Minha rebeldia começou nos primeiros anos de vida, pois até os quatro anos de idade eu não falava. Em silêncio, segurava as palavras. Era uma reação à casa na qual morreu num acidente um irmão de meu pai com dez anos. A morte gerou um trauma que provocou um luto infinito no meu avô e uma pesada convivência. Nasci 20 anos após essa morte, mas a casa ainda vivia num clima pesado, tanto que meu pai contava e recontava o acidente à minha irmã mais velha. Pelo que contam, meu nascimento despertou alegria que conviveu com o peso da tristeza. Minha avó que passava o dia comigo, dizia que eu iria falar, pois entendia as palavras. Comecei a falar quando a família se mudou de casa, foi um segundo nascimento. Li em Amor dos começos, livro do psicanalista francês J. B. Pontalis, coautor do primeiro dicionário de Psicanálise, que ele também não tinha falado até os quatro anos. Fiquei aliviado, pois tanto ele como eu tivemos esse problema no início da vida. Já é hora de pensar o paradoxo que é a expressão “rebeldia comportada”.

A rebeldia é definida nos dicionários como desobediência, contra a ordem, e o rebelde como teimoso, insubordinado. São definições negativas, pois a rebeldia não é de quem resiste à autoridade, é de quem primeiro mudou de ideia ao questionar o poder. Foi o que aconteceu com Thomas Morus ao escrever o livro Utopia, em 1516, imaginando uma sociedade fraterna, sem propriedade privada, onde todos trabalhavam uma mesma carga horária. O livro é uma crítica à sociedade renascentista e revela, assim, o desejo de mudança.

Entre os primeiros utopistas estão os Profetas do Velho Testamento, cujas mensagens parecem esquecidas. No livro do Profeta Isaías, capítulo 2,4, lemos: “Das suas espadas forjarão relhas de arados, e das suas lanças, foices. Não levantará a espada nação contra outra nação, nem daí por diante se adestrarão mais para a guerra”. Isaías foi um pacifista e durante dois mil e quinhentos anos assim foi, agora a realidade é chocante, pois o sonho dos Profetas virou pesadelo sem fim. Aliás, a realidade ainda está distante das sonhadas revoluções marxistas, socialistas, mas há movimentos utópicos que convivem com a distopia. No século passado, a geração de 68 ambicionou mudar todo o mundo e conquistou avanços tanto no movimento feminista, como no Queer e na maior liberdade. Já no início desse milênio transcorreu o último grande sonho de mudar o mundo com o Fórum Social Mundial. Na época, escrevi que em um momento o Fórum sabia exatamente de onde partia e para aonde almejava chegar. Ele saía do Mercado Público de Porto Alegre e chegava no Anfiteatro à beira do Guaíba. A rebeldia idealizada deu lugar, aos poucos, à rebeldia comportada.

Os sonhos que idealizaram a humanidade não foram possíveis, mas sobrevive a rebeldia adaptada às circunstâncias. Há vários exemplos, como é o caso da China Comunista, uma potência ascendente baseada numa cultura milenar, que fez uma revolução comunista em 1948. Poucos anos após, o governo assassinou em torno de cinco milhões de chineses e perseguiu com crueldade aqueles que não seguiam o partido fielmente. E conseguiram se recuperar, para construir um regime em que a liberdade é restrita, mas se ocupa de um bilhão e duzentos milhões de chineses.

Nem tudo fracassou na rebeldia. Ao contrário, muitas lutas nesse mundo por mais liberdade e justiça social foram exitosas, como o caso do feminismo. A rebeldia mudou, aprendendo a conviver com o paradoxo, como é a expressão “rebeldia comportada”, pois convive com o sonho de não se adaptar à vida como ela é, e ao mesmo tempo é comportada para conviver.

O escritor Norman Mailer disse numa entrevista que era um “conservador de esquerda”, reunindo nessa definição um paradoxo, pois as duas palavras se opõem. Logo, tanto a posição de Mailer como a “rebeldia comportada” são contradições que integram a vida de todo ser humano. Já no inconsciente, as contradições convivem sem problemas – ao contrário, nele se ama e se odeia alguém ao mesmo tempo, pois somos ambivalentes. Nada fácil aceitar que se pode odiar, ser agressivo com quem mais se ama, entretanto somos assim. E, quando só amamos, numa paixão, por exemplo, ela terá fim um dia, além do que em toda paixão há uma idealização do objeto amoroso. Ou seja: amar é maravilhoso, mas sua riqueza está em aprender a conviver com os paradoxos. O problema crescente hoje é uma forma de rebeldia cruel e destrutiva, por exemplo, em adolescentes machistas, que aprenderam com as gerações mais velhas.

A rebeldia vive nas artes, nas descobertas, no entusiasmo por uma vida em permanente aprendizagem. Seguimos a frase do poeta Wally Salomão: “criar é não se adequar à vida como ela é”, modificada pelo amigo Edson Sousa para: “Arte é não se adaptar à vida como ela é”. Ser um rebelde comportado é uma aprendizagem diária, que se pergunta e vive com graça diante da desgraça, ama a liberdade e a justiça social. Não é muito, mas num mundo enlouquecido é uma revolução. (Publicado no Face do autor)

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Clique aqui para ler artigos do autor.