeito e insegurança material, fazendo convergir frustração e ressentimento.
A experiência histórica da Alemanha oferece um exemplo importante, ainda que não deva ser transposta mecanicamente para o presente. A queda da República de Weimar (1919-1933) não pode ser explicada por uma suposta vocação alemã para o nazismo. A democracia liberal nascida após a Primeira Guerra Mundial enfrentou fome, violência política, inflação, reparações de guerra e a hostilidade de parcelas das elites ao parlamentarismo. A Grande Depressão, iniciada em 1929, também contribuiu para o aprofundamento dessa crise. A instabilidade econômica e a deterioração das expectativas transformaram frustração em desespero, ressentimento e rejeição às promessas não realizadas durante a experiência democrática. Em 1928, o Partido Nazista obteve pouco mais de 2% dos votos. Quatro anos depois, em meados de 1932, alcançou cerca de 38% e tornou-se a maior bancada do Reichstag alemão. A lição não é que toda crise produza um “Hitler”. O ponto é que a estagnação prolongada da mobilidade social, combinada ao esvaziamento das expectativas de futuro, pode enfraquecer o vínculo entre sofrimento social e confiança na democracia. Diante da crise alemã, os nazistas ofereceram uma explicação falsa, mas politicamente eficaz. Afirmaram que a Alemanha havia sido traída por inimigos internos, humilhada por adversários externos e paralisada por políticos fracos. Em contrapartida, prometiam comunidade nacional, autoridade e restauração da grandeza. Antissemitismo, anticomunismo e ultranacionalismo deram rosto aos culpados sobre os quais foram projetados o ódio e o ressentimento.
O comportamento da economia também teve importância. Estudos de Galofré-Vilà e colaboradores mostraram que localidades mais atingidas por políticas de austeridade, com cortes de gastos e aumentos de impostos apresentaram maior votação nazista entre 1930 e 1933, mesmo quando considerados fatores como desemprego, salários e produção. A austeridade não foi causa única do nazismo, mas pode ter contribuído para transformar sofrimento econômico em rejeição às soluções oferecidas pela ordem democrática. A comparação com o presente precisa, porém, parar antes da equivalência. As sociedades atuais não são a Alemanha de 1932, e partidos contemporâneos de extrema direita não podem ser automaticamente equiparados ao fascismo histórico. Há, contudo, um mecanismo que merece atenção, uma vez que as promessas democráticas esvaziadas, a manifestação da insegurança social, a perda de status e a fabricação de inimigos podem criar oportunidades para alternativas autoritárias.
Quando a economia parece incapaz de abandonar antigos dogmas neoliberais e oferecer perspectivas de melhora, a própria democracia pode ser responsabilizada por problemas que ultrapassam suas instituições políticas. Nesse contexto, a extrema direita percebeu algo que parte do campo progressista nem sempre considera suficientemente, como a perspectiva de que os eleitores não decidem apenas com base em renda ou indicadores econômicos, mas também a partir de narrativas sobre seu lugar na sociedade. Ela oferece pertencimento, hierarquia e promessa de recuperação. Ao trabalhador precarizado, pode afirmar que sua perda de posição não decorre de transformações econômicas, concentração de renda ou fragilização do trabalho, mas da presença de mulheres, imigrantes, minorias, “globalistas” ou intelectuais que supostamente teriam ocupado seu lugar. A narrativa pode ser falsa, mas torna-se politicamente poderosa porque se apoia em uma experiência real de insegurança.
Por isso, atribuir o avanço da extrema direita apenas ao preconceito é insuficiente, pois ele pode ser enfrentado, embora a democracia necessite compreender como o ódio e o ressentimento encontram terreno social fértil para crescer. A desigualdade exerce papel importante nesse processo porque não se limita à renda. Ela se manifesta também na distribuição de tempo, saúde, educação, segurança, reconhecimento e perspectivas de futuro.
O World Inequality Report 2026 destaca, por exemplo, que oportunidades educacionais, serviços públicos e empregos distribuídos de forma desigual entre territórios podem contribuir para a fragmentação da coesão social e dificultar a construção de coalizões redistributivas. Quando grandes metrópoles concentram oportunidades enquanto cidades menores acumulam perda de empregos, serviços e perspectivas, a desigualdade adquire uma dimensão territorial.
A política pode então ser reorganizada como oposição entre “os de dentro” e “os de fora”. Isso não significa que desigualdade produza automaticamente autoritarismo, mas que as democracias podem perder capacidade de transformar conflitos em representação, negociação e direitos. Quando o voto passa a ser percebido como incapaz de alterar as perspectivas concretas de vida, soluções autoritárias podem parecer um atalho.
Apesar disso, parte do receituário neoliberal continua oferecendo como resposta a qualificação individual, o empreendedorismo compulsório e a austeridade. Nenhum curso de resiliência, porém, compensa uma economia que concentra ganhos no topo da sociedade. Tampouco basta denunciar a extrema direita como irracional. É necessário retirar dela o monopólio da explicação do sofrimento social.
Reconstruir a confiança democrática exige trabalho protegido, salários dignos, serviços públicos universais, tributação progressiva, investimento territorial, moradia, educação e uma transição ecológica capaz de gerar empregos de qualidade. Exige também enfrentar padrões sociais que associam reconhecimento e identidade, inclusive masculina, exclusivamente à capacidade de prover, competir e comandar.
A democracia não será fortalecida apenas por publicidade institucional. Sua sustentação depende da capacidade de produzir autonomia, segurança e dignidade concretas. A pergunta relevante, portanto, não é simplesmente por que determinados eleitores podem se afastar da democracia, mas o que acontece quando a experiência democrática passa a ser associada, sob regimes econômicos neoliberais, à insegurança, ao endividamento, à solidão e à perda de expectativas.
A República de Weimar mostrou, há cerca de um século, que uma democracia pode ser destruída utilizando mecanismos existentes dentro da própria ordem institucional. Experiências contemporâneas mostram outro risco associado: a democracia pode começar a perder legitimidade antes mesmo de sofrer uma ruptura institucional, quando parcelas da sociedade deixam de acreditar que o futuro poderá ser melhor. Quando a mobilidade social se interrompe e o futuro passa a parecer privilégio hereditário, cresce a procura por quem prometa recolocar o elevador em movimento. Mesmo que, para fazê-lo subir, proponha incendiar o prédio.
Referências
GALOFRÉ-VILÀ, G. et al. Austerity and the rise of the Nazi Party. The Journal of Economic History, v. 81, n. 1, p. 81-113, 2021.
JACOBS, Alan M.; KAYSER, M. Downward mobility and far-right party support: broad evidence. Comparative Political Studies, 2025.
NORD, M. et al. Democracy Report 2026: unraveling the democratic era? Gothenburg: V-Dem Institute, 2026.
STUENKEL, O. Vídeo sobre frustração masculina, crise econômica e extrema direita. Instagram, 25 ago. 2026.
WORLD INEQUALITY LAB. World Inequality Report 2026: executive summary. Paris: World Inequality Lab, 2026.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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